sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - ATRAÇÃO PERIGOSA

Matar um leão por dia, ou melhor, por filme. Trocando em miúdos, alguns artistas precisam a cada novo trabalho provar do que são capazes e até mesmo tentar apagar erros do passado. Esse deve ser o lema de muitos atores, entre eles Ben Affleck, ator que ainda muito jovem viu todos os holofotes voltados para si ao ganhar um Oscar pelo roteiro de Gênio Indomável que escreveu em parceria com Matt Damon. Ambos atuaram neste longa e foram muito elogiados, mas depois trilharam caminhos opostos. Enquanto um viu sua carreira crescer a largos passos o outro se viu em meio a tropeços profissionais e também na vida pessoal. O homem que vemos em Atração Perigosa (2010) parece outro.

Depois de muitas críticas negativas em longas de ação e comédias, um conturbado romance na vida real com a atriz e cantora Jennifer Lopez, Affleck viu seus caminhos clarearem com uma elogiada atuação no drama Hollywoodland - Bastidores da Fama, o que certamente lhe deu fôlego para novos desafios. Continuou atuando, mas também se arriscou atrás das câmeras e surpreendeu como prova em seu segundo trabalho como diretor, o longa de ação Atração Perigosa, que também ajudou a roteirizar. Ele interpreta Doug MacRay, um rapaz com habilidades para planejar assaltos e que lidera um grupo de ladrões de bancos que sempre consegue sair impune dos seus crimes. Um dia, ao realizar um assalto, seu parceiro Jem (Jeremy Renner) leva uma refém por precaução. Ela é Claire Keesey (Rebecca Hall), subgerente do banco, solta próximo à uma praia algum tempo depois. O fato traumatiza a moça, deixando-a com medo e receosa. Para os bandidos, o crime também os deixou em maus lençóis. Jem descobre que Claire mora a apenas quatro quarteirões do bando, tornando-se uma ameaça. Doug fica encarregado de vigiá-la, mas, após uma conversa ocasional, inicia um relacionamento com ela. Agora, ele tem a chance de mudar de vida e se redimir de seus crimes, mas Jem o pressiona para continuar a roubar, pois Doug tem uma dívida de gratidão com ele.


Affleck mostra que conhece cinema e apresenta um filme de excelente qualidade e bem acima da média para o gênero. O que poderia ser um trabalho qualquer cheio de perseguições, tiroteios e palavrões foi transformado em uma história envolvente e que faz o espectador torcer para que o vilão se de bem. Isso mesmo, que o vilão se bem. O protagonista mostra que por trás de um bandido há um ser humano que tem um porque de estar naquela vida, que tem seus sofrimentos e mágoas. Não que isso seja justificativa para cometer crimes, mas o roteiro propõe a redenção do indivíduo. Porém o contraponto também está no filme. O bandido de Renner, indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel, já esteve preso por anos e agora em liberdade não pensa em mudar de vida e incita o amigo a cometer os delitos com seu bando. As ações da trama acontecem no bairro de Charlestown, em Boston nos EUA, local conhecido pela proliferação de atos criminosos, já que os "ensinamentos do tal trabalho sujo" são passados de pai para filho.

O filme transita muito bem entre os gêneros drama, ação e suspense, sendo difícil definir em qual deles melhor se encaixa. Pois é justamente a inserção de algum conteúdo dramático a trama baseada no romance "The Prince of Thieves", de Chuck Hogan, que muitos criticam dizendo que a indefinição do protagonista em seguir uma vida honesta ou continuar apoiando os amigos ocupa minutos preciosos que poderiam ser usados para cenas de ação.  Se elas não são oferecidas aos montes, as que foram incluídas são o suficiente para agradar aos fanáticos por adrenalina. Em geral todas são convencionais e não trazem novidades para este público, porém, vale destacar o serviço de mestre realizado na seqüência de perseguição da polícia ao carro dos bandidos travestidos de freiras (os disfarces do bando são bem originais), com muita ação e sustos promovidos pela excelente direção e edição que conseguem fazer o espectador se sentir no meio de todo aquele alvoroço graças a escolha de filmar boa parte dos takes seguindo a perspectiva de quem assiste.


Previsível (será mesmo?), longo demais ou com pouca ação. Podem dizer isso, mas para quem está cansado do gênero, Atração Perigosa é uma boa opção para voltar a botar fé de que algum dia ele irá sair do limbo que certos astros musculosos e com pouca massa encefálica o jogaram. Aqui encontramos um filme com uma história de verdade na qual perseguições e tiroteios entram como complementos, não são os pratos principais. Se Kevin Costner e Mel Gibson chegaram a ganhar o Oscar de direção, por que Affleck nem sequer foi indicado ao prêmio como uma forma de incentivo (não ganharia obviamente)? O galã de tantos romances e comédias prova definitivamente que está maduro, gosta de se arriscar e tem competência para lidar com as câmeras tanto à frente quanto atrás delas.

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