quarta-feira, 27 de julho de 2011

ESQUECERAM DE... O VESTIDO

O cinema nacional vive em constante ascensão desde o ano 2000, com trabalhos que levaram multidões aos cinemas e depois fizeram sucesso no mercado de locação, mas ainda assim existem excelentes trabalhos que passaram despercebidos e, mesmo sendo relativamente recentes, hoje são raridades no mercado. Esse é o caso de O Vestido (2003), um belo filme contemporâneo baseado no poema de Carlos Drummond de Andrade intitulado "Caso do vestido". O diretor Paulo Tiago, de Policarpo Quaresma - Herói do Brasil, e o roteirista Haroldo Marinho tiveram bastante trabalho para transformar a linguagem poética de versos em um roteiro verossímil, mas o resultado é muito satisfatório.

O enredo começa com duas meninas, Ritinha (Luiza Gonçalves) e Clara (Livia Dabarian), que descobrem no porão de casa um belo vestido de festa. Se para elas a tal roupa era motivo de entusiasmo, para a mãe delas, Ângela (Ana Beatriz Nogueira), despertava tristes lembranças. Há alguns anos, a vida feliz desta mulher com o marido Ulisses (Leonardo Vieira) desmoronou tudo por causa da sedutora Bárbara (Gabriela Duarte), uma jovem da cidade grande que vai ao interior conhecer a cidade do companheiro Fausto (Daniel Dantas). Aos poucos, a moça vai se aproximando deste casal simplório e seduzindo o pai de família que aparentemente estava contente, mas no fundo não aguentava mais a mesmice do casamento e enfrentava problemas financeiros.

Ângela acaba sendo envolvida pela simpatia de Bárbara e acredita que fez uma grande amiga, tanto que até lhe deu de presente um vestido que ganhou do marido. Ao vê-la usando a roupa, Ulisses não consegue mais reprimir seus desejos e não demora a ceder, porém a moça acirra seu joguinho de sedução. Ela só aceita passar uma noite com ele se conseguir que o pedido venha diretamente da esposa que então será obrigada a confirmar que a idéia de casamento perfeito não existe e que ela vivia uma ilusão. Até aí o filme se desenrola de uma maneira na qual os espectadores devem se envolver mais com a situação da mulher traída, mas depois entra em cena um segundo ato melhor ainda e com algumas surpresas enfocando a relação entre a sedutora e o homem que se entregou a luxúria. É certo que em ambas as partes quem segura as pontas é Gabriela Duarte. Muito criticada outrora por causa de seus papéis de mocinhas na TV e pelas inevitáveis comparações com sua mãe, a atriz Regina Duarte, ela surpreende em um papel ambíguo. No início ela parece um tanto sem sal, mas logo se percebe que o papel de boa moça é uma farsa e a intérprete não se esquivou de ficar nua em cerca de três cenas quentes ao lado do ator Leonardo Vieira, também com um ótimo desempenho. Ele consegue administrar muito bem as nuances do homem íntegro e responsável até se transformar no descontrolado que só pensa em saciar suas vontades carnais.


A segunda parte é tão boa quanto a primeira. Novamente Gabriela se supera quebrando sua imagem certinha. As curvas de seu corpo e a fala mansa do primeiro ato continuam, mas agora turbinadas pelo alcoolismo e o sentimento de impotência ao ver que não conseguiu fazer o amado esquecer completamente sua antiga vida. A máxima do feitiço que vira contra o feiticeiro cai aqui como uma luva e o vestido continua até o final pontuando as cenas como se fosse um objeto mágico que desperta algo de ruim na personagem. A interpretação inspirada rendeu a ela o prêmio de Melhor Atriz do Festival de Cinema Íbero-americano de Huelva, consagração que gerou comentários ácidos de alguns críticos. Puro preconceito e falta de visão.

O amor brutal de Bárbara por Ulisses parece ter resquícios de obras de Nelson Rodrigues e traz algumas sutis reviravoltas que seguram bem a atenção do espectador. Foi um grande acerto transportar o conto para os tempos de hoje, mas mantendo uma aura de filme antigo, o que deu um charme ingênuo e especial ao trabalho. Mesmo sem surpreender no final, O Vestido é uma grande obra do nosso cinema que, apesar de ter sido lançada em 2004, em plena era do DVD e em um ano em que as bilheterias de produções brasileiras estouraram e chegaram a ficar entre as dez mais do período, passou rasteiramente pelas salas de cinema e hoje encontrá-lo a venda ou em locadoras é um achado. Se encontrar, compre ou alugue na hora, não deixe para depois. Nunca se sabe se haverá uma próxima vez para este esquecido. Uma pena.

Um comentário:

renatocinema disse...

Consegui assistir. Mas, diferente de você não apreciei muito não.

Talvez por ter assistido ao filme logo após ler o livro.

Mas, de forma geral não curti o filme não.
Achei apenas razoável. Daria nota 6.

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