sábado, 10 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA

Muitos contos clássicos infantis já ganharam tantas versões cinematográficas, teatrais, televisivas e até mesmo em livros que hoje fica difícil saber quais são as verdadeiras e isso também aguça a curiosidade para saber qual o fundamento delas. A dica de hoje é uma emocionante história inspirada em fatos reais que consegue fazer o espectador soltar a sua imaginação ao mesmo tempo em que se mantém na realidade. Esse jogo de mesclar fantasia e vida real é perfeito para Em Busca da Terra do Nunca (2004), uma obra com potencial para agradar e emocionar pessoas de todas as idades. O título foi um dos mais cotados das premiações daquela época, mas sua sensibilidade e criatividade não foram suficientes para derrotar a onda de reconhecimento à obras com conteúdos mais fortes e realistas que imperava. Uma pena. Se fosse produzido anos antes poderia ter sido super premiado, pois agrega todos os ingredientes necessários para levar o público às lágrimas e a sonhar, além de contar com uma parte técnica de primeira. Um prato cheio para as festas do Oscar de antigamente.


A inspiração para criar obras de cunho cultural pode vir dos lugares mais inesperados. Para o escritor de peças teatrais James M. Barrie (Johnny Depp), que está enfrentando dificuldades com seu trabalho mais recente que não foi bem recebido tanto pelo público quanto pela crítica, a vontade de escrever surge num despretencioso passeio pelo parque. Lá ele conhece a jovem viúva Sylvia Davies (Kate Winslet) e seus quatro filhos, entre os quais lhe chama a atenção o pequeno Peter (Freddie Highmore), muito maduro e resistente para entrar no mundo de magia e inocência pertinente a qualquer menino de sua idade. Assim, a mente do autor se abre e renasce a esperança no coração de um homem adulto fisicamente, mas sentimentalmente desejando não precisar crescer jamais. Então inicia-se uma grande e pura amizade entre todos eles, até porque os garotos passam a ver o adulto brincalhão como um substituto à figura paterna que perderam, mas a relação de Barrie, que é casado, com essa família passa a ser questionada pela sociedade elitista e conservadora da década de 1920. Mesmo assim, o rapaz continua se divertindo com as crianças aparentemente felizes, mas no fundo amarguradas, e também tenta a ajudar a mãe delas a enfrentar um grave problema de saúde. Em meio a tudo isso, baseado no cotidiano destas pessoas, sua imaginação aflora e ele consegue escrever uma das maiores obras da literatura infantil: "Peter Pan".


A mistura de magia e drama nesta obra é perfeita e presenteia o espectador com belíssimas sequências, principalmente as que Barrie brinca com as crianças. A ação então é transportada para cenários imaginários com direito a figurinos de piratas, índios e nobres. Graças a essas partes, o longa ganha vigor e não descamba para uma história triste comum e repleta de clichês, ainda que eles existam em grandes quantidades e objetivo do roteiro seja realmente provocar muitas lágrimas, mas nada que comprometa a produção. Qualquer pessoa sensível ou adepta a acompanhar histórias humanas deve ter a atenção fisgada logo nos primeiros minutos de filme. Os cenários e figurinos, ricos em detalhes, adornam esse espetáculo de ternura e a fotografia e a trilha sonora completam o show. Todos esses elementos se fundem com perfeição na sequência de apresentação da famosa Terra do Nunca que causa arrepios e emoções inexplicáveis. Não dá para definir se o sentimento é de alegria em ver tal fantasia tornar-se realidade ou de tristeza devido a situação da personagem feminina principal da trama e até mesmo das crianças.

O grande destaque no campo de atuações fica por conta de Johnny Depp e do garotinho Freddie Highmore, dobradinha que depois repetiram em A Fantástica Fábrica de Chocolate. O ator queridinho do cineasta Tim Burton aparece aqui praticamente todo o tempo de cara livre e sem trejeitos. Não é considerada sua melhor atuação por parte do público, mas certamente para ele deve ter sido um papel difícil de fazer, já que está acostumado a vestir fantasias, usar maquiagens e interpretar tipos excêntricos. Contido, mas ainda com seus momentos para fazer caretas e usar seus talentos vocais e de expressões, pode-se considerar que ele intrepreta diversos personagens aqui. Já o garotinho emociona com seu olhar meio e promete ter um belo futuro na carreira. As conversas entre os dois não parecem de um adulto e uma criança, já que Barrie nunca deixou de ser uma criança no espírito e também porque o sentimento de perda os aproxima. O escritor perdeu seu irmão na infância e compartilha a mesma dor que seu novo amigo tem. Já a sempre bem avaliada Kate Winslet apresenta uma intrepretação correta, mas longe de excepcional, assim como os veteranos Dustin Hoffman e Julie Christie. Ele surge no papel do financiador e incentivador do trabalho de Barrie não passa de um coadjuvante de luxo, enquanto ela vive a avó das crianças, uma ranzinza mulher que inspirou a criação do Capitão Gancho, o inimigo de Peter Pan. Seus aplausos e expressão de surpresa ao conhecer a Terra do Nunca redimem sua personagem de qualquer punição por parte dos espectadores.


Curiosamente, esta obra tão delicada foi dirigida por Marc Forster, escolhido após a projeção que teve com o difícil e amargo A Última Ceia. Depois de comandar um trabalho rígido e para poucos paladares, o cineasta mergulhou na fantasia, mas ainda deixou um pé na realidade. Soube brincar e falar sério com uma história até certo ponto verídica, mas que precisou de alguns ajustes para alcançar seus objetivos, como omitir o fato que o pai das crianças conviveu com o próprio Barrie e chegou a assistir a primeira versão teatral de "Peter Pan". Tudo em nome da arte. Hollywood brincou de faz-de-conta literalmente e a obra tem o mérito de não descambar para a exploração da polêmica de um adulto convivendo intimamente com menores, caminho que destruiria todo charme, beleza e lirismo da produção. Rebuscado, chato, piegas e manipulador, sim também existem aquelas pessoas que podem achar isso, mas a explicação só pode estar em um passado triste e traumático assim como o do protagonista. Porém, siga o caminho dele e embarque na fantasia para reviver ou finalmente viver a sua infância. Em Busca da Terra do Nunca é uma excelente opção para assistir com toda a família, não só hoje, mas um título para ficar na memória para sempre. E não se envergonhe se no fim não conseguir segurar as lágrimas.

Um comentário:

renatocinema disse...

Sempre deixei esse filme para depois, apesar de ser fã dos protagonistas. Mas, seu texto, ao dizer que o roteiro mistura magia e drama me "obrigou" a ver a obra.

Valeu pela dica.

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