quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - O GRANDE TRUQUE

O nome do diretor Christopher Nolan ficou conhecido quando o thriller Amnésia começou a colecionar indicações a prêmios e críticas positivas. Logo ele estava saltando do cinema independente para o comercial com a difícil tarefa de ressuscitar a franquia de um super-herói. Batman Begins foi um estrondoso sucesso e abriu caminho para um novo filme do Homem-Morcego, mas antes disso ainda deu tempo do cineasta realizar outro trabalho. O Grande Truque (2006) parecia ser apenas mais uma produção qualquer ostentando um elenco de peso, porém, para a surpresa de muitos, ela conseguiu aliar diversão e qualidade de uma forma que poucos filmes conseguem, principalmente considerando que seu lançamento foi feito fora do período das premiações ou férias, em uma época em que boa parte dos lançamentos são bobagens para ocupar os cinemas. Será que é por isso que o longa foi esquecido pelo Oscar e outros prêmios?
 
A história se passa em Londres no século 19 e envolve uma intensa disputa entre dois mágicos. Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale) se conhecem há muitos anos e sempre competiram amigavelmente entre si, mas a amizade dos ilusionistas é colocada em xeque quando o sentimento de rivalidade é intensificado. Cada um quer fazer o melhor show de mágica possível e a obsessão passa a ditar as regras levando os dois homens a ações extremas e trágicas. Mas será que apenas a rixa profissional está os influenciando ou existe algo mais? O roteiro não é linear e mistura passado e presente. Logo no início Angier é morto misteriosamente e seu concorrente direto passa a ser o principal suspeito e é preso. Na prisão Borden recebe o diário do falecido e agora tem em mãos os segredos pessoais e profissionais de seu rival. Em flashback são apresentadas imagens dos espetáculos e das disputas e o vai e vem do tempo é constante, assim são plantadas pistas para o espectador desvendar o grande mistério da trama, mas como um bom mágico Nolan não deixa espaço suficiente de tempo entre os acontecimentos justamente para quem assiste não poder pensar e tirar conclusões precipitadas.    
 
É comum que muitos filmes com bons argumentos acabem sendo fracassados devido a desentendimentos entre diretor e roteirista. Costumamos creditar os resultados positivos ou negativos a quem está atrás das câmeras, mas não podemos esquecer que sem um bom escritor não há produção que supere o nível de regular. No caso deste filme sobre ilusionistas, de fato ocorreu uma magia nos bastidores. Só mesmo duas mentes plenamente sintonizadas poderiam gerar excelentes resultados. Se Christopher conseguiu transformar em imagens a bela adaptação do livro “The Prestige”, de Christopher Priest, isso se deve muito a parceria com seu irmão, o roteirista Jonathan Nolan, também responsável pelo enredo do já citado Amnésia. Adeptos das reviravoltas e do clima obscuro, os irmãos Nolan envolvem o espectador em uma trama intrincada que em certo ponto deixa dúvidas no ar sobre o que é real e o que é magia. O jogo da verdade ou mentira é lançado até mesmo se observarmos o elenco estrelar. Além do embate do Batman versus Wolverine, ou melhor, entre Bale e Jackman, também temos o competente e incansável Michael Caine e a bela e sedutora Scarlett Johansson para fazer caras e bocas. Uma reunião de atores desse porte aliado a direção do homem que devolveu a dignidade ao Homem-Morcego só poderia vender uma imagem: tremendo blockbuster para faturar milhões. Acabou acontecendo o contrário. Apesar das críticas elogiosas da imprensa, boa parte dos primeiros espectadores não aprovou a produção e trataram de no boca-a-boca diminuir as expectativas de quem ainda não havia assistido. Fazer os neurônios funcionarem no escurinho do cinema não faz o feitio do “espectador de fim de semana”.
Quem já assistiu e não gostou ou para aqueles que nem se atreveram a ver alguns minutos para tirar suas próprias conclusões não deve se sentir diminuído pelo fato de não entender ou não se sentir instigado a embarcar nesta trama de suspense. Basta aceitar como um elogio a forma como o cineasta conduz seu trabalho. Além de oferecer imagens impactantes e cheias de clima mistério, Nolan tem um cuidado acima de tudo com os personagens e suas histórias. Ele não subestima a inteligência do espectador entregando tudo mastigadinho, pelo contrário, suas intenções é fazer com que as pessoas reflitam e não desviem a atenção em momento algum do foco principal. O recurso do flashback que muitas vezes não é bem utilizado e acabam por destruir alguns filmes neste caso é extremamente bem-vindo e uma ferramenta a mais para fazer com que os espectadores pisquem o mínimo possível. Ainda assim é praticamente impossível não nos surpreendermos com as reviravoltas propostas. Nesse ponto a edição das cenas é de suma importância. A montagem excepcional trata de dar certa ordem ao início, meio e conclusão de uma história do tempo presente aliada a eventos do passado, mas na realidade ela apresenta as peças necessárias para que o próprio público monte esse quebra-cabeça.
 
Para quem espera um filme no qual o deslumbramento provocado pelos truques de mágica estejam em primeiro plano esqueça. O Grande Truque vai além do espetáculo óbvio e apresenta importantes questões a respeito de comportamento e psicologia. Explorando mais os personagens que as situações, Nolan consegue enriquecer seu trabalho com os conflitos travados pelos protagonistas que não querem apenas ser soberanos em sua arte, mas também serem superiores fora dos palcos. A obsessão é tanta e desenfreada que parece que o triunfo só virá quando um deles estiver no fundo do poço, mas nenhum deles demonstra estar disposto a entregar os pontos. Quem é o mocinho e quem é o vilão nesta história? Pois é, até o final não fica claro. A cada nova reviravolta as dúvidas aumentam e não sabemos para qual lado torcer. Sem manipular fatos e emoções, esta é uma produção que exige o máximo de atenção para sua compreensão. No final temos uma espécie de resumo do enredo feita pelos próprios protagonistas, mas isso não deve ser levado em consideração como “se você não entendeu, é agora ou nunca”. Com em qualquer truque de mágica, nem sempre o que parece é e a explicação da magia está neste epílogo.

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