quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ESQUECERAM DE... VATEL - UM BANQUETE PARA O REI

A história do cinema é marcada por obras que não só enchem os olhos do espectador por apresentar belas imagens, mas algumas também podem dar água na boca e abrir o apetite, tanto é que já existem até publicações e sites dedicados a divulgar os filmes em que as comidas e as refeições não servem apenas como pano de fundo ou adorno, mas assumem posições de coadjuvantes ou até podem se tornar protagonistas do enredo. Com guloseimas e mesas fartas, algumas produções assumem o caráter gastronômico e a direção de arte capricha para criar um visual delicioso e aconchegante. A primeira vista, um cenário requintado é o que nos oferece Vatel - Um Banquete Para o Rei (2000), mas esta obra infelizmente raríssima tem muito mais a nos oferecer do que simplesmente aguçar nosso paladar. Baseando-se em fatos reais da nobreza ocorridos há séculos, o cineasta Roland Joffé construiu um filme que, apesar de ser de época, traz pontos relevantes e contemporâneos, como a busca pela excelência para obter aprovação e sucesso e temas como honra e caráter. Para degustar todo este enredo, basta provar do recheio e não apenas provar a cobertura.

No século 17, mais precisamente em 1671 na França, o Príncipe de Condé (Julian Glover) está passando por problemas financeiros e planeja uma solução para fazer com que toda a província fique livre das dívidas. Ele decide convidar o rei Luís XIV (Julian Sands) e toda a corte de Versailles para passar um final de semana festivo em seu palácio repleto de entretenimento e saborosas iguarias culinárias. Se conseguir a simpatia e a amizade de sua majestade, o nobre receberá auxílio e trará a prosperidade para toda a região. Porém, apenas um homem poderá preparar um banquete a altura e também cuidar da diversão real: François Vatel (Gerard Depardieu), o mordomo do Príncipe. Em meio às tramas políticas encabeçadas pelo Marquês de Lauzun (Tim Roth) e a todo o trabalho para a preparação para a visita real, o organizador da festa acaba se apaixona pela bela Anne de Montausier (Uma Thurman) que fica dividida entre a vontade de se manter junto a corte e o desejo de ser amada por um homem que nutre o mesmo sentimento, mas não é um nobre, tampouco um simples camponês. Esse relacionamento acaba atrapalhando os planos de seu soberano.

Essa história é até bem conhecida em terras européias, mas só foi espalhada pelo mundo com o filme, ainda que ele tenha ficado mais restrito aos cinéfilos de plantão. Com um belo roteiro em mãos, o diretor Joffé conseguiu fazer uma grande produção sobre a hierarquia e até certo ponto complexa do ponto de vista psicológico. No mundo da corte, todos precisam ter dinheiro para estar a altura do estilo de vida e da fama propiciada. Quem não tem condições financeiras precisa entrar nas regras do jogo para não ficar por baixo. Vatel conseguiu transitar entre dois mundos, mas descobre que a realeza não é perfeita e que só era conhecido por causa de seu talento. A sua maior qualidade também era seu maior defeito. Ele queria cuidar de todos os detalhes que envolviam um evento para que nada desse errado, mas tal obsessão pelo perfeccionismo e para alimentar seu ego acabou sendo o veneno que interrompeu sua vida. O ator Gérard Depardieu consegue trabalhar muito bem a transformação gradual pela qual seu personagem passa devido a sua conscientização a respeito da injustiça social do mundo hierárquico até sua fase amargurada. Mas ele tem seu próprio jeito de atuar e nem todo mundo aprova os seus trejeitos característicos, mas nada que atrapalhe sua interpretação.


Joffé, responsável pelos premiados Os Gritos do Silêncio e A Missão, trouxe nesta obra mais uma vez um espetáculo grandioso ao espectador como é de costume em sua filmografia. Além de uma história muito interessante, o cineasta caprichou nos detalhes da produção, tal qual seu protagonista; Trilha sonora, figurinos, fotografia e a já mencionada deliciosa direção de arte, com suas locações, adereços e iguarias. Tudo parece estrategicamente colocado no lugar certo e em harmonia. Até as comidas foram pesquisadas e feitas com muita atenção para serem o mais fiéis possíveis ao que poderia ser servido em um banquete na época. A tecnologia e criatividade empregadas nas apresentações feitas para o entretenimento da corte francesa são um deleite para os olhos dos espectadores e inovadoras para o período em que a trama se passa.

Um grupo de historiadores prestou consultoria durante as filmagens para que tudo ficasse verossímil, apesar de que para muitos o resultado final do visual pode beirar o exagero. Porém, o período histórico permitia a grandiosidade e a criatividade e isso ajudou a equipe de produção a soltar a imaginação, mas ainda assim mantendo o espírito original da história que serviu de base. Em resumo, Vatel - Um Banquete Para o Rei é o retrato da decadência de um reino e a podridão de seu sistema de castas imposto pela hierarquia, mas com cores fortes e um tempero especial para escamotear a acidez do enredo. Para alguns apenas um deslumbrante desfile de imagens bonitas. Para outros, um contundente trabalho a respeito de um período visto por outra ótica, a dos acontecimentos na França, mas ainda assim não muito diferente do que se encontraria em outros países. Uma pena este banquete cinematográfico ser uma raridade. Tomara que um dia alguma distribuidora ainda nos sirva esta iguaria em grande escala.

2 comentários:

renatocinema disse...

Sempre escuto falar desse filme......e sempre deixo para amanhã que nunca chega.

Vou tentar ver.

Guilherme Z. disse...

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