quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - DESVENTURAS EM SÉRIE

Existem estilos de filmes que marcam determinadas épocas e sem dúvida a primeira década do século 21 foi marcada pela fantasia e adaptações de uma literatura que dificilmente cai no gosto dos críticos especializados, mas encontra as atenções que merece por quem realmente importa: o público. Visando lucrar com crianças e adultos, muitas produtoras e grandes estúdios de cinema bancaram as adaptações de livros com histórias mágicas e cenários oníricos, alguns com sucesso estrondoso e outros que parecem ter sido enfeitiçados por alguma criatura maldosa tamanho seu fracasso.  No meio termo encontramos Desventuras em Série (2004) baseado na série literária "A Series of Unfortunate Events" de Daniel Handler. Até o ano de lançamento do longa, haviam 11 exemplares, mas a previsão eram 13 volumes. O diretor Brad Silberling combinou eventos que ocorrem nos três primeiros produtos da série, porém, os anos passam e nem sinal das outras histórias ganharem sua versão cinematográfica, o que já indica que algo saiu dos eixos na produção, muito provavelmente o caixa que ficou com receita abaixo do esperado.
 
Seja pela ação da pirataria (sempre é bom lembrar que downloads ilegais também são crimes) que atrapalhou as finanças ou até mesmo desinteresse dos envolvidos em darem continuidade a série, o fato é que muitos fãs tanto dos livros quanto dos filmes se sentiram decepcionados. Com a decisão de existir apenas um único filme, fique bem claro. Para muitos o longa é o resgate do espírito de uma boa sessão da tarde para ver com toda a família. Diverte e ao mesmo tempo tem um leve toque sombrio que jamais assusta, mas sempre deixa o coração de quem assiste na expectativa de que algo tenebroso irá acontecer graças ao visual gótico e melancólico descrito nos livros e que na tela parecem criações de pupilos do diretor Tim Burton. Logo no início podemos sentir a proposta da produção. Um desenho animado com um elfo feliz cantando e saltitando em meio a floresta já dá um cutucão em títulos concorrentes, seja pela ambientação que lembra os clássicos Disney ou pelo personagem, já que na época Harry Potter e O Senhor dos Anéis estavam em plena ebulição. Porém, logo o narrador Lemony Snicket (pseudônimo do próprio autor das histórias e com a voz de Jude Law no original) corta o clima feliz para anunciar que quem deseja ver algo bonitinho deve procurar outra opção, pois o conto a seguir é cheio de tristezas e perigos. Será que muita gente só chegou até os cinco minutos de exibição, desistiu e fez um boca-a-boca contra o filme? Não sabem o que perderam, mas sempre é tempo de correr atrás.

A história triste começa apresentando três crianças que repentinamente se viram sozinhas no mundo depois que os pais falecem em um misterioso incêndio. Violet (Emily Browning), Klaus (Liam Aiken) e a bebê Sunny (as gêmeas Kara e Shelby Hoffman se revezam no papel) são encaminhados pelo Sr. Poe (Timothy Spall), um amigo da família, para a casa de um tio deles, o Conde Olaf (Jim Carrey), um excêntrico e maquiavélico ator que fará de tudo para colocar as mãos na fortuna que os sobrinhos herdaram. O problema é que o dinheiro só será liberado quando ao menos um deles completar 18 anos, mas se nenhum deles existissem um outro parente poderia usufruir do benefício. Assim, Olaf começa a maltratá-los e a orquestrar planos para se livrar dos guris. Conforme as armadilhas vão dando errado, os menores vão conhecendo outros parentes, como o Tio Monty (Billy Connolly), um apaixonado por natureza e animais selvagens, e a Tia Josephine (Meryl Streep), uma senhora neurótica por manias e cuidados exagerados. Enquanto isso, Olaf está sempre onipresente e bolando algum plano para voltar a ter a guarda dessas espertas crianças que sabem muito bem o que ele deseja.
Os contos adaptados neste longa são "Mau Começo", "A Sala dos Répteis" e "O Lago das Sanguessugas". Compilar em pouco mais de uma hora e meia tudo isso não é fácil e obviamente muito foi cortado e então entram as reclamações dos fanáticos pelos livros. Um ou outro cenário não entrou na história, alguns detalhes dos personagens foram modificados, cenas consideradas importantes foram descartadas e até o tom melancólico das obras foi atenuado. São observações de quem procura pêlo em ovo. O que importa é o resultado final nas telas e isso não há como negar que é extremamente satisfatório. As idéias foram alinhavadas de forma sucinta, as atuações são boas, inclusive das crianças que dificilmente deixam um sorriso escapar fora de hora, e as equipes de criação de cenários, maquiagens e figurinos e o pessoal da parte técnica responsável pela fotografia e sonorização realizaram trabalhos impecáveis. Se é para criticar negativamente algo, só nos resta Carrey que mais uma vez usa e abusa de suas caras e bocas e expressões corporais para fazer graça, mesmo sendo o vilão da trama. Ele não compromete o conjunto, mas um pouco mais de seriedade não cairia nada mal ao personagem.

Previsto para estrear por volta do ano 2000, o longa acabou tendo sua produção adiada devido ao início da série Harry Potter. Como ambas as produções visam o mesmo tipo de público, temia-se que as desventuras das crianças órfãs levassem uma surra do bruxinho em vários sentidos. Foram espertos os produtores. Hoje em dia, longe da época efervescente de elfos, fadas, trolls e companhia, podemos perceber com mais clareza que a mistura de drama, suspense, aventura e fantasia de Desventuras em Série funciona muito bem e com fôlego para conquistar novas gerações por muito tempo. Com uma história com começo, meio e fim, qualquer um pode se dar o presente de viver esse divertido pesadelo em qualquer época sem medo de se perder, bem o contrário do concorrente citado, uma série longa e cujo entra e sai de personagens podem atrapalhar. Os "pottermaníacos" devem odiar quem afirma que prefere esta dose de melancolia proposta pelo diretor Silberling no campo infantil, mas visto como produto único ele funciona muito melhor graças a sua narrativa simples, inteligente e com número enxuto de personagens. Uma pena que a série não teve continuação. Se você é um daqueles que se assustou com o semblante de horror ou depressivo que a campanha publicitária do longa tratou de propagar na época do lançamento, não se preocupe, é puro marketing ou fantasia dos criadores. Assista sem moderações.

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