quinta-feira, 7 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - CHOCOLATE

Estamos no inverno e nessa época do ano, independente do dia ser ensolarado ou não, certamente quando o sol começa a se pôr o tempo começa a esfriar e deixa um ambiente propício para comer algumas coisinhas gostosas acompanhadas de bebidas quentes. Tem gente que aguarda ansiosamente essa estação e torce para que o clima colabore só para ter esse gostinho. Realmente, vale muito a pena. Para deixar esse momento ainda mais agradável, a dica é assistir Chocolate (2000), um delicioso filme que certamente vai mexer com seu apetite e suas emoções. O cineasta Lasse Hallstrom é um mestre em dramas e tem uma tocante filmografia. Aqui ele se baseou no romance homônimo de Joanne Harris para criar uma obra com toques de fantasia, quase uma fábula, que mistura nas doses certas romance, comédia e drama, além de um visual encantador que nos leva a um passeio nostálgico pelo qua há de mais simplório na Europa de décadas atrás.

A história se passa em um pequeno vilarejo francês durante a década de 50. Quando Vianne Rocher (Juliette Binoche) e sua pequena filha Anouk (Victorie Thivisol) chegam ao local, ninguém poderia imaginar o impacto que isto teria na antiquada comunidade. A jovem senhora decide abrir uma loja de chocolates repleta de delícias de dar água na boca de qualquer um. Sua misteriosa habilidade em perceber os desejos pessoais de cada freguês e satisfazê-los oferecendo o doce certo para cada momento faz com que alguns moradores se entreguem às tentações, assim liberando sentimentos reprimidos até então. O segredo para tanto é a alquimia exótica de ingredientes, como a inesperada mistura do chocolate com a pimenta.


Apesar de conquistar alguns paladares, como da amargurada Armande (Judi Dench) e da recatada Josephine (Lena Olin), o trabalho de Vianne é mal visto por muitas pessoas. Os mais conservadores consideram uma ofensa abrir uma loja de doces bem ao lado da igreja e ainda mais na época da Quaresma. A gula não poderia dividir espaço com a religião e até poderia levar os fiéis a cometerem outros pecados, como a luxúria. Um dos habitantes que mais a ataca é o prefeito Comte de Reynaud (Alfred Molina), que não aceita sua presença na vila por considerar que ela é uma afronta aos bons costumes. A situação de Vianne fica ainda mais complicada quando o forasteiro Roux (Johnny Depp), um músico andarilho, aparece no vilarejo. Os dois ficam muito próximos, mas a vida cigana do rapaz não agrega nada de bom a já mal falada vida da doceira.

Muitos filmes já usaram a culinária ou suas matérias-primas como coadjuvantes de luxo. No caso, Hallstrom usa as guloseimas a base de chocolate como pretexto para discutir valores morais, tradições, tolerância e solidariedade embebedados em um contagiante clima lúdico e saboroso. Chega a ser reconfortante a idéia de que uma única pessoa com espírito bom consiga mudar vidas através de seu trabalho feito com muito esmero e é ainda melhor saber que essa ajuda é propiciada por uma pessoa marginalizada, ou seja, que teria todos os motivos do mundo para virar as costas aos que a cercam. A personagem de Juliette, excepcional como sempre, é um exemplo de dedicação ao próximo, apesar de que, como qualquer ser humano, não está livre de errar e ser incompreendida. Já Depp, acostumado a interpretações exageradas e cheias de tiques, apresenta-se aqui sem afetações ou estereótipos e nem o truque do cigano misterioso é usado. O personagem é mostrado como uma pessoa normal que quer e tem o direito de ser respeitado e conquistar seu lugar no mundo.


O cineasta sueco realizou uma obra correta e sem inovações. Para muitos, um filme qualquer sem grandes destaques, mas é preciso admitir que ele caprichou na receita, no recheio e no visual. Desde a recriação de uma pequena vila européia até os diversos objetos inseridos nos cenários, tudo aqui atinge a perfeição e servem para dar um ar aconchegante, como as lembranças das casas antigas dos tempos das vovós. Contribui ainda para o clima de afago e conforto a belíssima trilha sonora instrumental cujas notas que soam dos variados instrumentos compõem uma canção refinada, alegre e marcante. Chocolate é simplesmente uma produção de dar água na boca naqueles que procuram arte, cultura e entretenimento ao mesmo tempo. Uma deliciosa sugestão para uma tarde fria de férias e, de preferência, para ser assistida acompanhada de uma xícara de chocolate bem quentinho.

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