segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - UMA GAROTA ENCANTADA

Desde que um ogro verde chegou aos cinemas e mudou a maneira do público enxergar os desenhos animados, diversas outras produções resolveram beber na mesma fonte e o resultado foi uma avalanche de filmes cheios de citações a outros sucessos do cinema, referências a acontecimentos de conhecimento mundial, criticas a sociedade moderna, mas tudo embalado por trilhas sonoras repletas de canções famosas e tendo como matéria-prima principal os contos de fadas. Não que as paródias e o recurso da intertextualidade fossem novidade no mundo cinematográfico, mas Shrek fisgou platéias de todas as idades com seu humor em cima das histórias clássicas de princesas que até hoje ajudam a sustentar o império Disney. Esse modelo de filme não se restringiu apenas ao gênero de animação e se estendeu, assim nasceu Uma Garota Encantada (2004), uma comédia infanto-juvenil, mas que pode ser muito bem apreciada também pelos adultos e uma excelente pedida para começar o ano bem.


Tendo como inspiração para a espinha dorsal da história uma mistura do conto da Cinderela com o da Bela Adormecida, acompanhamos desde o nascimento até a juventude os problemas enfrentados por Ella (Anne Hathaway), que ganhou um presente de grego de sua fada madrinha Lucinda (Viviva A. Fox): o dom da obediência. Assim ela cresceu fazendo tudo o que as pessoas mandavam sem conseguir recusar e isso se tornou uma perturbadora maldição. Quando seu pai Sir Peter (Patrick Bergin) resolve se casar novamente, a vida da jovem piora ainda mais. Sua madrasta Olga (Joanna Lumley) é fútil e gananciosa e suas meias-irmãs Hattie (Lucy Punch) e Olive (Jennifer Higham) descobrem o seu segredo e passam a explorá-la cada vez mais para se divertirem as suas custas. Cansada dessa vida, Ella decide, com o apoio de sua babá Mandy (Minnie Driver), ir ao encontro de Lucinda para pedir que lhe retire o feitiço . No caminho, ela faz amizade com o elfo Slannen (Aidan McArdle), que quer reivindicar os direitos de seu povo, e conhece também o príncipe Char (Hugh Dancy), um jovem que está em busca de um amor. Juntos eles enfrentarão muitos perigos na floresta à procura de realizar seus sonhos. Como todos os títulos destinados a parodiar, é preciso prestar atenção no texto e ter um mínimo de conhecimentos gerais para poder gargalhar, por isso certas piadas podem não ser compreendidas por crianças como uma brincadeira com a febre estética do botox, mas nada que atrapalhe a diversão.


Por se passar em um reino fantástico habitado por gigantes, ogros, fadas e duendes, ter um vilão de família nobre e usar e abusar de músicas agitadas do tempo da discoteca, a comparação entre esta produção com atores de carne e osso com a premiada animação vinda dos estúdios comandados por Steven Spielberg é inevitável. Obviamente, o desenho leva muitas vantagens na comparação, mas nem por isso o longa protagonizado por Anne Hathaway deve ser classificado como uma porcaria, pelo contrário, ele é muito divertido, animado e suas falhas acabam trabalhando a favor da história. Na realidade, em meio a tantas piadas e citações, caçar erros é bem difícil a não ser para aqueles que fazem parte do fã clube do Shrek e não admitem que outras produções sigam o mesmo caminho que fez a fama do monstro bondoso. Se alguém disser que não deu no mínimo uma meia dúzia de gargalhadas ou achou em igual número algumas boas sacadas do roteiro ou da cenografia é porque assistiu em dia de mau humor. Com um estilo deliciosamente kitsch, cheio de detalhes e piadas visuais, os cenários reproduzem desde o interior de uma casa simples até o requinte de um palácio em dia de festa, passando por uma floresta habitada por seres fantásticos e por uma cidade que parodia as agitadas grandes metrópoles contemporâneas, com direito a escadas rolantes e vendedores ambulantes. Algumas paisagens naturais também aparecem destoando do conjunto, mas nada que destoe tanto quanto a cena em que a protagonista encontra finalmente a fada atrapalhada e pede para ela desfazer o seu feitiço. Além do diálogo péssimo, a sequência é marcada por um cenário claramente falso inserido porcamente pela computação.

A produção simplória ainda tem alguns outros efeitos especiais duvidosos que acabam realçando a estética que o diretor Tommy O´Haver desejava: um visual colorido, empetecado e com certos elementos que levassem o espectador ao passado, para aqueles tempos em que os efeitos especiais não eram perfeitos, mas mesmo assim garantiam diversão e o espanto das platéias. Bem, essa parte a respeito do uso de recursos tecnológicos é mesmo para jogar panos quentes na situação. É óbvio que qualquer um que se meta a fazer cinema espera alcançar a perfeição, mas quando não há verba para tanto o jeito é tentar elogiar o que deu para fazer, mas realmente o que é tosco para alguns aqui se tornou eficiente e a mulecada, o verdadeiro público-alvo, não está nem ai se a cobra de estimação do vilão parece falsa ou se em algumas partes é possível se perceber os recortes dos personagens para depois serem inseridos em um cenário e ganharem aspectos de pequenos diante de gigantes e trolls. Se visualmente este produto pode não ser muito interessante para adolescentes e adultos, o mesmo não se pode dizer do texto. As piadas são ótimas e as referências a outros filmes garantem a atenção, como o uso de seres que lembram o universo de O Senhor dos Anéis ou Harry Potter, o livro mágico que faz as vezes do espelho de Branca de Neve e os Sete Anões ou a já citada serpente do invejoso tio do príncipe que tem um poder de persuasão tão alto quanto as representantes de sua espécie que participam das versões Disney Mogli, O Menino Lobo e Robin Hood.


Esta produção marca uma fase de transição na carreira da protagonista. Na época, seu sucesso estava nas mãos do público infanto-juvenil, até porque já tinha no currículo o sucesso O Diário da Princesa. Diferentemente de outras atrizes contemporâneas que conseguiram o reconhecimento da mesma forma e depois não emplacaram mais sucessos ou se perderam pelo mundo da música, Anne preferiu se dedicar a produções mais sérias ou até mesmo comédias destinadas a adolescentes e adultos. Infelizmente, o longa não foi um sucesso mesmo com um trailer bem chamativo que rodou as salas de cinema por vários meses, porém, encontrou seu espaço nas locadoras. As crianças aprovaram e consequentemente seus pais também, não tanto por gostarem do filme, é bem verdade, mas sim por ele servir para distrair os guris. A crítica então nem se fale. Se já não foram muito simpáticos com a requintada produção Encantada, a autoparódia da Disney, com Uma Garota Encantada então nem se fala ou até mesmo preferiram manter o silêncio. De qualquer forma, esta é mais uma agradável variação do velho conto do casal apaixonado que tem suas diferenças, discutem boa parte do tempo, quando se entendem sofrem interferência de outras pessoas, mas no fim acabam felizes para sempre. Bem, se arriscassem uma segunda parte esmiuçando os contratempos de um casamento quem sabe crítica e público teriam outra opinião a respeito deste agradável filme recomendado as crianças de todas as idades, de zero a cem.

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