sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - CINDERELA

Não tem mais jeito. A cada ano que passa menos espaço as animações tradicionais encontram no mercado de exibição, sendo assim tais produções sobrevivem através dos lucros com locadoras e varejos, mas acabaram se tornando obras restritas a plateias de crianças bem pequenas ou de adultos nostálgicos. Os desenhos mais moderninhos são bacanas, divertem a todas as idades e a maioria está repleta de críticas ou sarcasmos implícitos, mas já faz algum tempo que esses filmes estão se tornando repetitivos ou até mesmo com histórias fracas. O relançamento este ano do clássico Disney Cinderela (1950) é muito bem-vindo para sair da rotina. Embora o conto da gata borralheira seja super conhecido e demasiadamente açucarado, o estilo antigo de fazer animação é o grande chamariz no caso. Os traços suaves, os tons aquarelados, a história simplória e a convidativa trilha sonora. Tudo aqui vale a pena.
 
O conto da Cinderela já sofreu inúmeras modificações com o passar dos anos em suas versões para o cinema, teatro, televisão e até na própria literatura. Embora a versão dos famosos Irmãos Grimm seja levada em conta como o texto original, o senhor Walt Disney deu sinal verde para a produção deste longa animado baseando-se no livro homônimo de Charles Perrault que foi adaptado por quase uma dezena de roteiristas. Com a direção de Clyde Gernimi, Hamilton Luske e Wilfred Jackson, o longa narra a história da bela e gentil Cinderela, uma jovem que perdeu o pai muito cedo e foi criada por sua madrasta, Lady Tremaine, em companhia de suas duas meias-irmãs. Obrigada a fazer todos os serviços domésticos da casa, a moça nunca se sentiu parte desta família e seus únicos amigos são alguns animaizinhos que a rodeiam, como alguns ratinhos. São justamente eles que ajudarão Cinderela a realizar um grande sonho: ir ao baile promovido pelo príncipe que deseja encontrar sua futura esposa.

 A madrasta faz de tudo para evitar que Cinderela compareça ao baile, pois quer que uma de suas filhas conquiste o anfitrião, mas quando menos espera a moça recebe a visita da bondosa Fada Madrinha que lhe arruma um belo vestido de festa, transforma os ratinhos em cavalos e cocheiros para conduzir a carruagem feita a partir de uma abóbora e, por fim, oferece a ela um sapato de cristal. Porém, toda essa magia só dura até o relógio soar a meia-noite, o que obriga Cinderela a sair correndo no melhor da festa, quando conseguiu se aproximar do príncipe. O rapaz não sabe seu nome e nem onde ela mora, tendo como única pista o sapato que ela deixa cair na escadaria do palácio. Bem, essa sinopse seria até desnecessária de tão conhecida que é, mas é irresistível relembrar a magia deste desenho que se tornou um marco da história da Disney e da própria sétima arte.
 
Na época em que este desenho foi lançado, a Disney passava por momentos de dificuldades devido ao fracasso de outras produções que hoje são consideradas clássicas. Não que elas fossem ruins, pelo contrário, mas o momento não era convidativo para o entretenimento. Na década de 1940, boa parte dela marcada pela Segunda Guerra Mundial, as pessoas estavam sofrendo com as atrocidades do conflito e não pensavam em ir ao cinema. O projeto de levar o conto da gata borralheira para as telonas era a chance do estúdio de animação recuperar seu prestígio após oito anos sem lançar uma animação em longa-metragem e encher seus cofres, e assim aconteceu. O sucesso foi tanto que o longa acabou dando um gás à empresa e o senhor Walt Disney voltou a sentir vontade de investir em animações mais ambiciosas. Antes a maioria dos projetos era no formato de curtas e médias-metragens compilados para economizar. Pelo que este trabalho representou na trajetória Disney, sua salvação, não é a toa que o castelo do filme foi escolhido para ser o grande símbolo e centro das atenções do parque da empresa, a Disneylândia, que seria inaugurado alguns anos mais tarde.
 
Cinderela ainda acumula outros méritos como ter sido quase todo feito baseando-se em modelos reais para a construção dos personagens, ter sido o primeiro longa da empresa a ter sua trilha sonora comercializada e até hoje é considerada umas das melhores animações de todos os tempos segundo órgãos especializados. Ainda recebeu três indicações ao Oscar, ganhou o Urso de Ouro de Melhor Musical no Festival de Berlim e rendeu um prêmio especial no Festival de Veneza. É muito bom poder ainda hoje conferir o colorido e os traços e delicados e precisos de uma animação datada de uma época em que não era apenas o dinheiro que falava mais alto, mas também era levado muito em consideração o respeito à sétima arte. A emoção deste clássico felizmente continua até hoje conquistando novas gerações e alimentando a nostalgia dos mais velhos. O mais importante de tudo isso é lembrar que os sonhos se realizam e hoje em dia precisamos muito recuperar esta esperança, principalmente nas crianças. Aproveitem o relançamento, senão só daqui a alguns longos anos a obra voltará ao mercado para arrebatar um novo público.

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