terça-feira, 27 de setembro de 2011

CENTRAL DE EMOÇÕES


O cinema nacional passou muitos anos no limbo, mas seu renascimento foi glorioso com direito a indicação ao Oscar logo em um dos primeiros projetos da nova fase. Não demorou muito e mais uma indicação veio. A nossa indústria cinematográfica caminhava a passos largos e finalmente em 1998 deu um passo maior que a perna, no bom sentido. O cineasta Walter Salles presenteou o Brasil como uma das obras mais famosas e reverenciadas de nossa filmografia, Central do Brasil, um drama profundamente emocionante e humano que apresentou aos próprios brasileiros um aspecto do país que nem eles mesmos conheciam principalmente os que vivem nas grandes metrópoles. Acostumados a falta de respeito, intolerância e o excesso de violência presentes nos cotidianos das cidades grandes, poucos se lembram que existem pessoas solidárias e humildes espalhadas por aí que vivem seus dramas em silêncio e praticamente sem assistência. Claro que os aproveitadores estão a solta também, mas todos merecem uma chance de redenção e é nesse ponto que o roteiro de Marcos Bernstein e do hoje novelista João Emanuel Carneiro toca. Na Central do Brasil, uma famosa estação ferroviária localizada no Rio de Janeiro, Dora (Fernanda Montenegro) ganha dinheiro escrevendo cartas para pessoas analfabetas, porém as mensagens nunca chegavam a seus respectivos destinos e ficavam guardadas na casa dela. Um dia, Ana (Soia Lira) aparece com o filho Josué (Vinícius de Oliveira) pedindo que escrevesse uma carta para o pai dele dizendo que o menino quer visitá-lo. Saindo da estação, Ana morre atropelada por um ônibus e o pequeno Josué fica sem ter para onde ir e se vê forçado a morar na estação. Com pena do garoto, Dora decide ajudá-lo e levá-lo até seu pai que mora no sertão nordestino. Inicialmente os dois se estranham e trocam farpas, mas os obstáculos e descobertas da viagem fazem com que os dois se aproximem e passem a ter uma relação de amizade muito forte.

A boa condução da narrativa, relativamente lenta, entrecortada por passagens de humor e repleta de participações especiais de excelentes atores, consegue fazer com que até o espectador mais alheio ao assunto logo se sinta familiarizado e envolvido com a bela história de amizade que surge entre pessoas tão opostas. O garoto que não se deixa abater diante das dificuldades, é ingênuo até certo ponto e está com todos seus pensamentos voltados a um único objetivo. Ela já é vigarista, um tanto ranzinza e parece apenas viver o dia a dia sem expectativas futuras. A coincidência entre eles é o carinho mútuo que passam a sentir um pelo outro. O trabalho feito com o roteiro para transformar em amizade a relação inicialmente conturbada de Josué e Dora é tão fascinante que fica difícil não se envolver com a trajetória deles, ambas marcadas por tristezas e problemas. Salles cuidou do projeto desde os mínimos detalhes para que tudo funcionasse bem e conseguiu aliar plenamente as características de um cinema intimista com as de produções mais comerciais. O resultado foi que o longa extrapolou as barreiras de nossa pátria e ganhou o mundo através de festivais e premiações até chegar nas salas de cinemas estrangeiras. Não é de se espantar. A história tem o poder de emocionar as pessoas de qualquer parte do mundo e tem seu alcance ampliado devido as ótimas interpretações, desde os populares que ditam as cartas no início da trama até a grande estrela Fernanda Montenegro que ganhou muitos prêmios internacionais e chegou a ser indicada ao Oscar, assim como o filme. Vale destacar também o desempenho de Vinícius de Oliveira, um garoto que foi encontrado trabalhando como engraxate em um aeroporto e que viu sua vida mudar da noite para o dia. Com muita naturalidade, ele conseguiu conquistar a atenção e recebeu elogios até de personalidades estrangeiras, mas sua carreira não seguiu o caminho brilhante do filme. Dizem que o melhor da festa é esperar por ela e no caso a viagem dos protagonistas se revela uma experiência muito mais recompensadora do que chegar ao seu local de destino. A cena de destaque estampou o material de divulgação e é uma das imagens mais marcantes do longa, entre tantas outras, e se passa em um ponto da história em que qualquer espectador já está tomado pela emoção e provavelmente se debulhando em lágrimas, muito também pelo belíssima trilha sonora que acompanha a sequência. Os dois personagens já vivem quase que uma relação de mãe e filho e torcemos para que o eminente final feliz deles aconteça brevemente. Bem, Salles prova com este trabalho que a vida é feita de bons e simplórios momentos que devem ser vividos intensamente e são únicos, mas, fazendo um trocadilho com uma polêmica da época, nem sempre a vida é bela. Felizes aqueles que se deram o prazer de assistir a esta obra-prima do cinema nacional e carregarão para sempre consigo momentos emocionantes, tal qual uma singela fotografia com alguém que se ama, outra sequência memorável do longa. Central do Brasil é um dos ícones do nosso cinema e merece ser lembrado sempre.

Um comentário:

renatocinema disse...

Ícone mesmo. Filmaço.

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