terça-feira, 20 de setembro de 2011

FALSA BELEZA


Muitas vezes ficamos encantados quando vemos em filmes aquelas casas bonitas, com jardins vistosos e localizadas em ruas tranquilas longe dos caóticos centros das cidades americanas e sonhamos em levar uma vida igual a das pessoas quem ali vivem. Porém, o que parece tão perfeito, da porta de casa para dentro é bem diferente. Elas parecem ricas, ter sucesso e bem-estar, mas seriam plenamente satisfeitas? Arruinar a imagem da família modelo americana é até um tema comum no cinema nos últimos anos, de forma branda ou agressiva, mas talvez o precursor dessa fase tenha sido o premiado Beleza Americana. Lançado em 1999, naquela época parecia que Hollywood queria retratar a realidade de forma nua e crua e sem direito a verniz. Temas espinhosos foram levados as telas pelos principais concorrentes a prêmios da temporada, mas o longa do então estreante diretor Sam Mendes levou a melhor e recebeu muitas láureas, incluindo cinco Oscars, sendo apenas um da parte técnica, os outros todos principais. Curiosamente, esta obra que mexe em feridas da sociedade norte-americana, mas com situações corriqueiramente encontradas em diversas partes do mundo, não foi bancada por produtoras independentes ou estrangeiras. A empresa de Steven Spielberg, a Dreamworks, bancou o projeto que não só conquistou a crítica como também o público, que provavelmente se identificou com os dramas de personagens comuns. Aliás, para estudos de personalidades, esta obra é um item obrigatório com seu farto painel de tipos e conflitos. Traição, crise de meia-idade, drogas, homossexualismo entre outros temas espinhosos são enfocados nesta história que traz Kevin Spacey como protagonista. O ator arrancou elogios na pele de Lester Burnham, um cinquentão reprimido e infeliz que consegue ganhar um novo ânimo para viver quando se apaixona pela personagem de Mena Suvari, a amiga de sua única filha, vivida por Thora Birch, esta uma moça que tem baixa auto-estima e vive reclusa em um mundinho particular. As cenas de nudez das duas atrizes não chegaram a causar grandes burburinhos, mas dizem que ambas eram menores de idade durante as filmagens e nem mesmo o relacionamento, mesmo fictício, de um homem mais velho com uma adolescente deu sinal vermelho a produção nos órgãos de censura.

Annette Bening interpreta a esposa de Spacey, uma ambiciosa corretora de imóveis que há anos não tem uma relação mais íntima com o próprio marido, mas não resiste a tentação de traí-lo mesmo com um rival do trabalho. Por vontade ou pura maldade, o fato é que a traição não surte efeito e o cinquentão não está nem aí para a mulher. Após pedir demissão do emprego e ganhar uma boa grana na base da chantagem, ele consegue ser feliz trabalhando como atendente em uma lanchonete, compra o carro de seus sonhos e passa a se exercitar diariamente, tudo para tentar recuperar os anos que perdeu preocupado com um trabalho chato para sustentar os luxos da família. Na casa dos vizinhos a perfeição também passa longe. Chris Cooper e Wes Bentley vivem pai e filho que aparentemente vivem bem, mas o envolvimento do jovem com drogas é o ponto de discórdia da família. O pai, preconceituoso e rígido, também tem seus desejos reprimidos, mas precisa manter sua imagem autoritária e correta. Uma das marcas registradas do longa são as pétalas de rosas vermelhas, aliás o título se refere a um tipo de rosa muito cultivada nos EUA e que tem a peculiaridade de não possuir espinhos e odor, uma metáfora que resume o intuito de toda a história: mostrar o vazio do americano comum, mas que chega a ser uma mensagem universal. Toda vez que Spacey sonha com a ninfeta de lábios carnudos e cabelos loiros, as pétalas estão em cena, uma alusão a paixão reforçada pela exuberante coloração. A cena estampou alguns cartazes de cinema e já foi parodiada até em desenho animado. Quem já viu as tais cenas, também não deve se esquecer da trilha sonora que as acompanha, um casamento perfeito. Beleza Americana quebrou uma tradição de quase cinco anos de o Oscar premiar como Melhor Filme produções épicas e mesmo sendo carregado de personagens estereotipados o que vemos em cena é um trabalho excepcional, mas que derrapa ao tentar ousar e recuar. A quebra de padrões dá um passo a frente, mas no final todos se dão conta que o sonho de viver da forma que queriam dura pouco e a realidade os espera. A esposa traidora se arrepende, a garota sedutora se revela uma santa, o namorado da filha confirma sua fama de esquisito ao olhar com um leve sorriso um cadáver e o vizinho durão mostra que o seu preconceito pode ter raízes em seus próprios desejos enrustidos. Para quem gosta de histórias humanas, o longa é um prato cheio e é impossível não se emocionar com as últimas palavras do protagonista que têm o poder de colocar os panos quentes em qualquer má impressão que o restante do filme possa ter deixado aos mais puritanos. Feliz e satisfeito, como ele mesmo diz, um dia todos encontrarão a verdadeira beleza da vida.

Um comentário:

renatocinema disse...

Belo filme.

Vi no cinema e me emocionei.

Grande texto.


O filme merecia essa lembrança.

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