quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - RATAOUILLE

A equipe de criação e animação da Pixar já deu vida a objetos parcialmente inanimados como automóveis e brinquedos, deu personalidade para seres marinhos e transformou monstros em criaturas adoráveis. Bem, não é nenhum espanto então que o simpático e criativo ratinho protagonista de Ratatouille (2007) tenha caído no gosto popular facilmente. O diretor Brad Bird, o mesmo que conduziu Os Incríveis, foi esperto ao fazer uma receita gostosa que agrada a todos os paladares desde crianças até idosos, a começar pelo título que leva o nome de um famoso prato vegetariano francês. O cinema sempre utilizou elementos relacionados a cozinha ou alimentação para contar belas histórias, mas em animação esse viés ainda é pouco explorado. Com muita classe e charme, o cineasta concentra sua história praticamente toda dentro de um famoso restaurante em Paris, na França, onde uma improvável amizade nasce entre um humano e um roedor e é estendida para o campo profissional.

A história começa mostrando rapidamente o cotidiano do ratinho Remy que vive em meio a outros roedores conformados em se alimentarem de restos e que propagam a idéia de que os humanos são perigosos. Eles vivem em um sítio onde uma velhinha sempre assiste ao programa de TV do famoso chef de cozinha Auguste Gusteau que tem como lema a frase "todo mundo pode cozinhar". São nessas palavras que Remy se apega sonhando em mudar de vida, principalmente quando algo inesperado acontece e ele fica sozinho. Sua única distração é um livro de receitas, porém, o próprio Gusteau, já falecido, começa a aparecer para o ratinho e conduzi-lo para Paris, lugar conhecido por sua gastronomia refinada e paisagens inspiradoras. Atraído até o Gusteaus's, o badalado restaurante do finado cozinheiro, Remy conhece Linguini, um atrapalhado ajudante de cozinha que acaba ganhando o crédito por uma sopa elogiadíssima. Na verdade, o rapaz estava prestes a arruinar esta receita, mas com a intervenção do ratinho e seu apurado paladar para temperos o prato é salvo e até mesmo o restaurante que estava com conceito baixo entre os críticos gastronômicos ganha sobrevida. A partir de então Linguini e Remy fazem uma parceria de trabalho e amizade, mas escondem isso do dono do restaurante, o baixinho mal humorado Skinner, que toma conta do local desde a morte de Gusteau. Ele é o vilão da trama que desde o início desconfia da súbita intimidade do auxiliar de cozinha com o fogão e quer a todo custo provar que existe algo por trás disso tudo. 

Os apreciadores ferrenhos dos trabalhos da Disney/Pixar não aprovaram totalmente esta produção que foi premiada com o Oscar de Melhor Animação. Muitos a consideram ingênua, com situações pouco desenvolvidas e lições de moral batidas ou exageradas. Porém, elogiam o visual da obra que apresenta belas paisagens de Paris, capricha nos detalhes e iluminações dos ambientes e investe em tons fortes de amarelo e laranja, dando um clima solar as sequências, principalmente as que se passam no restaurante. Realmente, para aqueles que se acostumaram com a idéia de que imagem e texto de qualidades e criativos caminham juntos segundo a cartilha da empresa que revolucionou o mercado de animação ainda na década de 1990, o resultado aqui pode decepcioná-los, mas de forma alguma podemos dizer que se trata de um roteiro ruim.  A condução da trama é excelente e com personagens bem delineados nos aspectos emocionais e de caráter, mas falta aqui o humor que sempre se fez tão presente nos trabalhos "pixarianos". São poucas as cenas que conseguem tirar um sorriso de quem assiste, mas isso não desmerece o longa. Pelo menos aqui somos poupados de algum tipo chato que não para de disparar piadas ou que parece ligado em alta voltagem e não para um segundo sequer, criações que frequentemente batem ponto em animações moderninhas.
Chama a atenção também a forma com que os personagens foram desenhados. Se nas ações e propósitos eles são totalmente verossímeis, incluindo Remy que tem pensamentos e atitudes até mais inteligentes e corajosas que alguns humanos, no visual eles são caricaturais. Eles possuem traços bem marcados, exagerados e com formas arredondadas acentuadas, mas todos com características que casam perfeitamente com suas personalidades, como no caso de Linguini que tem uma carinha de criança sapeca que casa muito bem com seu estilo atrapalhado talvez inspirado em gênios da comédia dos tempos do cinema mudo. Outra criação que merece ser destacada é o crítico gastronômico Anton Ego que surge com discurso afiado e amedrontador. Ele é o responsável pelo clímax da história e detentor de uma das cenas mais inspiradoras do cinema de animação. Ao provar o tal ratatouille, automaticamente sua mente volta aos seus tempos de infância e ele se recorda de um momento simplório que viveu com sua mãe em uma época em que os fricotes gastronômicos pouco lhe importavam. Talvez justamente aí esteja a síntese do que Bird desejava alcançar com este trabalho: exaltar o passado. Sim, isso mesmo. Por trás de todo verniz moderninho, Ratatouille carrega em seu visual, história e personagens muito da história da própria Disney, empresa que investiu, por exemplo, na idéia de ratinhos falantes sejam como coadjuvantes (Cinderela) ou até mesmo protagonistas (Bernardo e Bianca). O cenário parisiense e os tons amarelados e ocres também são características marcantes de Aristogatas e a relação de amizade entre humanos e animais praticamente está presente em todas as produções do estúdio que até hoje cultiva como forte logomarca o rosto do camundongo Mickey Mouse.

Cativando a atenção da criançada através da divertida e por vezes apocalíptica ou malandra visão dos ratinhos a respeito do cotidiano dos humanos e atraindo os adultos com o ambiente aconchegante de um restaurante e seus pratos apetitosos quase tão reais quanto os apresentados nos programas de TV, aliás, uma febre que pegou nos canais por assinatura, Ratatouille é uma deliciosa receita que só deve mesmo desagradar aqueles que buscam sempre alguma inovação ou intenção crítica nas animações, coisa que nem sempre é possível. Se o público passasse a exigir coisas do tipo, o gênero passaria por uma incrível crise, já que os criadores precisariam se manter reclusos por anos até voltarem com algum projeto inovador tal qual alguns cineastas fazem. Projetos menos ambiciosos e mais simplórios são sempre bem vindos, desde que com um padrão mínimo de qualidade e de respeito a inteligência dos espectadores e isso a Pixar sabe fazer com louvor e quase sempre surpreende. Quase! Se não fosse Carros 2...

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