terça-feira, 9 de agosto de 2011

LÁGRIMAS DE DESESPERO


Durante o segundo semestre de 1999, um certo filme despertou a curiosidade do mundo inteiro através de uma engenhosa proposta de marketing aliada a uma história vendida como verídica e com potencial para fazer as platéias roerem as unhas de tanta tensão. O enredo é facilmente descrito em poucas palavras logo no início da fita : em outubro de 1994, três estudantes entraram nas florestas de Burkittsville, nos EUA, para filmar um documentário sobre a lenda de uma bruxa e jamais foram vistos novamente, apenas um ano depois as imagens dos vídeos gravados por eles foram encontradas. A partir desses registros documentais, Daniel Myrick e Eduardo Sanchez escreveram, dirigiram e montaram uma das mais perturbadoras e enganosas obras de terror de todos os tempos. Sim é isso mesmo. A Bruxa de Blair é um título que merece elogios por trazer realismo e o estilo documentário para as grandes platéias e conseguir invadir as salas de cinema dos shoppings, além de merecer cumprimentos pela sua eficiente campanha de lançamento. O adjetivo enganoso fica por conta da cara de bobo que milhões de pessoas fizeram ao saber que tudo aquilo que aguardaram tanto para assistir era puro cinema escapista, nada daquilo era verdade. Dos males o menor. A quantidade de sustos e o clima ímpar de suspense e sufocamento da produção compensam tudo. Na realidade, a dupla de diretores alinhavou cenas e construiu um texto com alguma linha de lógica graças ao empenho de seu elenco amador, com quem deveriam dividir os créditos pelos trabalhos de produção. O trio de atores recebeu aulas para aprender a manusear uma câmera e então foi levado para ficar alguns dias na floresta. Privados de sono e alimento e sem saber onde estavam os protagonistas eram observados a distância pela produção que ficava escondida no meio da floresta. Tudo foi feito para que as filmagens parecessem o mais próximo da realidade. As falas eram improvisadas durante o dia e os ruídos, gritos e objetos de feitiçaria eram forjados sem prévio aviso para arrancar expressões de sustos verossímeis. Nunca os atores sabiam o que poderia acontecer no dia seguinte ou até mesmo na próxima hora.

O enredo costura cenas em estilo documental e outras com enquadramentos péssimos, bem do tipo vídeo amador, para contar uma história em que as palavras são de menos e sobram respirações ofegantes dos universitários Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams, todos interpretando simplesmente eles mesmos. Após entrevistar moradores próximos a floresta, eles passam a ouvir e encontrar coisas estranhas pelo caminho. Uma das cenas mais marcantes do longa, e também muito parodiada depois em comédias, ocorre no clímax, quase no fim. É a famosa sequência do monólogo de Heather, na qual ela deixa uma última mensagem aos seus pais dizendo que os ama e pede desculpa as famílias de seus companheiros e que não quer que o seu legado se perca. A essa altura, Joshua já havia desaparecido e cabe aqui uma explicação sobre o final que até hoje muita gente não compreende. Michael e a jovem ouvem a voz do amigo chamando-os e os dois são guiados até uma velha casa abandonada. Heather sobe as escadas com sua filmadora e depois desce até o porão, quando grita histericamente e a câmera cai no chão de modo que consegue capturar o fundo do cômodo onde está Michael de costas, o que fornece uma pista para o mistério. Segundo uma das pessoas entrevistadas no longa, a bruxa deixa as vítimas no canto de castigo enquanto mata outra, o que leva a crer que a jovem morreu enquanto seu amigo estava hipnotizado aguardando seu triste fim. Essa história macabra se refere a um dos trunfos da produção. Os cineastas criaram toda uma história a respeito da Bruxa de Blair desde o século 18 e publicaram uma cronologia do início do mito até a data da descoberta das fitas dos estudantes no site oficial do filme que deu o ponta pé inicial em uma trajetória milionária e de sucesso. As informações divulgadas na internet deram força à crença de que a história era baseada em fatos reais e olha que na época o mundo virtual não tinha a mesma força que tem hoje. No Brasil, A Bruxa de Blair chegou próximo as comemorações do Dia das Bruxas e já turbinado por muitas críticas positivas e negativas e boatos assustadores, assim rapidamente se tornou líder de bilheterias e depois recordista de locações, ainda no tempo do VHS. Hoje a produção pode ser encontrada em DVD, mas se tornou um entretenimento apenas para matar curiosidades, não tem o mesmo impacto e tampouco a aura de ineditismo de outrora. O tempo passou, a carreira dos envolvidos não decolou e a sequência da fita destruiu toda e qualquer possibilidade do conto da bruxa seguir adiante. Mesmo assim, quem viveu a adolescência ou deixou seu espírito de cinéfilo aflorar naquela época, no não tão distante ano 1999, certamente jamais vai esquecer-se da expectativa gerada em torno do conto da bruxa, uma coisa de outro mundo, literalmente.

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