
Quando estreou, o longa trazia a esperança de uma nova era para o estúdio que fez sua fama com as histórias de princesas e bruxas, algo já ensaiado alguns anos antes quando apostaram suas fichas em Lilo e Stitch atingindo certa repercussão e bilheteria considerável. Com o mercado inflado com novas empresas investindo no campo em que antes dominava, a Disney estava correndo contra o tempo e procurando reunir em um mesmo produto as características que marcaram seus concorrentes: história moderninha, ágil, trilha sonora pop e as citações de outras obras do cinema ou qualquer outra coisa que pudesse ser encaixado na narrativa de forma a serem facilmente identificados pela platéia e causar humor. Assim temos a música-tema de Indiana Jones em certa passagem e é feita uma comparação de um conflito desenvolvido no filme com a clássica história da guerra dos mundos, além de algumas músicas que marcaram época nas vozes de Barbra Streisand e do extinto grupo Spice Girls.
O grande foco desta animação, inspirada em uma fábula infantil, é discutir as relações familiares e o velho gancho dos excluídos dando o troco e se dando. Para tanto recorre a personagens cativantes e com características suficientes para serem tratados como os estranhos da turma da escola e até mesmo da cidade, a começar pelo protagonista, Chicken Little, um galinho que colocou todos a sua volta em situação de desespero quando afirmou que um pedaço do céu havia caído em cima dele e que o fim do mundo estaria próximo. Na realidade ele foi atingido por uma avelã, mas por ser muito miúdo acabou confundindo. A partir de então ele passou a ser desprezado pelas pessoas e nem com o apoio do pai podia contar, já que eles tinham uma relação aparentemente amigável, porém, não havia estímulo para o galinho enfrentar desafios. Tudo muda quando Little toma coragem e participa de um jogo de beisebol da escola e vira o jogo literalmente, mas não demora muito e ele volta a ser alvo de chacota quando novamente diz que o céu estava caindo. Só seus amigos de verdade acreditam, mas desta vez realmente algo estranho caiu lá de cima diretamente em seu quarto e essa era sua grande chance de provar seu valor para todos enfrentando o desconhecido.
O diretor Mark Dindal, o mesmo de A Nova Onda do Imperador, mais uma tentativa da Disney em se comunicar com o estilo da garotada dos anos 2000, criou uma obra que deixa explícita sua lição de moral pela relação de pai e filho, mas arrisca dar uma inovada em seu hall de personagens com tipos criados para serem os "escadas" do protagonista. Desta forma, o desenho seria perfeito para agradar crianças e adultos, mas não foi o que aconteceu. O visual colorido, muita agitação e personagens engraçadinhos tratam de fazer a alegria da mulecada, mas seus pais ficam com o pé atrás. Muito porque os mais grandinhos que já deixaram de gostar dos desenhos que passam na TV devem questionar o mesmo tratamento dado ao filme. Algumas sequências realmente deixam clara a falta de experiência dos animadores com novas tecnologias, algo muito notado nas cenas mais escuras, como as do quarto de Little ou quando o mistério das quedas do céu é solucionado. Faltam elementos que tragam vida a tais cenas e até a rapidez de algumas delas incomoda, mas dos males o menor. O bicho pega mesmo pelo fato do roteiro vira e mexe abrir espaço para um discurso de auto-ajuda. A todo o momento o galinho quer afirmar sua competência e esperteza, combinando bem com sua carinha de gênio, o que acaba picotando a narrativa.
Para muitos é discutível também a gama de personagens criados para explorar o tema dos rejeitados e suas inúmeras tentativas de a qualquer custo se manter em evidência. Little tem cara de intelectual e uma cabeça desproporcional ao corpo provando sua veia cerebral, mas nem por isso se esconde e faz questão de usar óculos com armação colorida e roupas da moda, um nerd moderno. Hebe Marreca é uma pata dentuça e com grandes olhos que não se importa de ser chamada de feia e se informa sobre tudo que precisa através de revistas para adolescentes descoladas. O Raspa de Tacho talvez seja o mais estereotipado de todos. O gordinho atrapalhado da turma (o tipo nunca pode faltar quando se discute preconceito) ainda por cima curte algumas músicas e têm certos trejeitos que denunciam uma tendência homossexual, algo que passa despercebido pelos pequenos, mas alguns adultos pescam a idéia e repudiam a menção em um produto Disney. Falando em pescar, também temos o Peixe Fora D'Água, outro aluno do colégio que sobrevive fora da água graças a um escafandro. Sem falar uma única palavra, ele é tão cativante e engraçadinho quanto os outros. Mostrados de forma franzina e ridicularizada, eles ganham suas versões dos sonhos em um filme dentro do filme que encerra a projeção. Enfim, O Galinho Chicken Little é uma animação que merece uma nova avaliação por parte do público e crítica e ser apresentada a novas gerações. Mas para se divertir totalmente é preciso evitar as comparações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário