segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - RANGO

O nome de um dos atores mais excêntricos de Hollywood em destaque no material publicitário e a estampa de uma criatura que aparentemente tem olhos esbugalhados segurando um peixe nas mãos só podem indicar uma coisa: mais um pareceria entre Johnny Depp e o diretor Tim Burton. Errado! O astro empresta sua voz desta vez para uma animação de Gore Verbinski, o mesmo que o presenteou com o papel principal da série Piratas do Caribe. Se o ator é famoso por sua capacidade de mudar completamente seu visual de um trabalho para outro, nada melhor do que ele dublar justamente um camaleão, réptil conhecido por sua constante mudança de cores dependendo do local ou circunstâncias. Rango (2010) é o primeiro longa-metragem animado da Industrial Light & Magic, empresa que já conquistou diversos prêmios graças aos efeitos especiais que criaram para diversos produtos de sucesso, como Parque dos Dinossauros.


A história gira em torno do personagem-título, um camaleão sem identidade que passou boa parte de sua vida dentro de um aquário até que acidentalmente foi parar em uma estrada no meio do deserto. Caminhando em meio a cactos, sob sol escaldante e passando por alguns contratempos, Rango finalmente chega a uma cidade chamada Poeira, local onde os habitantes sofrem com a falta de água. Muito convencido, o réptil começa a contar um monte de histórias fantásticas e de bravura e logo ele é eleito o xerife do vilarejo, assim, finalmente ele passa a ser reconhecido e se sente realmente importante. Uma de suas primeiras obrigações no cargo é resolver o problema da escassez de água. Para aqueles que só assistem animações dubladas em idioma original, neste caso vale a pena tentar ver a versão em português disponível em DVD. Atores profissionais no ramo emprestaram suas vozes, afastando a estranheza de ver vozes conhecidas da TV deslocadas (por mais talentosos e esforçados que sejam é impossível não ouvir e lembrar-se do personagem de uma novela).

Verbinski optou por uma narrativa que concentra nos personagens os atrativos para a criançada (o camaleão é uma figura medonha e ao mesmo tempo adorável), mas a história em si e sua ambientação são pratos cheios para os adultos, principalmente aos amantes do gênero western e para aqueles que adoram encontrar referências a outros títulos de sucesso. Da abertura que remete ao clássico antigo Django até lembranças do clássico moderno Pulp Fiction, passando por diversas citações a outros filmes de estilo bang-bang, o longa pode perder muito de sua graça quando o espectador não tem uma ampla bagagem cinematográfica. Talvez justamente por isso o longa não tenha caído nas graças do público infantil. O que era ferramenta para causar risos acabou levando ao tédio.
Os diálogos divertidos e inteligentes casam muito bem com personagens que carregam conflitos e que fisicamente não se pode dizer que sejam o sonho de consumo de uma criança. Curiosamente, o longa é produzido pelo canal infantil por assinatura Nickelodeon, mas está longe de ser um produto que visa lucrar muito além das bilheterias de cinema ou com vendas de DVD, ou seja, alimentos, materiais de escola e bonequinhos não fazem parte da previsão de lucro nem a longo prazo.  Por outro lado, também não é um filme que vai diretamente ao encontro das expectativas do público adulto. O roteiro impregnado de metáforas e citações pode funcionar inicialmente, mas conforme o tempo passa cansa. Existe tanta preocupação em construir uma história esperta e que alie humor com pequenas doses de drama que no conjunto tudo parece um pouco desconjuntado. Até mesmo o clímax do enredo, quando Rango tenta desvendar o mistério da falta d'água, deixa a desejar em emoção e explicações.

Se o roteiro é um tanto confuso para crianças e se atrapalha nos próprios recursos escolhidos para causar impacto no espectador adulto, por que então este desenho recebeu vários elogios e figurou nas listas de muitas premiações como melhor animação de 2011? A resposta se encontra em uma palavra: diferente.  Na parte técnica e no visual, como já esperado, Rango é de tirar o chapeú. As ações acontecem em um ambiente árido, que consegue transmitir perfeitamente a sensação de calor exagerado e une elementos que fazem o espectador se sentir dentro de um delírio, de um sonho. Uma gigantesca torneira ou um peixe de tamanho propositalmente exagerado em meio a uma paisagem seca são tão surreais que até parecem inspirados em obras de pintores como Salvador Dalí. É uma pena que a ousadia, inventividade e ordenação das imagens não se reflitam no texto. No final das contas, este desenho é um bom exemplar de um subgênero, digamos assim. Filme diferente deveria ser aceito para fins de rotulagem, pois este não é o primeiro e nem o último produto do estilo que não é 100% perfeito (aliás, é bem menos que isso), mas não pode deixar que sua criatividade passe em brancas nuvens. Assista e tire suas próprias conclusões. 

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