terça-feira, 26 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM

Mais uma semana chegando ao fim, mas antes da diversão do fim de semana ainda dá tempo para assistir um bom drama reflexivo. A sugestão desta quinta é uma história um tanto pesada e com um tema polêmico, mesmo já sendo uma produçãocom um bom tempo de existência, mas que desperta importantes discussões. Os Últimos Passos de Um Homem (1995) é um trabalho excepcional de direção de Tim Robbins, também um conceituado ator e conhecido por suas manifestações contrárias a política americana, assim como sua esposa e protagonista nesta obra, Susan Sarandon, que ganhou o Oscar com sua interpretação emocionante de uma freira dividida em uma questão onde não há lado completamente certo ou errado. Ela fica em uma encruzilhada e graças a sua sensibilidade consegue fazer com que o espectador viva junto com ela intensamente este período de indefinição e agonia.

A irmã Helen Prejean (Susan Sarandon) trabalha em uma comunidade pobre da cidade de Nova Orleans, nos EUA, e acaba se envolvendo em um caso que até hoje ela não tinha tido contato algum com algo parecido. O prisioneiro Matthew Poncelet (Sean Penn) está lutando como pode para provar que é inocente, que não tem nada a ver com o assassinato de um casal de jovens namorados em um matagal. A seu pedido, a freira vai até a prisão conhecê-lo e ouve sua história. Um pouco relutante no início, ela aceita tentar ajudá-lo a se livrar da pena a qual foi condenado: execução. Com a convivência, a mulher acaba sendo o único canal de comunicação deste réu com a sociedade e fica ao seu lado para confortá-lo, apesar de ele apresentar um comportamento ambíguo e ela mesma não estar convicta de que a prisão foi realizada injustamente.


Aos poucos, Helen começa a ficar em dúvida se está agindo corretamente seguindo sua convicção religiosa de que todos merecem o perdão, ainda mais para aqueles que a morte é eminente. Quando resolve dar apoio as famílias das vítimas, mas sem desmanchar seu compromisso com Poncelet, a freira toma contato com histórias dolorosas e recebe duras críticas destas pessoas que foram feridas de tal forma que podem nunca mais se recuperar. Os depoimentos dos pais sobre como estão suas vidas sem seus filhos são de partir o coração. Mesmo emocionada e sabendo que eles têm todo o direito e razões para sentirem ódio do condenado, a irmã tenta fazê-los mudar de idéia sem sucesso. Balançada com tudo isso, ela tenta a todo custo arrancar a verdade do presidiário sobre o que aconteceu, mas sem deixar de lhe prestar assistência já que a execução não foi revogada. Por pior que tenha sido em toda a sua vida, para ela, este homem deve ser tratado com humanidade até seu último minuto, seguindo as leis de Deus e dos homens.

Robbins se inspirou em fatos reais ocorridos no início dos anos 80 e usou pelo menos os pontos principais dessa triste história para escrever o roteiro. A partir do que viveu, a irmã da vida real, também chamada Helen, escreveu um livro e ele ficou entre os mais vendidos no território americano em 1994. Ela própria chegou a se encontrar com Susan e aprovou a escolha dela para vivê-la no cinema, pois, segundo ela mesma disse na época, a atriz tinha integridade e princípios com os quais concordava. Aliás, foi a própria intérprete que convenceu o marido a adaptar o livro, com o qual ela se identificou instantaneamente. O casal de artistas gosta de se envolver em causas nobres e chegou a pagar um preço alto por falar o que pensa e alfinetar posturas políticas. Certa vez causaram rebuliço no Oscar com suas declarações e foram proibidos por um tempo de participar da premiação. O jejum acabou justamente com este filme. Eles não só foram assistir a festa como o longa concorreu em diversas categorias, mesmo com um conteúdo pesado e que gera discussões calorosas. Vale ressaltar o cuidado do cineasta e ator em ser fiel a história que o inspirou, não manipulando as situações com o intuito de direcionar o espectador a ser favor a um lado e contrário ao outro.


Mandar uma pessoa para a morte. Se foi condenada, é dever do Estado aplicar a pena e fazer justiça. Caso o indivíduo seja na realidade inocente, uma injustiça impossível de ser reparada terá sido feita. Usando a máxima do olho por olho e dente por dente, nada mais natural que um assassino perder sua vida, tal qual fez com suas vítimas. É uma vingança que não irá remediar absolutamente nada para as famílias vitimadas, mas pode gerar um pequeno conforto saber que o criminoso não cruzará seus caminhos no futuro. Para os familiares do executado, a dor é repassada ainda com o agravante da vergonha de serem apontados nas ruas por não darem educação e atenção ao sujeito. Para a sociedade como um todo, o exemplo pode servir para diminuir a criminalidade, pois a justiça não teria pena daqueles que erraram, apesar de que as estatísticas desde a metade dos anos 90, quando o filme foi feito, mostram que a violência só aumenta e cada vez mais é aplicada com requintes de crueldade. A pena de morte é um tema que aponta diversos caminhos para discussão, tanto do lado positivo quanto do negativo. Os Últimos Passos de Um Homem traz a tona os dois lados da questão sem poupar o espectador de se sentir angustiado pelo sofrimento de todos os envolvidos, até mesmo de Poncelet. Aliás, Sean Penn mantém até quase as últimas cenas a ambiguidade de seu personagem, mas por fim o roteiro opta por um dos caminhos existentes para conclusão e o acusado define sua posição. Não convêm dizer o que acontece nos minutos finais, você pode gostar ou não da resolução, mas certamente ficará com um nó na garganta e a reflexão deve ser inevitável. Um programa culto e que agregue algo as nossas vidas é sempre bom, até mesmo nas férias.

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