domingo, 24 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - A VIDA É BELA

Domingão é dia de família reunida em casa e uma ótima ocasião para assistir um dos mais belos e emocionantes filmes de todos os tempos. A Vida é Bela (1997) desde seu lançamento já era considerado um clássico do cinema italiano e, tal qual um bom vinho, quanto mais o tempo passa, melhor ele fica. É impossível não se envolver, se emocionar e até derrubar algumas lágrimas com esta belíssima produção dirigida e estrelada, além de co-produzida e co-escrita, por Roberto Benigni, porém muitas pessoas até hoje não assistiram, seja por puro preconceito por ser um produto oriundo da Europa, estigmatizado como obras muito dramáticas e de ritmo lento, ou, o mais comum, por ele ter tirado do Brasil a chances de ganhar um Oscar. Na ocasião, Central do Brasil e esta fábula sobre o Holocausto estavam páreo a páreo disputando nas principais premiações. Os dois filmes são excelentes e merecem todas as atenções e elogios, mas é preciso deixar o patriotismo um pouco de lado para poder aproveitar ao máximo os dois trabalhos.

Não é difícil entender o porquê deste drama ser um dos filmes estrangeiros mais comentados, premiados e assistidos de todos os tempos. A trama é de fácil compreensão e identificação em qualquer parte do mundo e a crítica se rendeu a esta obra completamente parabenizando a ousadia de Benigni em retratar os horrores dos campos de concentração nazistas através de um olhar mais leve e brando, com passagens divertidas e extremamente tocantes. O tom assumido de fábula é enriquecido com a bela trilha sonora, cenografia e fotografia. Aliás, somos poupados de assistir cenas de violência impactantes, assim fomos presenteados com um trabalho que transborda simpatia e bom humor em quase toda sua duração. Quem não presta atenção no enredo facilmente pode nem perceber que o pano de fundo da história é um dos momentos mais tristes da história da humanidade. Todas as situações lúdicas criadas para escamotear a verdade são inverossímeis, mas de alguma forma elas se tornam convincentes porque o cineasta se baseou nas histórias que seu próprio pai contava. Apesar de não ser judeu, ele foi preso pelos alemães e enviado a um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e contava suas experiências de uma maneira bem humorada. Alguns sobreviventes do Holocausto ainda foram colaboradores da produção corrigindo detalhes e até dando sugestões para que o roteiro e o visual fossem os mais fiéis possíveis à realidade. O artista também usou influências de obras de Charles Chaplin e até de escritos do socialista russo Leon Trotsky. O otimismo destes dois gênios está impregnado do começo ao fim neste trabalho de Benigni.


O filme divide-se em duas partes. Na primeira, quase um conto de fadas até no visual, Guido (Roberto Benigni) é um homem brincalhão e romântico que chega à cidade de Toscana em 1938. Logo ele se apaixona por Dora (Nicolleta Braschi), mas ela está noiva de um oficial fascista. Ignorando os perigos que poderia enfrentar, o alegre italiano não perde a chance de cortejar sua amada e até no dia do noivado dela ele está presente. Sempre criando histórias e brincadeiras para entreter as pessoas, ele acaba convencendo a moça a fugir com ele com direito à cavalo e vestido de gala, tal qual uma história de princesa. Cinco anos se passam e começa a segunda parte do longa. O casal já tem um filho, o pequeno e esperto Giosuè (Giorgio Cantarini). Tudo ia bem na vida deles até que as leis de segregação anti-semitas entram em vigor definitivamente e assim pai e filho são mandados para o campo de concentração e logo Dora também se oferece para ser enviada também. Na época, os italianos tentavam negociar tratados de paz e as tropas alemãs, em represália, ocuparam parte da Itália e passaram a capturar os judeus.

Para evitar que o menino se traumatizasse com a dura e triste realidade no local, Guido usa sua criatividade para mascarar a situação e inventa que eles estão participando de uma gincana para ganharem um tanque de guerra. Contando com a compreensão dos outros prisioneiros, todos acabam entrando nessa história lúdica para preservar Giosuè. Até traduzir de forma absurda as falas de um soldado alemão este pai otimista se mete levando a tal brincadeira até onde pode. Dessa forma, o garotinho não estranha ter que ficar escondido, não falar absolutamente uma palavra perto dos oficiais ou passar fome. Tudo para ganhar os pontinhos para conseguir o prêmio final.


Só os sacrifícios para poupar o filho já seriam motivos suficientes para fisgar o espectador, mas o clima de fantasia e o carisma e cumplicidade existentes nessa relação são de amolecer até os mais insensíveis corações. Quem não sentir uma pontinha de emoção deve procurar auxílio médico urgentemente. Com A Vida é Bela, Benigni consegue a proeza de fazer o espectador dar boas risadas e refletir mesmo diante de um tema tão triste. Claro que não deixamos de ficar com um nó na garganta e os olhos marejados de lágrimas ao ver os esforços de um pai em manter o alto astral, apesar de saber que a situação é crítica e que a qualquer momento pode ser forçado a deixar seu filho. Da alegre vida em família para a ruptura do clã por causa de uma guerra que muitos na época nem sabiam o porquê de existir. Ao final, é impossível não pensar em quantos inocentes perderam suas vidas neste conflito acéfalo e quantas pessoas sobreviveram, mas guardaram para sempre em seus corpos e mentes as feridas que não cicatrizam nunca. Como consolo, pelo menos a ingenuidade e o entusiasmo de Giosuè nos faz lembrar que a vida é bela e feita de pequenos momentos de alegria e ternura.

Um comentário:

renatocinema disse...

Gosto do filme, que vi no cinema. Mas, não poderia nunca ter vencido o Oscar. Exagero puro.

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