quinta-feira, 15 de setembro de 2011

DANIEL DAY-LEWIS, A PERFEIÇÃO REVERTIDA EM APLAUSOS


Ele é um dos astros mais talentosos do cinema. Entre os vários prêmios que coleciona, estão duas estatuetas do Oscar. Convites para atuar não lhe faltam, porém, cada aparição sua é quase que um evento, já que ele não é muito fã de emendar um trabalho no outro e até já pensou em abandonar a carreira. Daniel Day-Lewis é uma estrela avessa a badalações e é muito discreto. Seu talento e imagem só podem ser conferidos quando ele julga necessário, ou seja, quando tem algum filme sendo lançado, período que, não raramente, é estendido devido as suas interpretações agradarem tanto a crítica que é quase certo que ele estará frequentando as principais festas de premiações.

Daniel Michael Blake Day-Lewis, mais conhecido como Daniel Day-Lewis, nasceu em Londres no dia 29 de abril de 1957 e detém dupla nacionalidade, britânica e irlandesa. Ele é filho da atriz Jill Balcon, que vem de uma família judia, e do poeta inglês Cecil Day-Lewis e cresceu na cidade Greenwich junto com sua irmã Tamasin Day-Lewis, que se tronou cineasta e chefe de televisão. O ator guarda mágoas do pai, este que já tinha 53 anos quando o futuro astro nasceu e conviveu pouco com os filhos, tanto por causa de problemas de saúde quanto por pura falta de interesse.

Day-Lewis cursou escolas públicas, mas abandonou os estudos muito jovem já sonhando em se dedicar ao cinema. Logo aos 14 anos conseguiu o papel de um vândalo no drama Domingo Maldito (1971), porém, sua participação não é creditada. Mesmo assim, ele se apaixonou pelas artes dramáticas e empenhou-se em apreender o máximo possível sobre a carreira e tudo que a cercava, tanto é que só voltaria a atuar em filmes, diga-se de passagem, feitos para a TV uma década depois, época em que já se sentia autoconfiante para levar a profissão a sério. Em todos esses anos, ele procurou especialização nos palcos de teatros, estudou nas melhores companhias britânicas.

Em 1982, fez realmente sua estréia no cinema no drama épico Gandhi, vencedor do Oscar, a respeito do líder pacifista indiano, mas sua participação, porém, também é pequena interpretando um garoto de rua, mas já era o primeiro projeto em que se envolvia e que seria lembrado nas premiações. Participou nos anos seguintes de filmes menores e de pouca importância, até que em 1985 teve seu nome creditado em Uma Janela Para o Amor, mais um trabalho digno de prêmios e que chegou com força na festa do Oscar. Ele encarna aqui um aristocrático noivo da protagonista vivida por Helena Bonham Carter. Com esse papel chamou a atenção da crítica, mas para Day-Lewis a projeção ainda não era suficiente. Ele precisava de um personagem que o desafiasse e chocasse ao público, demonstrando assim sua versatilidade e que não estava no meio cinematográfico para ser um coadjuvante de luxo. Essa chance não demorou a chegar. Minha Adorável Lavanderia (1986) catapultou o nome do ator e do diretor do longa, o cultuado Stephen Frears. O filme retrata a relação amorosa existente entre um inglês e um árabe que juntos gerenciam uma lavanderia e enfrentam o preconceito da sociedade londrina e conservadora.

Já conceituado, não haveria porque o ator aceitar qualquer convite de cinema, tanto é que sua filmografia, apesar de não ser muito longa, é recheada de bons títulos. Assim, o ator deu um tempo de descanso e voltou aos holofotes em 1988 com outro filme marcante e pelas mãos de mais um grande diretor, Philip Kauffman. A Insustentável Leveza do Ser se passa na Tchecoslováquia nos anos 60 e aborda a estranha relação a três dos personagens de Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin pouco antes da invasão russa na chamada Primavera de Praga. No mesmo ano, o intérprete tentaria variar seu estilo na comédia Stars and Bars, mas sem sucesso.

Para fechar a década com chave de ouro, em 1989 o ator conquistou seu primeiro Oscar por sua tocante interpretação de um homem com paralisia cerebral em Meu Pé Esquerdo. O título se refere a única parte de seu corpo que o personagem conseguia controlar e a utilizava com muita habilidade para realizar trabalhos de pintura e escrever. Ficou famosa a decisão de Day-Lewis de abandonar a cadeira de rodas nem mesmo quando estava fora de cena, visando assim compreender ao máximo o sofrimento de seu personagem inválido. O esforço valeu a pena e ele ficou muito amigo do cineasta Jim Sheridan com quem ainda viria a trabalhar em Em Nome do Pai (1993) e O Lutador (1997). O primeiro é um drama a respeito de um irlandês injustamente acusado de participar de um atentado terrorista. Mais uma avalanche de indicações a grandes prêmios se seguiu e o ator conseguiu ter outro olhar a respeito da Irlanda a ponto de pedir a cidadania irlandesa. Já o segundo mostrou sinais de desgastes na relação entre o diretor e o ator e foi alvejado pela crítica. Aqui ele vive um romance com uma jovem, mas ambos ficam divididos entre a paixão e a fidelidade as suas tradições. Após anos na prisão, ele quer reconquistar a mulher que ama e sua carreira de boxeador.

