sábado, 30 de julho de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - ALÉM DA VIDA

Todo mundo pelo menos uma vez já se perguntou como seria a vida depois da morte e esse é um tema bem intrigante que acaba chamando a atenção de muita gente, independente da religião, pois diz respeito a uma dúvida universal. Por mais estudos e relatos que possam ser encontrados, ninguém sabe ao certo como seria o paraíso e o inferno ou o que nos espera depois que partimos, mas o cinema está aí para criar e perpetuar imagens e já dá para ter uma idéia de como funciona o além. Ficcionais ou não, elas nos confortam ou nos amedrontam para mudarmos nossas condutas e pensamentos. O espiritismo tem sido uma corrente forte no cinema nacional, mas parece que a onda atravessou os oceanos e tem se espalhado por outros países. Claro que os mistérios que envolvem o tema já esteve presente em inúmeras produções de terror e suspense e em alguns bem intencionados dramas e até em comédias, mas agora parece que o assunto vem sendo tratado com mais respeitado e levado realmente a sério. Para quem gosta do assunto, neste último sábado de férias a dica é assistir ao melancólico Além da Vida (2010), um interessante trabalho que leva a assinatura do diretor Clint Eastwood.

O filme nos apresenta a três personagens distintos que, apesar de morarem longe e não serem parentes ou amigos, são próximos devido as circunstâncias que estão passando neste período da vida. Literalmente é a morte que os une e todos eles têm contato com ela de alguma forma. A história começa na Indonésia, onde a jornalista francesa Marie (Cécile De France) está passando férias em plena época em que um grande tsunami atingiu a região. Por pouco ela não perdeu a vida. Em Londres, o menino Marcus (Frankie McLaren/George McLaren) perde seu irmão gêmeo Jason repentinamente e está desesperado para entender o por quê disto ter acontecido. Por fim, o americano George (Matt Damon) desde pequeno consegue manter contato com as pessoas que já partiram deste mundo e foi incentivado a lucrar com seu dom. Considerando-se um charlatão e que seu poder na verdade é como uma maldição, o jovem quer levar uma vida normal e encontra em Melanie (Bryce Dallas Howard), uma colega do curso de culinária, a sua válvula de escape para o carma que o aflige.


A espinha dorsal do enredo é o personagem de Damon, que vive um dilema entre aceitar o seu dom ou renegá-lo, mas os outros atores também têm a sua importância e passagens essenciais. Tanto a jornalista quanto o garoto procuram a ajuda do tal médium para compreenderem melhor a morte, mas ele próprio também busca respostas para lidar com seu dom. O roteiro tem a proeza de criar interessantes ligações entre os personagens e cada trama é tratada com apuro até que se misturam e se transformam em uma só. Outro ponto alto é a recriação logo no início de um desastre natural, o que ajuda a criar um vínculo com o público, já que o tsunami na Indonésia foi uma tragédia que o mundo todo acompanhou pela TV. Os efeitos especiais são raros na filmografia de Eastwood, mas aqui tem papel importante. Apesar de serem poucas as cenas em que eles são usados, foram empregados na medida certa para impactar as platéias, ainda mais porque o longa chegou aos cinemas em meio a acontecimentos parecidos no Japão.

Apesar de ter com pano de fundo o espiritismo, a produção enfoca na realidade a relação do ser humano com a morte, com momentos que levam à reflexão. Esta é uma história que envolve amor, coincidências, sofrimento e solidão, porém existe certa superficialidade nesta obra. Por mais que as três tramas sejam interessantes e os atores empenhados a entregar um bom trabalho, fica uma sensação que faltou alguma coisa para tornar a trama mais consistente e consequentemente envolver mais o espectador. A melancolia e a insatisfação presente nas vidas dos três protagonistas acabam refletindo no conjunto de todo o filme. A frieza e o ritmo lento são marcas registradas da obra, pois o diretor quis se aprofundar nos sentimentos de cada um. Mesmo assim, a produção não é nenhum cult ou filme de arte, mas é inegável que destoa no cenário do sub-gênero dos dramas espíritas.


Eastwood continua sendo muito lembrado pelos brucutus que interpretou no passado em filmes de faroeste, mas toda vez que se coloca atrás das câmeras demonstra muita sensibilidade. Aqui ele trata o espiritismo sem ser piegas e nem tentando conquistar fiéis que crêem que existe vida após a morte. Ele simplesmente sugere que existe um mistério, mas não sabe o que é e nem tem a pretensão de desvendá-lo. Cada um terá sua hora de descobrir e por mais que doa a saudade de alguém ou o medo de partir, o tempo se encarregará de colocar tudo no lugar. Mesmo com vários pontos a seu favor, a obra está longe de ser um dos melhores títulos do cineasta. A longa duração e o clima triste onipresente não animam muitas pessoas e também deve decepcionar aos amantes do estilo espírita imposto no cinema nacional através das obras escritas por Chico Xavier. Porém, justamente por ter achado um caminho novo para lidar com o espiritismo, Além da Vida se destaca e merece uma conferida.

Um comentário:

renatocinema disse...

Gostei do filme. Mas, concordo quando você diz que faltou algo.

É uma boa opção. Porém, poderia ser uma opção obrigatória.

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