terça-feira, 31 de janeiro de 2012

UM JANTAR INESQUECÍVEL


A Disney construiu sua imagem de maior produtora de animação do século 20 e consolidou-se como sinônimo de cinema livre e familiar não só apoiada nas histórias clássicas de princesas, mas os animais também tiveram papel importante nesta trajetória de sucesso. Bichinhos fofinhos sempre fizeram parte das produções da empresa, como os animais da floresta que fazem amizade com a Branca de Neve ou o Grilo Falante que ajuda o boneco de madeira Pinóquio, mas como naqueles tempos o cinema ainda era algo muito recente causou frisson a idéia deles virarem o centro das atenções em filmes. Se para adestrar um bichano demoraria muito tempo e os resultados insatisfatórios, nada melhor que essas histórias fossem contadas por intermédio de desenhos animados, um campo onde nada é impossível. Já com ampla experiência em animar bichos e tendo no currículo o sucesso Bambi, o estúdio lança em 1955 mais um eterno clássico. A Dama e o Vagabundo pode ser visto apenas como um conto romântico e ingênuo para agradar crianças, mas com um olhar mais atento podemos encontrar caminhos mais interessantes na narrativa e as famosas lições para o público infantil, como lidar com o sentimento de rejeição e lidar com responsabilidades e a tão sonhada liberdade. O enredo é sobre uma cachorrinha de raça que é acolhida por um casal de aristocratas e vira o seu xodó. Acostumada a sempre ganhar carinho, atenção e mordomias em casa, Lady, como é chamada, se sente rejeitada quando seus donos têm um bebê. Outros cachorros já haviam a alertado que quando chega uma criança no lar o animal de estimação fica em segundo plano. Enquanto isso, Vagabundo é um cachorro de rua que teve uma vida bem diferente e sempre precisou vencer uma batalha por dia para sobreviver. Os dois se encontram quando a cadelinha foge de Tia Sarah, uma senhora que cuida do bebê na ausência dos seus pais e que acredita que Lady poderia  fazer algum mal ao pequeno.  Vagabundo então a ajuda a conhecer o mundo que existe fora da confortável casa em que Lady vivia ao mesmo tempo em que tenta convencê-la a dar a volta por cima e reconquistar seu espaço junto a família que a adotou.
Existem registros que confirmam que boa parte do roteiro é baseada em uma história chamada “Happy, The Whistling Dog”, mas para todos os efeitos a obra ainda é considerada o primeiro filme original da Disney (Fantasia é originalíssimo, mas não tem um roteiro com começo, meio e fim e sim o resultado de uma compilação de curtas unidos por música). O marketing do produto original funcionou para atacar os críticos que malhavam na época os últimos trabalhos de Walt Disney e sua equipe e até ajudou a ampliar o seu público conquistando adultos e casais apaixonados para vivenciarem uma história de amor pela ótica dos animais. Aliás, uma curiosidade é que os humanos raramente são mostrados. Em grande parte das cenas só vemos suas pernas e pés, afinal, a história toda é do ponto de vista canino. Mas voltando a falar do conteúdo sentimental, temos aqui uma das sequências mais belas de todos os tempos, uma que não pode faltar em uma listagem sobre as cenas antológicas da sétima arte e não por acaso também é uma das mais parodiadas ou usadas em outros filmes para fisgar o espectador. Não há como pensar neste desenho sem que automaticamente nos venha a mente o jantar de Lady e Vagabundo a luz de velas nos fundos de um restaurante. Dividindo um prato de macarronada, eles trocam um beijo por acaso graças a um fio de macarrão. A Dama e o Vagabundo foi inovador para a época e responsável por uma nova fase de ânimo para a Disney, mas infelizmente hoje não usufruiu do mesmo prestígio. Para as novas gerações, o longa pode ser arrastado, ingênuo e sem graça, mas é certo que atualmente poucos desenhos conseguem emocionar ou trazer alguma lição para seu público quanto esta obra. Bons tempos em que delicadeza, conteúdo e tramas quase reais, mesmo sendo protagonizadas por animais, eram ingredientes essenciais de uma boa animação.    

Um comentário:

renatocinema disse...

O desenho que mais amo com a mais bela imagem da animação, em minha visão.

Adoro esse clássico.

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