quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - SEM RESERVAS

Nem só de refilmagens de terror e suspenses orientais vive o cinema americano quando existe escassez de idéias. Muitas obras européias pouco a pouco vão ganhando suas versões americanizadas e antes que alguém se desespere acredidando que um filme muito bom será reduzido a pó em sua releitura é bom deixar avisado que sempre há uma luz no fim do túnel. A comédia romântica Sem Reservas (2007) é um bom exemplo. Baseada no longa alemão Simplesmente Martha, esta produção é um achado em meio a mesmice que se encontra no gênero, em geral sempre repetindo velhas e manjadas fórmulas que não acrescentam nada de novo. Neste caso as coisas não são muito diferentes, porém, é perceptível que a atualização do texto original para os padrões hollywoodianos foi bem feitinha, as atuações são vigorosas e sentimos certo ar europeu na idealização das imagens e narrativa. Se não chegou ao ponto de melhorar o que já era bom ao menos o remake não estragou nada, ainda que muitos considerem apenas mais uma historinha água com açúcar para agradar a mulherada e facilmente esquecível.

O longa conta a história de Kate (Catherine Zeta-Jones) uma famosa chef de restaurante conhecida por seu talento na cozinha, perfeccionismo e personalidade forte. A moça leva uma vida solitária e encontra na cozinha o seu melhor refúgio, porém, sua rotina irá mudar drasticamente por causa de um fato inesperado. Sua irmã morre em um acidente de carro e ela é obrigada a tomar conta de sua sobrinha de apenas dez anos, Zoe (Abigail Breslin), embora ela não seja muita amigável com crianças. O relacionamento das duas não é dos melhores, mas as coisas pioram quando os ânimos de Kate ficam em ebulição com a chegada de um novo cozinheiro, o espaçoso e animado Nick (Aaaron Eckhart), o que ela encara como uma ameaça a seu emprego. Bem, com uma trinca de atores talentosos e simpáticos em cena dificlmente alguém não se sente instigado a dar uma conferida no filme. Obviamente a maioria se encanta pelo profissionalismo absurdo da então atriz-mirim que despontou em Pequena Miss Sunshine e já era uma substituta natural e imediata a vaga deixada por Dalota Fanning como garota prodígio do cinema, embora a diferença de idade entre elas não deva ser tão grande. A jovem intérprete sem querer rouba as atenções da história para sua personagem e em certo momento parece que as mudanças comportamentais da tia e até seu entendimento com seu rival no fogão dependem da pequena.


Vale destacar que a protagonista não chega a ser um grande personagem capaz de extrair todo o potencial da galesa Catherine, mas é um personagem interessante com o qual muitas mulheres podem se identificar graças aos desafios e mudanças na vida pessoal e profissional da chef de cozinha. Transitando na casa dos trinta anos, é como se Kate estivesse vivendo uma crise interna talvez por viver sozinha, não ter tido filhos, porém, não deixa a mágoa transparecer protegendo-se atrás de uma imagem de mulher metódica e firme. Já o galã da história é o típico homem dos sonhos do público-alvo da fita. Bonito, culto, simpático, com sensibilidade apurada e o melhor de tudo um ótimo cozinheiro. Juntos Catherine e Eckhart formam um belo e cativante casal que temperam com ingredientes suaves esta receita que ora emociona e ora faz o espectador esboçar sorrisos. Vale ressaltar que ambos apresentam interpretações acima da média para o tipo de produção, um prato cheio para atores folgados que curtem atuar no melhor estilo piloto automático.

A obra original era um romance com carga dramática mais acentuada e algumas pitadas de humor, mas o diretor Scott Hicks, que ganhou fama com as indicações a prêmios de Shine - Brilhante, preferiu trilhar o caminho da comédia romântica seguindo a cartilha do gênero a risca, motivo que afugenta muitos de conhecerem esta obra que não se envergonha e assume seu caráter previsível, afinal de contas uma conclusão feliz é o que o público deste tipo de filme deseja, algo que a versão alemã não contemplou totalmente. Ainda assim, até mais ou menos a metade do longa a equipe técnica tentou reproduzir ao máximo Simplesmente Martha repetindo inclusive enquadramentos, situações e até detalhes e acessórios da cenografia, porém, o restante seguiu os padrões hollywoodianos inclusive substituindo o mocinho da fita antes bonachão por um homem desejável de forma a ser mais crível a relação amorosa que irá ser criada entre os protagonistas. Para completar, como já dito, uma dócil criança na mistura fisga a atenção de qualquer um, ainda mais quando ela tem um choro tão sincero como o de Abigail.


Com a sensível e prefeita direção de Hicks aliada a um roteiro escrito pela autora Carol Fuchs e ainda carregando um pouco da essência feminista da obra original, é inegável que Sem Reservas é fadado a ser conhecido eternamente como um filme exclusivo para o público feminino, mas os homens que se aventurarem a encarar esta viagem gastronômica e romântica não devem se arrepender. O roteiro enxuto e com diálogos ágeis e eficientes ajudam a envolver o espectador que acredita na relação sentimental que nasce aos poucos entre uma solteirona sisuda, uma criança e um solteirão de bem com a vida. O relacionamento é construído com muito cuidado, apesar de nos minutos finais as coisas acelerarem, mas nada que estrague o conjunto que deve saciar a vontade de se emocionar de muita gente. Para aqueles que não curtirem nem um pouquinho da produção, os deliciosos pratos e garrafas de vinhos que desfilam por pouco mais de uma hora e meia em cena devem servir de consolo.

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