quarta-feira, 27 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - UM LUGAR QUALQUER

Considerar um filme ótimo, regular ou ruim, não importa, qualquer uma dessas opções são praticamente impossíveis de serem unânimes. Cada um avalia de uma maneira diferenciada e isso varia muito devido a fatores ligados a educação, costumes, repertório cultural, entre tantos outros. Por isso, na maioria das vezes, as obras super elogiadas por críticos não correspondem as expectativas do público. Os críticos, profissionais ou não, geralmente se baseiam no histórico dos profissionais envolvidos e até recorrem as suas memórias de projetos parecidos com o objeto em questão para tecer seus comentários. Os espectadores já têm uma percepção mais simplória e direta, mas nem por isso deixam de fazer comparações com alguma produção que já tenham visto. É dessas maneiras distintas que tem sido avaliado Um Lugar Qualquer (2010), de Sofia Coppola. A dica de hoje não é uma obra arrebatadora, mas é admirável quando não apreciada de forma superficial.

Filha do famoso Francis Ford Coppola, fracassada na carreira de atriz e inesperadamente elogiada logo em seu primeiro trabalho atrás das câmeras, As Virgens Suicidas, Sofia tem construído uma carreira de cineasta bem qualificada e com bons projetos. Seu nome se transformou praticamente em uma grife tal qual Woody Allen, devido ao fato de que a cada novo trabalho uma grande expectativa seja gerada. Ela também pode vir a ser comparada ao veterano diretor por se especializar em trabalhar com determinados temas e certas abordagens, como se verifica aqui. É impossível não se lembrar do premiado Encontros e Desencontros ao se deparar com a história de um homem um tanto perdido na vida e que só consegue criar um foco para ela ao estreitar laços de amizade ou amorosos com alguém. Até o choque entre culturas de países diferentes bate cartão, assim como a tática de mais uma vez adotar como protagonista um ator que convive com o vazio fora das telas em sua vida pessoal em contraste com a sua vida agitada profissional.


O filme nos apresenta à Johnny Marco (Stephen Dorff), um bem sucedido ator de Hollywood que não leva uma vida pessoal muito exemplar. Ele esbanja dinheiro com bebidas e mulheres, mas não é feliz, simplesmente vive dos prazeres momentâneos, passa boa parte do tempo sozinho e parece estar sempre com a cabeça em outro mundo. Quando ele se recupera de um acidente ocorrido durante as filmagens de um novo longa e está se preparando para uma viagem à Itália para receber um prêmio, sua rotina muda completamente com a chegada de sua filha de onze anos, Cleo (Elle Fanning). Ela vem para passar alguns dias com o pai, mas sem data para ir embora. Inicialmente, o ator não sabe como lidar direito com a menina e percebe que mal conhece a garota, mas seu estilo liberal de viver acaba o aproximando dela. Porém, esse contato mais próximo faz com que ele repense o caminho que está trilhando, alterando bastante seu comportamento e pensamentos. Curioso que a filha parece muito mais segura de cada novo passo que dará do que a sua própria figura paterna, mas aos poucos ambos passam a aprender um com o outro e atingir o equilíbrio entre a responsabilidade e o descompromisso.

É nítido que Sofia usa muito de suas referências da infância e adolescência em suas obras. Por ter crescido frenquentando sets de cinema e ter tido uma experiência mal fadada no campo das interpretações, é perfeitamente aceitável o viés melancólico que ela adota para expor a figura do ator. Até mesmo quando se aventurou em retratar adolescentes, tanto em seu primeiro trabalho quanto voltando ao passado em Maria Antonieta, ela adotou um tom mais triste para imprimir sua visão sobre uma fase complicada pela qual todos passam. Portanto, a cineasta pisa em terreno seguro sempre reciclando a forma com que seus personagens principais lidam com o vazio que sentem em suas vidas. Assim é fácil entender o porquê dos críticos a elogiarem e suas produções serem muito premiadas, já da parte do público não se pode dizer o mesmo. Para muitos seus trabalhos são um tanto comuns e sem brilho e só geram curiosidade por causa do burburinho que os cercam.


Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, Um Lugar Qualquer é uma produção corajosa da diretora, assim como todas as anteriores. É louvável que ela não se aproveite do sobrenome famoso para fazer fama e fortuna através de trabalhos medíocres ou assumidamente caça-níqueis. Ela realiza um tipo de trabalho que é avesso aos padrões hollywoodianos em que tudo é apresentado de forma rápida e mastigada ao espectador. Ela prefere privilegiar olhares e gestos e fazer o seu público pensar um pouco sobre as situações que expõe. Inicialmente, o ritmo lento, as cenas que mostram o cotidiano "pouco católico" do protagonista e os diálogos escassos devem causar espanto e até desânimo, mas insista e siga em frente. Só assim para compreender a proposta do longa. Tudo bem que o final decepciona, mas, desprezando o prólogo e a conclusão, o recheio já vale o tempo dispensado. Nele percebemos o quanto os pequenos momentos da vida são importantes, por mais singelos que sejam. A cena de pai e filha curtindo um dia agradável de sol à beira da piscina é a síntese da mensagem positiva do roteiro e já virou emblemática para a produção. Vale a pena aproveitar os últimos dias de férias para experimentar ou repetir a dose do cinema de Sofia Coppola.

Um comentário:

Clenio disse...

Eu admiro "As virgens suicidas" e gosto bastante de "Encontros e desencontros", mas esse filme me cansou muito. Nem tanto pelo ritmo (que é cansativo mas apropriado à proposta) mas pelas auto-referências que já estão tornando Sofia Coppola uma cineasta com mais vícios do que coisas para dizer...
Na minha opinião é um dos filmes mais chatos do ano...

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

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