terça-feira, 12 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - A ÚLTIMA CEIA

Terça-feira, ainda estamos no início da semana, e há poucas opções para se fazer neste dia. Aproveitando que as noites nesta época do ano são frias, a pedida é ficar em casa e assistir a um bom drama tão frio e cruel quanto a realidade que nos aguarda fora do aconchego do nosso lar. A dica de hoje é A Última Ceia (2001), uma produção independente, com um orçamento baixo e que surpreende pelo seu excelente roteiro e a quantidade de prêmios a que concorreu e recebeu. Pouco a pouco esta pequena obra foi conquistando espaço e acabou entrando para a história do cinema ao dar o Oscar de Melhor Atriz para uma negra, a atriz Halle Berry, que após muitos papéis pequenos em filmes de pouca repercussão ou até obscuros finalmente conseguiu ter seu trabalho reconhecido. Ela atingiu uma interpretação forte e corajosa para os padrões hollywoodianos pelas mãos do versátil cineasta Marc Forster, de O Caçador de Pipas, que construiu uma obra inquietante.

O cineasta alemão se revelou e se consagrou com este título que trata na realidade sobre as relações humanas, entrelaçando temas como racismo, pobreza, morte e o sexo. Tudo isso através de uma história de amor improvável, mas que acontece para transformar vidas em um momento perturbador. Por sua origem européia e também pelas liberdades artísticas que uma produção fora dos grandes estúdios americanos permite, Forster chega muito próximo do realismo explorando a relação conflituosa entre três membros de uma família racista e a inesperada paixão que nasce entre um desses homens preconceituosos e uma viúva afro-americana. O melhor de tudo, para quem gosta de verdade de cinema, é que o diretor evitou as lições de moral que muitas vezes manipulam a opinião do espectador. Construiu um drama sólido, forte e frio, por isso não é de se estranhar o equilíbrio existente entre a quantidade de pessoas que o elogiam e as que o massacram. É preciso estar preparado para absorver um conteúdo pouco digestivo para as massas. Em certas passagens, nem mesmo há diálogos, apenas um perturador silêncio que revela os sentimentos dos personagens.


O filme nos apresenta a duas pessoas distintas cujos caminhos vão se cruzar em tristes circunstâncias. Leticia (Halle Berry) está passando por um momento difícil. Prestes a ser despejada de sua casa e tendo que lidar com a condenação à morte de Lawrence Musgrove (Sean "Puff Daddy" Combs), seu marido, além de criar sozinha seu filho, Tyrell (Coronji Calhoun), um garoto obeso e triste, ela é uma mulher amargurada e toda a raiva e insatisfação que tem com a vida ela desconta no menino que corre o risco de ter um futuro tão ruim quanto o dos pais. Hank Grotowsky (Billy Bob Thorton) é um policial que trabalha no corredor da morte e será responsável pela execução de Musgrove. Viúvo, o guarda também tem seus problemas. Ele é atormentado pela relação difícil que tem com o pai idoso, Buck (Peter Boyle), e com o filho Sonny (Heath Ledger). Representantes de uma família de carcereiros muito autoritários e racistas, eles precisam lidar diariamente com pessoas que eles desprezam, já que a maior parte dos prisioneiros são negros. Porém, a terceira geração quebra a corrente e não despreza seus semelhantes por causa de sua cor, algo que gera muitos conflitos entre o clã.

A execução de Musgrove aliada a uma tragédia pessoal provoca um processo de mudanças radicais na vida de Grotowsky, incluindo a aproximação de Leticia, também envolvida em um triste acontecimento, por quem se apaixona, algo que ele nunca imaginaria até então por causa do preconceito racial impregnado em sua mente. O roteiro surpreende ao abandonar o lugar comum de promover a discussão sobre a pena de morte ou se render aos clichês envolvendo o racismo para se tornar uma obra intimista que mostra a redenção de um homem que construiu sua vida em cima de conceitos errados adquiridos do pai e que estava passando adiante ao filho e a história de uma mulher tentando se reerguer após duros baques. O diretor acertou em concentrar sua história na figura do policial que transita da imagem do homem durão e amargo para um ressentido e solidário quarentão e ao criar uma personagem feminina forte e cheia de nuances. Bom para os atores que tiveram a chance de mostrar todo o seu potencial de intérpretes e entregaram performances elogiadíssimas e viscerais. 


O roteiro foi apresentado para diversos estúdios, mas todos fizeram exigências para atenuar o conteúdo visando atrair um público mais amplo, mas a equipe de roteiristas não cedeu as pressões e acabaram fechando com uma produtora menor que concedeu total liberdade. Tudo em nome da arte e não dos lucros deveria ser o lema desta produção. Assim, Forster realizou um filme independente americano com estilo de drama europeu, ou seja, sem maquiar os fatos, não poupando o espectador e deixando para ele interpretar os sentimentos e pensamentos dos personagens, não entregando tudo de bandeja. O título original, "o baile do monstro", é uma ironia quanto a última refeição do executado na véspera da execução, uma tradição inglesa que praticamente oferecia uma festa ao condenado para que ele aproveitasse os seus últimos momentos de vida. Também pode ser uma alusão ao prazer que o carcereiro sentia ao fazer seu trabalho, cuja última execução mudaria sua forma de agir e pensar. Seja como for, pelo menos o título brasileiro manteve a essência. A Última Ceia é um longa forte e até deprimente de um modo geral, mas certamente deixa mensagens para o espectador refletir por muito tempo. Impossível assistir passivamente este choque de realidade.

Um comentário:

renatocinema disse...

Um filme que me tocou muuuuuito.

A cena de sexo é forte, densa e bela ao mesmo tempo.

As relações chocam, como na vida real.

Um filme imperdível e obrigatório. Obrigatório mesmo.

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