segunda-feira, 25 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - A VIAGEM DE CHIHIRO

A última semana de férias está começando e é preciso aproveitar ao máximo os últimos momentos de descanso. Nada melhor que uma boa animação para tanto. A sugestão de hoje é A Viagem de Chihiro (2001), um leve e engenhoso desenho de origem japonesa que tornou famoso mundialmente o seu criador, Hayao Miyazaki. A obra ganhou o Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim e a partir daí iniciou uma jornada rumo ao sucesso que culminou no Oscar de Melhor Animação. Curiosamente, a obra foi distribuída de forma muito modesta no mercado americano pela Disney, que comprou a produção após o primeiro grande prêmio por ela conquistado, e, pouco a pouco, a fita nipônica foi conquistando seu espaço e roubando o público das produções da casa do Mickey naquele período, diga-se de passagem, bem fraquinhas. No Brasil, a obra foi muito aguardada e uma grande legião de fãs do desenhista foi formada. Já em sua terra natal, conquistou a maior bilheteria da história até então.

A narrativa acompanha os passos de Chihiro, uma garotinha muito esperta que está mudando de casa com os seus pais. Nos arredores da nova cidade, ela e a família encontram um túnel que dá em um local misterioso e aparentemente deserto. Mesmo sem uma única alma por lá, há um imenso e delicioso banquete servido em uma das casas. Akio e Yuko, os parentes da menina, resolvem se servir, enquanto ela, muito curiosa, vai explorar o lugar e acaba sendo surpreendida por Haku, um jovem que pede a ela para sair dali antes do anoitecer. Ela corre para encontrar seus pais, mas já é tarde, eles foram transformados em porcos. Sem saber para onde ir e nem entender o que está acontecendo, a garota se vê em meio a um mundo repleto de criaturas fantásticas, mas Haku a ensina como chegar até a bruxa Yubaba, a dona de uma casa de banhos para deuses e a mulher mais poderosa pelas redondezas. No local, ela conhece Kamaji e Lin que a ajudarão a enfrentar as dificuldades e a levam até a feiticeira que revela que todos os humanos que entram em seus domínios são transformados em animais e depois devorados. Aqueles que são salvos deste triste destino precisam provar seu valor trabalhando ou também serão mortos. Sem alternativa, a menina faz um trato para trabalhar na casa de banhos, renunciando à sua liberdade e até seu nome, passando a ser chamada de Sen, mas sem nunca perder a esperança de voltar para sua terra com a família.


Algumas pessoas podem achar que a história é meio no estilo do clássico Disney Alice no País das Maravilhas. Bem, realmente em ambas as obras a protagonista tem seus ideais e corre atrás deles, a cada novo passo uma surpresa surge, há uma mulher má que comanda o local e o clima fantástico está presente do início ao fim. Porém, a produção nipônica é muito mais complexa e com elementos visuais e técnicos que, apesar de também serem tradicionais, vão muito mais além. As cores, cenários, trilha sonora, sombras, luzes, o bucolismo do ambiente ou até mesmo uma noite chuvosa, tudo aqui parece essencial na narrativa e está presente por algum motivo óbvio ou por algum significado subliminar que pode ou não fazer sentido em qualquer lugar no mundo, mas o encantamento é garantido. Impossível não se emocionar ou sentir certa excitação diante de tanta beleza, simplicidade e criatividade. Só mesmo os mais fanáticos por modernidades, como os ferrenhos amantes do 3D ou dos efeitos sonoros de última geração, que devem ficar procurando defeitos onde não tem, mas é óbvio que este não é um produto feito para esse tipo de platéia, digamos mais consumista, mas sim para aquelas sensíveis e que buscam valorizar as pequenas coisas da vida.

Myiazaki buscou inspiração em antigas lendas de seu país para criar um imaginativo e de certa forma bucólico universo. Para quem não tem a mínima idéia de quem são as figuras do folclore nipônico, o cenário da casa de banhos parece receber a visita de monstrinhos que poderiam muito bem povoar a mente infantil. Realmente as explicações de quem são essas criaturas não são dadas, mas isso é um detalhe mínimo. Nessa altura o espectador já está tão embriagado de uma deliciosa e tranquila atmosfera que pouco importa tal informação que em nada atrapalha a compreensão do enredo absolutamente inovador que, além dos aspectos mitológicos, também apresenta na composição de seus personagens características que permitem estudos ligados à psicologia e hábitos culturais. A protagonista, por exemplo, é uma garota que acaba descobrindo a maturidade com essa experiência fantástica e que luta pelos seus objetivos, coisa que as meninas orientais não costumam fazer, resquícios de uma educação rígida e ainda enraizada no passado. A super proteção é manifestada quando Yubaba tenta manter seu bebezão escondido, como se o mundo fora de casa ele nunca fosse conhecer. Por trás da valentia amedrontadora da feiticeira, esconde-se uma frágil mulher que tem medo que algo aconteça com aquele que mais preza.


Produzido em 2001, o filme foi lançado em festivais e em alguns países no ano seguinte, mas só chegou ao Brasil em julho de 2003. Se nesse período a crítica e o público adulto já estavam se inclinando para reverenciar o gênero de animação, esta obra de Myiazaki era o empurrãozinho que faltava. Apesar do visual convencional e aparente infantilidade, o animador conseguiu realizar uma obra de arte para atingir todas as platéias e chegando a um resultado até mesmo superior as festejadas animações feitas por computação de empresas como Pixar e Dreamworks. Impressionante, delicado e inteligente, infelizmente, não é um desenho que agrada a todos, pois é uma produção que acaba agradando mais os espectadores ligados ao chamado cinema de arte. Essa exclusão é imposta por parte dos espectadores mesmo, ninguém interfere. O filme tem ritmo um pouco mais lento, duração maior que as animações normais, um enredo complexo e não existem personagens com humor exagerado e que ficam fazendo piadinhas e causando confusão o tempo todo. Assim, A Viagem de Chihiro tem certas barreiras que encontra para chegar a um grande público, mas certamente quem se presentear permitindo-se a embarcar nessa viagem mágica e surreal não irá se arrepender e o desejo de repetir a dose para apreciar cada detalhe deve ser inevitável.

Um comentário:

renatocinema disse...

Adoro essa "viagem".

Possui sentimento, energia, sabedoria e alucinação.

Sacrilégio comparar com a Disney. A disney é quase sempre redondinha demais.

A Viagem de Chihiro é uma viagem cinematográfica. Amo essa viagem.

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