sábado, 22 de dezembro de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - TÃO FORTE E TÃO PERTO

As tristes e chocantes lembranças do fatídico dia 11 de setembro de 2001 e seu ataque às Torres Gêmeas nos EUA ainda estão presentes na memória de todos aqueles que acompanharam as notícias inacreditáveis que iam sendo informadas minuto a minuto pela imprensa mundial naquela época e ainda servem como fonte de inspiração para os diretores de cinema. Entre documentários, grandes produções e outras de proporções modestas, são muitos os filmes que retrataram de forma realista, amena ou com forte apelo dramático este episódio marcante da História moderna. Dez anos após a tragédia, foi a vez do cineasta Stephen Daldry, especialista em dramas e três vezes indicado ao Oscar, abordar o tema em Tão Forte e Tão Perto (2011). Não é um dos seus melhores trabalhos, mas está acima da média de outros produtos que trataram do tema e surpreendentemente foi indicado pela Academia de Cinema ao prêmio de Melhor Filme, mas isso em nada ajudou em sua repercussão e bilheteria. Todavia, uma obra a ser descoberta pelo grande público.
 
A trama gira em torno de Oskar Schell (Thomas Horn), um garoto que tem um ótimo relacionamento com o pai, Thomas (Tom Hanks), este que sempre estimulou o lado aventureiro e lúdico do filho. Infelizmente, ele perde esta figura paterna no atentado terrorista de setembro de 2001 e tal fato foi um baque em sua vida e também na da sua mãe, Linda (Sandra Bullock), de quem ele procura esconder a última mensagem que o pai deixou na secretária eletrônica a qual até ele mesmo recusa-se a ouvir.  Algum tempo depois, Oskar encontra em meio aos pertences do pai uma chave dentro de um envelope. O menino então desconfia que este é mais um dos costumeiros enigmas que seu pai lhe propunha e parte para uma expedição pela cidade de Nova York em busca de pessoas cujo sobrenome seja Black, a única palavra escrita no tal envelope que encontrou. Assim, ele passa a entrar em contato com os mais diversos tipos de pessoas e situações, certamente amizades e aprendizados que mais cedo ou mais tarde farão diferença na vida do garoto.

Baseado no livro “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, de Jonathan Safran Foer, o roteiro foi escrito por Eric Roth, autor dos elogiados Forrest Gump – O Contador de Histórias e O Curioso Caso de Benjamin Button. Ao contrário da maioria dos filmes sobre o 11 de setembro, aqui o enfoque é causar emoção pela jornada do garoto na tentativa de receber uma última mensagem deixada pelo pai e não necessariamente nas dores causadas pelo triste episódio, mas ainda assim o desespero das pessoas sem entender o que estava acontecendo naquela ensolarada manhã se faz presente. Logo o céu escurece devido ao excesso de fumaça dos incêndios e todos os sobreviventes precisam aprender a lidar com as lembranças da tragédia. Tal dia é apresentado ao espectador de forma fragmentada, alternando momentos em que Oskar e Thomas estão juntos e mais tarde outros da jornada do garoto pela cidade grande. A premissa do longa é ótima, principalmente por destronar os atentados do posto de maiores tragédias. Esquecemos que mais de vinte mil pessoas foram vitimadas direta ou indiretamente e focamos a atenção nos problemas pessoais dos personagens que poderiam ser tão grandes quanto um prédio em chamas, basta colocar-se em seus lugares. Porém, o resultado final divide opiniões, tornando-se uma obra do tipo ame-a ou odeie-a.
Daldry não esconde que seu objetivo é levar o espectador às lágrimas e não poupa esforços para tanto, deixando a emoção latente a todo instante. Além disso, ele se cercou com o máximo possível de recursos para que seu trabalho fosse perfeito do início ao fim. Atores bem dirigidos, bons diálogos, fotografia esplêndida, edição esperta para dar ritmo à narrativa, tudo do jeitinho que ele fez em seus elogiados trabalhos anteriores, Billy Elliot, As Horas e O Leitor.  Porém, desta vez ele pecou por alguns excessos, como as excessivas e redundantes narrativas em off que nada mais eram que traduções verbais das cenas, o que para alguns pode ser interpretado como uma falta de respeito à inteligência do público. Por outro lado, essas idéias esmiuçadas podem ter sido utilizadas para reforçar o aspecto psicológico de Oskar, outro ponto que desperta discussões. Um personagem realista ou chato e estereotipado? Um ator-mirim talentoso ou mal escalado? O garoto tem a Síndrome de Asperger, uma espécie de autismo em que o indivíduo ao mesmo tempo resiste à interação social, mas também demonstra disposição para falar ininterruptamente, ora parece problemático, ora extremamente inteligente. Essa ambigüidade do personagem não é algo fácil de se lidar e engloba muitos aspectos a serem incorporados a uma só pessoa, tornando-se um desafio para qualquer ator. O texto e a direção nesse sentido ajudaram a construir as críticas negativas que o novato Thomas Horn recebeu resumindo seu protagonista a uma criança nada carismática.

Se o protagonista não é dos melhores, ao menos os coadjuvantes são bem competentes e ajudam a disfarçar a falta de experiência do garoto. Tom Hanks e Sandra Bullock, embora longe de seus melhore momentos, defendem bem seus personagens, mas os elogios ficam mesmo para Max Von Sydow e Viola Davis. O veterano ator sem dizer uma só palavra rouba a cena vivendo o misterioso inquilino da avó de Oskar, papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante. Já atriz, em alta em Hollywood, é a primeira e também a penúltima Black que o menino vai encontrar, tornando-se peça fundamental na conclusão de sua peregrinação. No final das contas, Tão Forte e Tão Perto cumpre seu papel de emocionar e ocupar uma vaga na categoria de filmes bonitos. Pelas indicações ao Oscar, ainda que apenas duas, poderá ter certa visibilidade pelos anos seguintes, mas de qualquer forma é um projeto que se esperava mais pelo potencial do enredo. Absolutamente todos em qualquer parte do mundo têm alguma história a contar a respeito da data, até mesmo de nascimento, afinal de contas o tempo aparentemente apenas parou naquele dia, mas a Terra continuou a girar e o relógio a andar. Uma pena que ao subirem os créditos temos a sensação de que vimos mais do mesmo. Apenas um pequeno fragmento de um dia histórico tão importante e avassalador quanto a Segunda Guerra Mundial que durou anos. Imagine quantas histórias existem sobre um único e marcante dia esperando para serem contadas.

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