quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ESQUECERAM DE... CASSIOPÉIA

Toy Story foi o primeiro longa de animação feito inteiramente com avançadas técnicas de computação. Bem, na prática sim, mas na teoria não. Como a maior parte dos brasileiros desconhece a história do cinema nacional, nem deve se dar conta que vez ou outra um desenho daqui mesmo do nosso país é lançado. Sabe menos ainda que por um triz o Brasil não carregou o honroso título que a Disney/Pixar acabou levando. Sim, isso mesmo. Usando tecnologia, mesmo sendo softwares e máquinas que já não eram de ponta, e com muito esforço de trabalho e para captar recursos, o diretor e roteirista Clóvis Vieira realizou a aventura espacial Cassiopéia (1995), que na época já não foi um sucesso, muito por conta do preconceito e desconfiança que na época cercava nossa produção cinematográfica, e hoje é lembrada apenas por alguns poucos cinéfilos ou amantes do gênero.

Naqueles tempos, a Disney estava empolgada com o resultado de seus últimos trabalhos no campo da animação e firmava sua primeira parceria com a Pixar, que já tinha um longo currículo de curtas premiados e elogiados. A França também ia entrar na briga pelo título de primeiro desenho computadorizado da história com uma versão do clássico "Vinte Mil Léguas Submarinas" e assim como o Brasil foi destaque em uma matéria de uma revista americana. Vieira então teve certeza que os trabalhos para a finalização de Toy Story foram acelerados, pois os americanos não ficariam satisfeitos em ver outro país ostentando algo que eles almejavam e tinham certeza que mereciam. Com um atraso de seis meses ao filme dos brinquedos falantes e espertos, Cassiopéia estreou nas salas brasileiras e não ficou com a glória e muito menos com uma polpuda bilheteria ou reconhecimento internacional. Mas vamos puxar a sardinha para o nosso lado. A parte o resultado visual, o longa americano foi gerado a partir de modelos criados por artistas plásticos e depois as imagens foram digitalizadas em diversos ângulos e assim os personagens ganharam vida no ambiente virtual. Já o nacional foi criado com bases em fórmulas matemáticas e tudo foi feito diretamente nos computadores. Do início até a finalização foram cerca de quatro anos de dedicação intensa dos profissionais envolvidos, sendo que o primeiro ano foi marcado pelo trabalho praticamente solitário do diretor.

O filme conta com um enredo bem simples, quase uma fábula, contrastando com a violência dos desenhos que faziam sucesso na época, quando houve uma invasão de animações nipônicas e americanas carregadas de cenas fortes de luta. A história envolve o planeta Atenéia, localizado na constelação de Cassiopéia, habitado por robozinhos simpáticos e com trejeitos de humanos. A harmonia é balançada quando o local é invadido por seres que começam a sugar a energia do Sol. Um sinal de socorro é enviado ao Conselho Galáctico Central e, por fim, a salvação cai nas mãos de um pequeno grupo de cientistas. Liderada pela astrônoma Liza, a equipe também conta a ajuda do pesquisador Leonardo, que se transforma no grande herói do filme.


Os personagens e ambientes foram todos concebidos a partir de figuras geométricas como cubos, cilindros e esferas, assim a estética visual acaba sendo um pouco comprometida e parecendo artificial. Se na época isso já era um empecilho, hoje em dia mais ainda com a concorrência investindo pesado cada vez mais em se aproximar da realidade e imprimindo um ritmo frenético as cenas, bem o oposto do que se vê em Cassiopéia. Se nesses quesitos nosso longa já nasceu envelhecido, pelo menos no texto continua muito atual, investindo na conscientização ecológica e até social. Os invasores absorvem a luz da estrela mais próxima sem se importar com os danos que podem causar aos outros habitantes, estes que se defendem dos ataques sem recorrer à violência, utilizando recursos alternativos e criatividade.

Finalizado no início de 1996, Cassiopéia chegou aos cinemas para aproveitar as férias de julho, mas era ano de jogos olímpicos, o que certamente afastou o público que preferiu assistir televisão. A bilheteria não foi boa mesmo na época não havendo tantas opções infantis invadindo os cinemas como atualmente, mas com o filme pronto ele precisava ser lançado de qualquer maneira dando lucro ou não. Apesar disso, uma sequência estava em fase de pré-produção e utilizaria desta vez tecnologia das mais modernas, mas o projeto foi abandonado em 2002, época em que o DVD do original circulava por lojas e locadoras, mas hoje ele é raridade de ser encontrado, está fora de catálogo. Como é possível um marco de nosso cinema estar indisponível ao público? Acorda Brasil!

Nenhum comentário:

Você também pode gostar de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...