segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - O DIABO VESTE PRADA

Os chamados filmes-pipocas ao longo dos anos ficaram estigmatizados como produções tolas feitas para puro entretenimento visando principalmente fisgar a atenção do público jovem. Eles possuem enredos muitas vezes tão rasos quanto um pires e escamoteiam seus defeitos com recursos artificiais que vão desde a escolha de um elenco popular e bonito até os tão comentados efeitos em 3D, tudo dependendo da proposta. Porém, alguns títulos de sucesso e no melhor estilo sessão da tarde surgem de vez em quando para manter a nossa fé no cinema mais popular. O Diabo Veste Prada (2006) é um deles. O longa enfoca a milionária indústria da moda que acaba sendo refém dos jornalistas, profissionais que raramente conseguem obter o respeito e a importância que tanto almejam. No mundo fashion eles encontram isso e muito mais. O sucesso ou fracasso do trabalho de estilistas e costureiros dependem literalmente de algumas poucas palavras destas pessoas. Anna Wintour, por exemplo, é uma das mais influentes editoras de moda do mundo todo e foi nas experiências de trabalho que obteve como sua assistente que a autora Lauren Weisberger se baseou para escrever o livro que originou este longa (embora negue), uma obra que alia humor e crítica em doses generosas. 


A primeira vista, o grande chamariz da produção é Miranda Priestly (Meryl Streep), a editora de Runway, uma conceituada revista de moda. Ela é famosa por ser grosseira, antipática e exigir esforços e exageros de seus funcionários em busca da perfeição ou por pura perversão. Ela contrata a jovem Andy Sachs (Anne Hathaway) para ser sua assistente, embora ela não entenda nada sobre o mundo fashion. A moça tem a esperança de que trabalhar ao lado de um ícone do mundo do jornalismo e da moda possa impulsionar sua carreira. Ela tem o emprego que muitas garotas queriam, porém, trabalhar para Miranda não é nada fácil. Dezenas de telefonemas, buscar encomendas, acompanhar todas as etapas da edição da revista e não ter mais hora para chegar em casa ou qualquer resquício de vida pessoal são algumas das tarefas e dificuldades que Andy terá que enfrentar. E Miranda, como sempre, estará de olhos bem abertos vigiando a garota. No fundo, o enredo discute as maneiras com que o ser humano se adapta ao seu meio, chegando ao ponto de se anular pessoalmente para assumir as características que lhe exigem. A chefona linha-dura a certa altura revela seu lado humano que esconde há muitos anos sob roupas e acessórios de grife enquanto a novata no mundo fashion procura seguir os mesmos passos para se tornar a pessoa ideal para trabalhar com moda.


Como todo filme que é originado de um livro, há quem condene O Diabo Veste Prada de não ser fiel ao texto original e transformar alguns aspectos interessantes da história em algo comum, como a personalidade de Andy. Bem, mas como aqui o que importa é o que vemos na tela tais julgamentos não cabem. O conjunto todo do longa é muito agradável, com momentos inspirados e funciona muito bem. Pode ser que você nem venha a gargalhar em sequer uma cena, mas certamente ficará com um sorriso constante no rosto do início ao fim. Não poderia ser diferente quando temos uma protagonista simpática atuando, mas apesar de todo carisma e esforço de Anne Hathaway o show é mesmo da grande Meryl Streep que mais uma vez fisga a atenção do público a cada nova aparição. Se naturalmente ela já tem uma força hipnótica, aqui ela tem isso em dobro graças a sua composição de uma mulher forte, rígida e sem papas na língua que aos poucos vai se despindo da armadura que criou para si mesma conforme convive com sua nova assistente que inicialmente mais comete furos que qualquer outra coisa. Absolutamente natural, parece mesmo que a temida Miranda Priestly existe (qualquer semelhança com a personagem da vida real citada na introdução no texto talvez não seja mera coincidência mesmo). Isso é fruto do talento inegável da atriz e de várias características de personalidades reais do mundo fashion reunidas para gerar um indivíduo fictício, mas perfeito. A “vilã” não demora a dar o ar da graça e, apesar de pisotear a todos, é difícil sentir raiva dela, pois suas falas cheias de veneno e ironia conquistam o espectador.
Se Meryl está estupenda como sempre e Anne defende bem sua personagem que de patinho feio se transforma em uma mulher desejável e descolada, entre os coadjuvantes também temos talentos, destacando-se Emily Blunt que deslanchou a carreira após essa participação. Ela interpreta a primeira assistente de Miranda que toca o terror para cima de sua nova colega de trabalho já que está acostumada ao jeito pouco sutil da chefe. Inicialmente podemos desconfiar que ela quer defender seu espaço e não perder seu emprego, mas na realidade ela tem bom coração, dá conselhos e sonha com uma viagem de trabalho a Paris, o que significaria um atrativo a mais para seu currículo. Mais competente e solidário que ela só mesmo o personagem de Stanley Tucci, ator acostumado a chamar a atenção com suas criações para ocupar vagas secundárias nas histórias. Com suas falas cheias de sarcasmo e ironia ele consegue divertir e criar afinidade com a platéia. Digamos que ele fala na tela o que todos que estão assistindo gostariam de dizer. Para completar, a modelo brasileira Gisele Bundchen faz uma pequena ponta com direito a duas ou três frases e visual de intelectual, mas nada que arruíne o filme.

Lidando com um humor inteligente e crítico, o diretor David Frankel conseguiu realizar uma obra que agrada a diversas classes e faixas etárias. Desde aqueles que não entendem nada de moda até os mais entendidos que não saem de casa sem fazer uma combinação perfeita de roupas e acessórios, qualquer um pode compreender o conteúdo de O Diabo Veste Prada. Do início quando Miranda lança seu olhar fulminante para Anne analisando suas vestes de cima a baixo até a última cena com um sorriso malicioso da poderosa editora de moda, as quase duas horas deste filme são dedicadas a dissecar os bastidores do chamativo mundo fashion e analisar os comportamentos dos profissionais deste ramo, mas sem nunca cair nas armadilhas do didatismo ou jogar um balde de água fria naqueles que fazem planos para trabalharem na área. Para quem nunca se deu o presente de curtir esta produção pensando em se tratar de uma baboseira referente a mulheres tresloucadas deslumbradas por roupas e acessórios e em busca de um grande amor, bem ao estilo de Sex and the City (eita, o diretor do filme é o mesmo da série de televisão protagonizada por Sarah Jessica Parker!), deixe o preconceito de lado e divirta-se com um dos produtos mais cults da década de 2000. Na pior das hipóteses, a trilha sonora é bem bacana e com músicas famosas, o que pode salvar o programa daqueles que realmente continuam com a idéia antiquada de que moda é só para pessoas fúteis. Preste atenção nas falas de Miranda Priestly e tenha certeza que irá pensar diferente sobre o assunto.

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