terça-feira, 3 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - O GALINHO CHICKEN LITTLE

Quando a Disney engrenou de vez pelo caminho da distribuição dos produtos da Pixar, ela perdeu praticamente sua identidade. Depois de sucessivos fracassos de bilheterias de produções em formato tradicional, ela decidiu copiar o modelo do estúdio colaborador e investir em trabalhos próximos ao estilo computadorizado que fizeram a fama de Monstros S.A. e Procurando Nemo, por exemplo. Para muitos, essa decisão significava dar mais valor a tecnologia e imagem do que ao roteiro e a emoção, mas com capricho e imaginação é possível aliar as duas coisas em um mesmo filme. A primeira investida solo dos estúdios do Mickey Mouse no campo da animação totalmente digital foi O Galinho Chicken Little, um longa que a crítica especializada recebeu com frieza e cheio de preconceitos. Obviamente, compará-lo com Shrek ou Os Incríveis é uma tremenda covardia. Com estilo de episódio esticado de série animada de televisão, é preciso se ater somente a ele para poder perceber que o mesmo cumpre o que promete: simplesmente divertir, principalmente a garotada.

Quando estreou, o longa trazia a esperança de uma nova era para o estúdio que fez sua fama com as histórias de princesas e bruxas, algo já ensaiado alguns anos antes quando apostaram suas fichas em Lilo e Stitch atingindo certa repercussão e bilheteria considerável. Com o mercado inflado com novas empresas investindo no campo em que antes dominava, a Disney estava correndo contra o tempo e procurando reunir em um mesmo produto as características que marcaram seus concorrentes: história moderninha, ágil, trilha sonora pop e as citações de outras obras do cinema ou qualquer outra coisa que pudesse ser encaixado na narrativa de forma a serem facilmente identificados pela platéia e causar humor. Assim temos a música-tema de Indiana Jones em certa passagem e é feita uma comparação de um conflito desenvolvido no filme com a clássica história da guerra dos mundos, além de algumas músicas que marcaram época nas vozes de Barbra Streisand e do extinto grupo Spice Girls.


O grande foco desta animação, inspirada em uma fábula infantil, é discutir as relações familiares e o velho gancho dos excluídos dando o troco e se dando. Para tanto recorre a personagens cativantes e com características suficientes para serem tratados como os estranhos da turma da escola e até mesmo da cidade, a começar pelo protagonista, Chicken Little, um galinho que colocou todos a sua volta em situação de desespero quando afirmou que um pedaço do céu havia caído em cima dele e que o fim do mundo estaria próximo. Na realidade ele foi atingido por uma avelã, mas por ser muito miúdo acabou confundindo. A partir de então ele passou a ser desprezado pelas pessoas e nem com o apoio do pai podia contar, já que eles tinham uma relação aparentemente amigável, porém, não havia estímulo para o galinho enfrentar desafios. Tudo muda quando Little toma coragem e participa de um jogo de beisebol da escola e vira o jogo literalmente, mas não demora muito e ele volta a ser alvo de chacota quando novamente diz que o céu estava caindo. Só seus amigos de verdade acreditam, mas desta vez realmente algo estranho caiu lá de cima diretamente em seu quarto e essa era sua grande chance de provar seu valor para todos enfrentando o desconhecido.

O diretor Mark Dindal, o mesmo de A Nova Onda do Imperador, mais uma tentativa da Disney em se comunicar com o estilo da garotada dos anos 2000, criou uma obra que deixa explícita sua lição de moral pela relação de pai e filho, mas arrisca dar uma inovada em seu hall de personagens com tipos criados para serem os "escadas" do protagonista. Desta forma, o desenho seria perfeito para agradar crianças e adultos, mas não foi o que aconteceu. O visual colorido, muita agitação e personagens engraçadinhos tratam de fazer a alegria da mulecada, mas seus pais ficam com o pé atrás. Muito porque os mais grandinhos que já deixaram de gostar dos desenhos que passam na TV devem questionar o mesmo tratamento dado ao filme. Algumas sequências realmente deixam clara a falta de experiência dos animadores com novas tecnologias, algo muito notado nas cenas mais escuras, como as do quarto de Little ou quando o mistério das quedas do céu é solucionado. Faltam elementos que tragam vida a tais cenas e até a rapidez de algumas delas incomoda, mas dos males o menor. O bicho pega mesmo pelo fato do roteiro vira e mexe abrir espaço para um discurso de auto-ajuda. A todo o momento o galinho quer afirmar sua competência e esperteza, combinando bem com sua carinha de gênio, o que acaba picotando a narrativa.


Para muitos é discutível também a gama de personagens criados para explorar o tema dos rejeitados e suas inúmeras tentativas de a qualquer custo se manter em evidência. Little tem cara de intelectual e uma cabeça desproporcional ao corpo provando sua veia cerebral, mas nem por isso se esconde e faz questão de usar óculos com armação colorida e roupas da moda, um nerd moderno. Hebe Marreca é uma pata dentuça e com grandes olhos que não se importa de ser chamada de feia e se informa sobre tudo que precisa através de revistas para adolescentes descoladas. O Raspa de Tacho talvez seja o mais estereotipado de todos. O gordinho atrapalhado da turma (o tipo nunca pode faltar quando se discute preconceito) ainda por cima curte algumas músicas e têm certos trejeitos que denunciam uma tendência homossexual, algo que passa despercebido pelos pequenos, mas alguns adultos pescam a idéia e repudiam a menção em um produto Disney. Falando em pescar, também temos o Peixe Fora D'Água, outro aluno do colégio que sobrevive fora da água graças a um escafandro. Sem falar uma única palavra, ele é tão cativante e engraçadinho quanto os outros. Mostrados de forma franzina e ridicularizada, eles ganham suas versões dos sonhos em um filme dentro do filme que encerra a projeção. Enfim, O Galinho Chicken Little é uma animação que merece uma nova avaliação por parte do público e crítica e ser apresentada a novas gerações. Mas para se divertir totalmente é preciso evitar as comparações.

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