quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ESQUECERAM DE... O CHEIRO DO PAPAIA VERDE

O cinema oriental nos últimos anos conseguiu extrapolar as barreiras do cult e chegar ao grande público graças a grande projeção de obras como O Tigre e o Dragão, Herói, O Clã das Adagas Voadoras e Memórias de Uma Gueixa. Hoje até é possível observar um leve retrocesso na procura de filmes orientais por parte dos espectadores, sendo que a maior parte das obras do tipo lançada fica restritas ao circuito alternativo de exibição ou são lançadas diretamente em DVD. Na década de 90, os filmes produzidos do outro lado do mundo chegavam até nós graças aos prêmios e indicações que conquistavam, o que reforçavam sua publicidade, mas ainda assim a procura não era suficiente. Felizmente, sempre existiram distribuidoras com o intuito de levar raridades aos países mais distantes e foi assim que alguns cinéfilos ficaram conhecendo a cultura dos povos dos olhinhos puxados. No meio da leva do início dos anos 90, encontramos algo inusitado: O Cheiro do Papaia Verde (1993),um filme poético passado no Vietnã. Sim, o país marcado pela imagem da guerra também faz cinema, aliás, com imagens deslumbrantes.

Na realidade esta é uma produção franco-vietnamita escrita e dirigida por Tran Anh Hung. Dividindo os elogios entre a França e o Vietnã, a obra participou de festivais e ganhou alguns poucos prêmios, mas o suficiente para transformá-lo em um título cultuado, ainda mais após a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A obra segue a receita das grandes produções de estilo oriental. A estética, o texto e o ritmo parecem ser comandados por uma única pessoa de tão perfeita que é a harmonia entre eles. Trilha sonora tranquila, cores sutis, fotografia impecável e interpretações que nos fazem acreditar que uma imagem vale mais que mil palavras. No mesmo estilo de seu contemporâneo Como Água Para Chocolate, aqui a comida é um adorno essencial para falar de relacionamentos, o que explica o seu curioso título. Ficamos com vontade de experimentar o sabor e o cheiro da tal fruta, mas para o cinéfilo que gosta de penetrar na obra com sua imaginação digamos que essas sensações são quase plenamente satisfeitas graças ao eficiente e cuidadoso trabalho do cineasta.

A história se passa no Vietnã na década de 50. Com apenas dez anos de idade, Mùi (Lu Man San), uma pequena camponesa, deixa sua aldeia e vai trabalhar como empregada na casa de uma família burguesa em Saigon. O clã um já teve seus tempos de luxo e fartura, mas agora sofre os efeitos da crise econômica pela qual passa o País e das regulares ausências do dono da casa (Ngoc Trung Tran) que, sem razão aparente, desaparece por algum tempo levando dinheiro. Sem o marido, sua esposa (Thi Loc Truong) é quem controla as contas da casa e comercializa tecidos a fim de ganhar algum dinheiro para sustentar seus três filhos, um já adolescente e os outros mais novos, e manter alguma dignidade. Na casa, mora ainda a avó paterna (Thi Hai Vo), que não abandona seu quarto no andar superior, desde a morte da neta que teria a idade de Mùi, se fosse viva.


Com a ajuda de Ti (Anh Hoa Nguyen), uma empregada já idosa, Mùi vai se adaptando aos trabalhos domésticos. Orientada por ela, a jovem aprende as tarefas como, colher mamão verde, ralá-lo, servir as refeições e esfregar o assoalho. Conforme o tempo passa, a situação econômia da família piora e a rotina da casa é abalada com a morte do pai. A essa altura, Mùi (Tran Nu Yên-Khê) já é uma moça, mas não tem mais possibilidades de trabalhar naquela casa e é enviada para a residência de Khuyen (Hoa Hoi Vuong), um amigo da família. Na realidade, a jovem já conhecia o novo patrão desde quando eles eram crianças. Agora, ele é um homem sofisticado, pianista clássico, fala com fluência o francês e tem uma amante dispendiosa (Vantha Talisman). Aos poucos, a jovem empregada dá sinais de que está apaixonada pelo rapaz, mas ele a princípio não nota. Porém, quando percebe, Khuyen fica balançado e repensa sua relação com ela.

Com uma história singela e romântica em destaque, o filme também nos apresenta como pano de fundo importantes aspectos históricos e sociais. Aqui vemos uma sociedade passando por mudanças culturais e econômicas antes da tão comentada e triste Guerra do Vietnã. Nesse cenário, a protagonista representa milhares de mulheres que viveram sob a condição de serva durante anos, as vezes até a morte, seja trabalhando para uma família ou atendendo as vontades do marido. Obviamente, a obra é intimista e conta com um ritmo lento, enaltecido pelas belíssimas imagens e cenários, o que deve afugentar os mais impacientes. Porém, essa estética e estilo narrativo são essenciais para a boa condução da trama que conta com poucos diálogos, principalmente quando o final se aproxima. O Cheiro do Papaia Verde é dos tempos das fitas VHS, por isso hoje é mais que uma raridade. Tomara que alguma distribuidora resgate o título e o lance no mercado novamente. Para quem ficou curioso para conhecer o delicado trabalho do cineasta Tran Ahn Ang, é um pouco mais fácil achar As Luzes de Um Verão, mais um trabalho que nos faz esquecer a imagem triste e ferida que temos do Vietnã graças as montanhas de produções a respeito da guerra.

2 comentários:

Clássicos Antigos disse...

Excelente!

Sara Duque Estrada disse...

Genial este filme. Amei o post, traduziu o que penso sobre o filme.

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