domingo, 1 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - SIMPLESMENTE FELIZ

Hoje é o primeiro dia do ano e é hora de fazer votos de que o novo tempo que começa seja bem melhor que o ano que acabou. Muita gente ainda continua com seus rituais para conseguir dinheiro, sucesso, amor, mas no fundo tudo que as pessoas buscam pode ser resumido em uma única palavra: felicidade. Ver a vida e os problemas com um olhar mais otimista deveria ser regra básica para os próximos doze meses e é dessa forma que vive a protagonista do filme Simplesmente Feliz (2008), uma produção modesta que mistura drama e humor de forma eficiente e que nos deixa com uma sensação leve e esperançosa ao final. Para trazer a tona tanta sensibilidade para atingir o espectador, só podia mesmo ser um trabalho de alguém fora da muvuca hollywoodiana. Mike Leigh é um cineasta britânico muito respeitado e premiado que adora lidar com histórias humanas, até mesmo as mais espinhosas como fez em O Segredo de Vera Drake, uma de suas obras mais famosas.


Existe tristeza nas histórias de humor da mesma forma que há espaço para a comédia nos dramas. Basicamente é esse pensamento que moveu Leigh na hora que concebeu a idéia deste filme aparentemente despretensioso, como o título nacional induz, mas que possui camadas mais profundas. O enredo nos apresenta Poppy (Sally Hawkins), uma jovem professora de escola primária que é uma otimista incorrigível. Sempre vestida com roupas coloridas, usando muitos acessórios e mantendo um largo sorriso no rosto, ela tenta aproveitar ao máximo sua vida. Por gostar de brincar com situações sérias, ela passa a imagem de ser irresponsável e essa desse modo que a enxerga Scott (Eddie Marsan), seu professor da auto-escola, que não suporta a falta de atenção da moça ao volante e em tantas outras situações. Seja por problemas de relacionamentos ou no trabalho, as várias broncas do instrutor por ela teimar em dirigir de salto alto ou por ter sua bicicleta roubada, não importa, ela sempre vê as coisas por uma lado positivo e gargalha de si mesma e tudo que lhe acontece diariamente.


Esnobado pelo Oscar, que só reservou uma indicação para o roteiro original, o longa ganhou muitos prêmios em diversos festivais e premiações e Sally Hawkis conquistou o Urso de Prata em Berlim e o Globo de Ouro de melhor atriz, apesar de aparentemente não ter feito muitos esforços para interpretar uma otimista. Ela aparece em cena tão natural e a vontade em seu papel que dá a impressão que Poppy é ela na verdade e rapidamente nos sentimos íntimos desta mulher e de seu universo particular que de certa forma é até fantasioso. Ainda assim, a personagem passa longe do caricato e é totalmente crível porque sua intérprete, para começar, não é nenhum modelo de beleza e empresta sua simplicidade a sua criação. Ela é uma mulher de aspecto comum que comete alguns exageros em sua forma de se vestir, mas é assim que ela se sente bem e apreciável. Seu excesso de bom humor em nenhum momento invade o espaço dos outros, mas as pessoas que a cercam acabam não resistindo e querendo absorver aquela felicidade. Nem mesmo o carrancudo instrutor escapa e, em meio a algumas discussões acaloradas, também se deixa envolver pela energia leve e divertida que ela emana. Os vários embates vocais entre eles são sempre muito divertidos e beiram o absurdo.

A primeira vista pode parecer que o roteiro e até a personagem de Sally sejam tolos e muito fáceis de serem construídos, mas convenhamos realizar uma obra alto astral sem descambar para inúmeros clichês e situações embaraçosas não é uma tarefa fácil.  Ela é focada nas situações que Poppy vive que o diretor tenta provar que comédia e drama andam lado a lado. Por exemplo, quando a moça escuta com atenção as histórias de infelicidade, sempre tem na ponta da língua uma tirada para fazer o humor surgir e quem sabe tranquilizar aqueles que estão sofrendo. Durante suas aulas de direção, o instrutor tem um modo muito exagerado de agir e conversar, e ela se mata de rir, mas vez ou outra ele deixa transparecer em suas palavras um tom preconceituoso. Essa é a grandeza do texto de autoria do próprio Leigh. Ao mesmo tempo em que diverte joga uma isca para colocarmos a cabeça para funcionar. Para manter sua obra em um nível elevado, no qual é possível fazer essas associações, e até para extrair o máximo que pode de naturalidade de seus atores, Leigh se beneficia do estilo de fazer cinema independente. A falta de um orçamento generoso ou um grande estúdio por trás do projeto não são problemas, na realidade são fatores positivos, assim ele mesmo pode ter controle absoluto sobre tudo que envolve a produção e manter-se fiel a sua idéia original. Apesar dos traços de comédia romântica e de um final previsível, o longa também agrega características do cinema alternativo. Se fosse um produto made in Hollywood certamente seria transformado completamente para atender exigências de mercado ou, em outras palavras, interesses financeiros de uma fábrica de sonhos que deseja faturar milhões ou bilhões anualmente.


Como dito no início, engana-se quem pensa que esta obra sirva apenas para uma sessão de cinema descompromissada. A história tem algo de profundo e não é preciso muito esforço para descobrir suas reais intenções: fazer o espectador refletir e se questionar. Sim é possível tirar algumas lições. Além da óbvia mensagem de procurar sempre ver tudo da melhor maneira possível, também podemos pensar se as coisas simples da vida é que na verdade nos fazem felizes, um apontamento de suma importância atualmente para uma sociedade individual e extremamente consumista e materialista. O que vale mais, uma divertida reunião com amigos no fim de semana ou ficar trocando idéia com conhecidos do mundo virtual cujo rosto você nem conhece? Presentear alguém com flores ou algo artesanal que você próprio escolheu ou mandar entregar na casa da pessoa algo escolhido em uma loja que você nem ao menos tocou no produto? São pensamentos que não estão explícitos no longa, mas a essência está presente ali desde o início. Simplesmente Feliz é realmente uma obra simples e muito feliz que tem muito a nos oferecer. Tomara que quem já assistiu, aqueles que irão ver pela primeira vez ou ainda quem for rever guardem sua mensagem para o resto de 2012 e pelos próximos anos.

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