Com a estatueta tão cobiçada em mãos, tornou-se requisitado para todo e qualquer papel dramático nos EUA e na Inglaterra, mas não quis saber de aproveitar o sucesso. Após uma crise de exaustão que sofreu em uma apresentação teatral ele sumiu e só retornou aos sets de gravações em 1992 para a aventura épica O Último dos Moicanos, de Michael Mann. Muito preocupado com a composição de seus papéis, para viver um índio que protege a filha de um coronel britânico em meio à guerra franco-indígena, ele malhou por mais de um ano e fez questão de ter contato com a rotina e tradições do povo moicano.


Estrela escondida

Sem dúvidas, trabalhar com Day-Lewis deve ser o sonho de qualquer cineasta e vários dos nomes mais quentes conseguiram essa honra. Em 1993 foi a vez de Martin Scorsese que o chamou para o drama romântico A Época da Inocência. Aqui ele vive um advogado com a carreira em ascensão e noivo de uma socialite, mas que decide arriscar tudo para viver sua paixão pela prima da moça. Hoje um título aclamado, na época o resultado não agradou muito, apesar de o longa ter sido lembrado nas premiações por sua parte artística, como figurinos e cenários. O tipo de produção realmente não era próximo ao estilo do diretor e coincidentemente ou não a partir de então o ator britânico resolveu ser cada vez mais criterioso para a escolha dos trabalhos e a ser mais recluso. Tanto que seu retorno as telas só ocorreu em 1996, com mais um projeto ambicioso e do qual participou provavelmente apenas por ser baseado na mais famosa peça de seu sogro, Arthur Miller (ele é casado com a figurinista Rebecca Miller). Trata-se de As Bruxas de Salém, mistura de drama e suspense passada na época medieval, no qual vive o ex-amante da personagem de Winona Ryder, esta que leva um vilarejo a uma histeria coletiva ao afirmar que suas colegas são bruxas com pactos com o demônio.

No ano seguinte, após o fracasso do já citado O Lutador, Day-Lewis resolveu dar um basta na carreira e foi morar na Itália e se afastou do cinema, vivendo uma vida simples e trabalhando como sapateiro. Recusou um dos papéis principais da trilogia O Senhor dos Anéis, que acabou ficando com Viggo Mortensen, e só retornou as telas grandes em 2002 ironicamente pelas mãos de Scorsese, o mesmo que pode ter motivado a desilusão do ator com o meio cinematográfico. Ele foi enganado com falsos motivos para voltar ao solo americano pelo diretor, Leonardo DiCaprio e Harvey Weinstein, o chefe da Miramax, produtora do épico Gangues de Nova York, no qual ele acabou aceitando interpretar um açougueiro, na realidade um violento líder da gangue dos nativos que disputa com a gangue dos irlandeses o controle de uma parte de Nova York. O filme dividiu a crítica, perdeu as várias indicações ao Oscar que obteve, mas houve um consenso geral de que a o recluso astro fez um retorno triunfal.

Tanto prestígio não iludiu o ator. Depois disso ele só participou de três longas, sendo um deles mais um que o encheu de prêmios, incluindo seu segundo Oscar. Em Sangue Negro (2007) ele vive um severo pai de família que perfura poços em busca de petróleo para enriquecerem rapidamente, mas acaba comprando briga com um jovem pastor. Os outros dois títulos são O Mundo de Jack e Rose (2005), em que vive um pai solteiro que procura reconstruir sua vida, mas encontra resistência da filha adolescente, e Nine (2009), musical em que o protagonista é um diretor de cinema com bloqueio criativo que recorre as memórias das mulheres que tem grande influência em sua vida.

A carreira de Day-Lewis é sem dúvida invejável e a prova de que um grande ator não precisa estar em cena anualmente. A reclusão auxilia para que o intérprete se recicle e retorne com força total para agarrar com unhas e dentes o desafio de compor um novo personagem. O perfeccionismo de suas interpretações só é possível porque esse ator britânico e irlandês não se acomoda e espera que alguém lhe diga o que fazer. Ele vai atrás da vivência das pessoas reais e dos livros de histórias para conseguir os subsídios necessários para criar tipos totalmente verossímeis, por mais diferentes que eles sejam de ele próprio. Esforço em busca da perfeição que ele ganha depois em forma de aplausos e prêmios. Vamos ver quanto tempo irá demorar para que ele retorne as telas com mais um grande trabalho. Tomara que não demore muito.

2 comentários:

renatocinema disse...

Ator símbolo de sua geração.

Um dos melhores que já vi atuar.

Rafael W. disse...

Um dos melhores da atualidade, sem dúvidas.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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