quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - 72 HORAS

Filmes de ação e suspense hoje em dia dificilmente surpreendem ou podem ser classificados como excelentes. A reciclagem de temas e até a estagnação de certos atores repetindo papéis nestes gêneros levaram as produções desses estilos para o limbo. A maioria nem chega a ser exibida nos cinemas e acaba sendo lançada diretamente em DVD e fadadas a serem vendidas a preço de banana pelas locadoras em questão de poucos meses. Felizmente, vez ou outra surge algum nome em potencial para dar uma sacudida no cenário e quem sabe restabelecer a época em que perseguições, tiroteios e investigações policiais rendiam boas bilheterias e elogios. Um desses nomes pode ser Paul Haggis que tem visto sua carreira ascender de forma meteórica. Depois de se envolver em projetos mais sérios e premiados, como Crash - No Limite e No Vale das Sombras, seja como roteirista, diretor ou ainda acumulando as duas funções, este profissional decidiu se aventurar em algo no melhor estilo hollywoodiano: um filme que entretém, com um enredo interessante, um ator de peso encabeçando o elenco e no fim um produto que provavelmente será esquecido algum tempo depois. Assim é 72 Horas (2010), um thriller de ação cuja trama recorre ao recurso da perseguição de inocentes para tanto. E o resultado neste caso é até acima da média.


O professor universitário John Brennan (Russell Crowe) levava uma vida perfeita até que sua esposa Lara (Elizabeth Banks) é presa acusada de um crime brutal, mas que ela alega não ter cometido. Após três anos de vários recursos negados pela justiça, a mulher acaba se tornando uma pessoa suicida por não suportar a distância de seu filho que está crescendo longe dela. Brennan percebe que só há uma saída: elaborar um plano de fuga meticuloso para tirá-la da prisão correndo todos os riscos. Ele recorre ao que pode para aprender a arrombar carros e abrir fechaduras e consegue conversar com o ex-prisioneiro Damon Pennington (Liam Neeson) que escapou inúmeras vezes da carceragem e lhe dá dicas do que vai ter de enfrentar. É um caminho sem volta e é preciso estar disposto a tudo, inclusive a matar se for preciso. Agora, Brennan e Lara terão apenas 72 horas para fugir e tentar ir o mais longe possível levando com eles o filho pequeno e contam com a ajuda até mesmo dos avós do garoto. O roteiro não abre muito espaço para subtramas e concentra toda a sua força no eixo principal, mas é o protagonista quem se destaca. Isso porque ele é um personagem mais humano e foge dos estereótipos do herói típico do cinema, aquele que sempre sabe o que fazer e praticamente todas as suas ações são realizadas com sucesso. Crowe vive um homem comum, com seus medos e equívocos, que se aventura por um mundo desconhecido para ele até então no qual precisa aprender truques e segredos que com certeza não gostaria jamais que seu filho tomasse contato. Assim, é fácil a identificação do espectador com ele, um tipo totalmente verossímil.


 
A escolha de Crowe para o papel não deve ter sido por causa de já ter vivido alguns heróis no melhor estilo clássico em outras produções, mas sim por ser extremamente versátil e já ter demonstrado vulnerabilidade em trabalhos mais dramáticos e apreço por projetos de ação de suspense. O ator sempre deixa no rosto um olhar desconfiado, deixando transparecer a sensação de um indivíduo que sabe que o que está fazendo é errado, que não é escolado na área e a qualquer momento pode ser pego pela polícia. Apesar da ótima atuação, muitos podem considerá-la algo menor em seu currículo e dizer que ele já está em outro patamar da carreira justamente pelo preconceito que sofre o gênero no qual se enquadra 72 Horas. Bem, se ele já se envolveu em filmes melhores e teve até interpretações superiores, o que poderia justificar a repulsa de alguns pela sua presença no longa, Elizabeth Banks teve aqui sua  grande chance na carreira e soube aproveitar, ainda que aparecendo em cena menos tempo que seu parceiro.  Com uma carreira irregular mais focada no humor e sem grandes destaques, aqui ela tem alguns momentos interessantes, segura bem a adrenalina quando preciso e empresta a emoção e a sensibilidade necessárias para também transformar sua criação em algo crível e não apenas como uma coadjuvante bonita ao lado do galã da história. O restante do elenco secundário é usado praticamente de enfeite, sem perfis bem desenvolvidos e tramas que não chegam a lugar algum, como a insinuação de que John poderia se relacionar com uma mãe solteira ou alguns policiais e detetives que surgem para dizerem frases bobocas e algumas poucas de conteúdo.   
Haggis consegue filmar um roteiro que passa do drama para o suspense com boas doses de ação com muita propriedade, sem causar solavancos, exceto na introdução extremamente rápida, e consegue envolver o espectador em uma trama que basicamente trata de um assunto familiar, o que é benéfico para fisgar audiência. O grande objetivo é a reunião da família após anos de um rompimento forçado, porém, o caminho para tanto não é fácil. É até difícil acreditar que esta é a primeira vez que o diretor e roteirista experimenta um gênero mais popular, mas ele não quis trabalhar com qualquer roteiro capenga visando lucros rápidos acompanhados de críticas negativas. Para sua estréia no campo de ação ele se baseou no thriller francês Tudo por Ela, lançado em 2007 e que no Brasil ficou em brancas nuvens. O resultado da versão americanizada atinge com eficácia as pretensões do cineasta que consegue a proeza de manipular igualmente o crescente clima de tensão  e o desenvolvimento dos personagens centrais, deixando assim a trama bem mais empolgante do início ao fim. Entretanto, obviamente, esta produção não fica livre dos clichês, como as diversas vezes em que o casal quase é capturado, mas por força do destino (ou dos vícios do cinema) sempre consegue escapar ileso, o que gera algumas sequências inverossímeis. 

 
A julgar pelo tom dramático inicial, com uma discussão do casal, é difícil imaginar o caminho que o roteiro irá seguir, a ponto de culminar em um ato cheio de adrenalina para deixar os espectadores se contorcendo onde quer que estejam e torcendo por um final feliz para a família, até porque quando tem criança envolvida o lado piegas e sentimental das platéias fala mais alto. A opção por um final mais trágico ou inesperado contribuiria para a obra se tornar marcante e até combinaria melhor com a narrativa que até então prevalecia, mas por ser o primeiro trabalho destinado a um grande público Haggis foi esperto e não quis se arriscar. Não que isso desmereça seu trabalho, pelo contrário, mas o cineasta poderia ter trabalhado um viés que acabou sendo esboçado, mas morreu em questão de minutos: Lara em certo momento na prisão se mostra descontrolada e reclamando da ausência do marido e filho e isso poderia gerar o gancho da dúvida se depois de tanto trabalho para livrar sua esposa Brennan teria o amor dela de volta. Esse questionamento é bem mais a cara de uma história escrita por um profissional que desde o início da carreira demonstrou interesse por roteiros que explorem as relações e sentimentos humanos.  De qualquer forma, 72 Horas é um daqueles títulos que surpreendem o espectador positivamente. Você espera ver mais um filminho bobo cheio de ação ininterrupta e roteiro vazio, mas acaba tendo uma grata surpresa assistindo a uma obra madura, bem conduzida e muito envolvente.

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