quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - CARAMELO

Se o cinema europeu já não é muito bem aproveitado e apreciado fora de sua região, o que dizer de uma produção árabe? Bem, os brasileiros que gostam de filmes alternativos e ficam com os ânimos exaltados nas temporadas de prêmios sérios ou nas de festivais e mostras podem se dar por satisfeitos de felizmente algumas distribuidoras nacionais se preocuparem em trazer obras de diversas nacionalidades para cá. Hoje é possível encontrar sem muito esforço trabalhos de países famosos, como Espanha e França, e com um pouco mais de boa vontade e espírito curioso descobrir verdadeiros tesouros oriundos da Índia, Bósnia, Grécia, enfim, a produção cinematográfica dos quatro cantos do mundo pode ser conhecida por todos, ainda que em pequenas e espaçadas doses. O fato de vários países se unirem para realizar um mesmo trabalho também ajuda a aumentar a distribuição. A dica desta quarta, por exemplo, é uma co-produção da França com o Líbano. Caramelo (2007) é um agradável drama com boas doses de humor que convida o espectador a conhecer o cotidiano e a intimidade de um grupo de mulheres que trabalham ou frequentam um salão de beleza cuja especialidade é a depilação feita com uma velha receita oriental que leva água, açúcar e limão ao fogo até formar uma massa pegajosa, o que explica o curioso título.


Em um bairro simples de Beirute, no Líbano, o salão de beleza Sibelle parece ser o local mais agitado do local. As funcionárias e algumas frequentadoras estão passando por momentos conturbados de suas vidas e precisam refletir para tomar as melhores decisões. Através de cinco mulheres, temos um painel social que revela preconceitos, tradições e convenções que regem suas vidas, mas no fundo todas elas desejam ser felizes. Layale (Nadine Labaki) comanda o salão, mas sua grande preocupação no momento é com o relacionamento que mantém com um homem casado que prometeu abandonar a esposa para ficar com ela. Nisrine (Yasmine Elmasri) é muçulmana e está prestes a se casar, mas não é mais virgem e está com medo da repulsa do noivo e sua família. Rima (Joanna Moukarzel) sente atração por mulheres e gosta de usar roupas mais masculinizadas, porém, reprime sua homossexualidade e só dá vazão aos seus sentimentos quando lava os cabelos das clientes, podendo acariciá-las superficialmente, mas o suficiente para se satisfazer. Uma das clientes mais assíduas é Jamale (Gisèle Aouad), uma atriz madura que nunca atingiu o estrelato e é obcecada pela idéia de se manter jovem. Circundando o local existe Rose (Sihame Haddad), a vizinha costureira que abdicou de sua própria vida para cuidar da irmã mais velha que sofre de problemas mentais.

A irmã de Rose é Lili (Aziza Semaan) que, apesar de coadjuvante, praticamente se torna peça fundamental de parte da trama, pois é ela quem protagoniza as melhores cenas de humor. Sem papas na língua, ela fala tudo o que quer sem se preocupar se está diante de um estranho ou se não está dizendo coisa com coisa. Ela ainda tem o hábito de recolher papéis nas ruas acreditando que são cartas de amor destinadas a ela de um namorado que há tempos desapareceu, uma ótima saída para Layale se livrar dos inúmeros papéis de multas de trânsito que recebe do guarda de trânsito Youssef (Adel Karam), um homem que passa a ter importância na vida da moça ao começar a cortejá-la. Com esse leque de personagens, Nadine Labaki, também diretora do longa, construiu uma obra que coloca em discussão o papel da mulher em uma sociedade apegada a tradições, que ainda não aceita totalmente certos costumes ocidentais e que por mais religiosa que seja mede o valor de uma pessoa através da aparência. Temos conflitos típicos das jovens muçulmanas (virgindade, amar o impossível, homossexualismo) dividindo espaço com os das senhoras (aceitar o envelhecimento, doenças da idade, a perda da própria vida para ajudar a outra pessoa), praticamente tudo desenvolvido em um ambiente o mais feminino impossível. Óbvio que tais temas não são novidades no cinema. A França tem em sua filmografia, por exemplo, Instituto de Beleza Vênus, mais um trabalho a seguir a fórmula de analisar perfis femininos através do movimento de um salão de cabeleireiros. É até previsível o destino das personagens antes mesmo de chegarmos a meia hora de filme, mas nada que estrague o prazer de ver um produto que preza pelo visual, emocional e sem precisar recorrer a longas sequências de contemplação ou troca de olhares, uma mania de cineastas estrangeiros que chega a afastar o público.
De maneira muito sútil Nadine capta com sua câmera emoções, alegrias, sonhos e anseios dessas mulheres fazendo levemente críticas e ironias, mas sem ofender ninguém. O bairro em que a ação se concentra até parece utópico, um lugar que não existe mais onde as pessoas se conhecem, se respeitam e ajudam umas as outras, como fica evidente quando Rose decide dar uma chance ao amor ou quando Jamale precisa se produzir para mais um teste de atriz. Enfim, são várias as cenas que exaltam o espírito solidário dessas mulheres. O caramelo usado para as depilações no salão também faz uma alusão a doçura das profissionais do local e as cenas em que ele é usado tem toques irresistíveis de sensualidade. A forma com que ele é manuseado por Layale evidencia o lado sensual da história que ganha ainda mais potência quando as lentes capturam os movimentos lentos e instigantes das pálpebras da moça. Nas mãos de um diretor insensível, este enredo poderia facilmente enveredar para a linha pornô-soft já que o tema é convidativo, mas felizmente somos contemplados com uma obra madura e que em nenhum momento se torna constrangedora.

É até difícil acreditar que esta é a estréia de Nadine nas funções de diretora. Ela demonstra tanta desenvoltura e habilidade que parece que já dirigiu diversos outros filmes. É interessante observar algumas opções estéticas suas como a fotografia amarelada, resultado de uma boa iluminação e cenários e figurinos em tons pastéis e ocres, e também merece elogios sua escolha de canções para compor a trilha sonora, todas produzidas por instrumentos típicos da região e com ritmo característico. Parecem detalhes bobos, mas no conjunto eles fazem a diferença e só realçam a beleza e as boas intenções de Caramelo, uma produção que merece ser vista não só pelas mulheres, mas também pelos homens. Ah isso é coisa de mulherzinha? Bem, no longa tem uma jovem que lava sempre seus cabelos com a cabeleireira lésbica e é aconselhada por ela a fazer um corte curto. No início ela reluta, mas quando toma a decisão de acatar o conselho e se livrar das longas madeixas, ela exibe um largo e espontâneo sorriso por onde passa. Ela se libertou das amarras preconceituosas e regras familiares que a obrigavam a cultivar uma longa cabeleira e também lhe proibiam de conviver com uma pessoa que leva uma vida fora dos padrões. Tome isso como exemplo, livre-se dos preconceitos e se dê o direito de se deliciar com este filme que não é nenhuma obra-prima, tampouco inovador, mas que de alguma forma é irresistível.

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