quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - BELEZA AMERICANA


Já que ontem foi dia de falar de um dos títulos mais comentados da temporada de premiações do ano 2000, ficou um pouco irresistível hoje não lembrar do grande campeão da maioria dos prêmios daquele ano, inclusive o Oscar. Beleza Americana (1999) é o primeiro trabalho do cineasta Sam Mendes que logo de cara abocanhou a tão sonhada estatueta dourada que muitos diretores veteranos faleceram desejando. Para tanto, ele não teve medo e trabalhou com um roteiro adulto que destrói a imagem da família feliz e modelo americana. O clã em crise enfocado vive em uma casa bonita, confortável e com um jardim vistoso com direito a cerquinhas brancas. Seus vizinhos são tão sorridentes quanto eles próprios. Uma vida de sonhos e tranquila que muitos gostariam de ter, porém, dentro da residência o clima é outro. Insatisfação, brigas, desejos reprimidos e mágoas se misturam e habitam o aparente lar modelo de felicidade.


Naqueles tempos não muito longínquos, parecia que Hollywood queria retratar a realidade americana de forma nua e crua e sem direito a verniz. Temas espinhosos foram levados as telas pelos principais concorrentes a prêmios da temporada. Mendes teve a sorte de estar trabalhando sob a batuta da empresa de Steven Spileberg, a Dreamworks, e conseguiu uma campanha publicitária pesada para que seu longa figurasse nas principias listas dos melhores do ano. E não foram só os críticos que aprovaram a crítica ácida ao povo norte-americano. Os próprios espectadores deram seu aval para esta produção que mostra de forma metafórica como a sociedade se torna frágil e sem objetivos conforme o tempo passa e o progresso chega. Ou seria o retrocesso? Bem, a segunda opção se adéqua melhor. Mesmo em tempos em que tudo parece permitido e existe movimentação para que o excêntrico seja aceito, a tradição e os costumes ainda falam mais altos e manter uma imagem perfeita e intacta ainda é necessário, mesmo quando na realidade se está infeliz. Para quem nunca assistiu ou leu algo a respeito deste filme, pode até parecer que a obra seja do início ao fim um achincalhe aos americanos, curiosamente bancada e festejada por pessoas do próprio país, mas certamente o conteúdo da obra reflete situações existentes em outras partes do mundo, inclusive o Brasil. Quantas famílias não existem atualmente em ruínas, mas ainda unidas em nome de interesses financeiros ou puro orgulho?



Traição, crise de meia-idade, repressão, homossexualismo, drogas, um clima melancólico e reflexivo nos minutos finais e até uma sugestão de pedofilia real entre dois atores, eis a mistura bombástica do premiadíssimo roteiro de Alan Ball. O início mostra de forma sarcástica a perfeição do modelo de sociedade perfeita, mas aos poucos os podres vão surgindo. Lester Burnham (Kevin Sapcey) é um escritor de revista que odeia seu trabalho e sua vida rotineira e Carolyn (Annette Bening), sua esposa, é uma corretora imobiliária ambiciosa e neurótica. Eles vivem brigando dentro de casa, mas fora dela formam um par harmonioso. A filha do casal, Jane (Thora Birch), é uma adolescente que abomina seus pais e tem baixa auto-estima. Os novos vizinhos são o aposentado Coronel do Corpo de Fuzileiros Navais Frank Fitts (Chris Cooper), junto com a esposa, a introvertida Barbara (Alisson Janney), e o filho adolescente Ricky (Wes Bentley), um usuário de maconha e traficante de drogas que sofre com o estilo de vida disciplinador imposto por seu pai. O rapaz grava tudo que quer com sua câmera e é assim que ele se aproxima de Jane, a princípio de forma voyeurista.

Lester tem seus próprios meios de atingir prazer sem se relacionar com a mulher, esta que o trai com Buddy Kane (Peter Gallagher) seu rival nos negócios, mas amante na cama. Mesmo após a descoberta da traição, o cinquentão não se importa, pois ele fica encantado pela melhor amiga da filha, Angela (Mena Suvari), depois de vê-la dançar em um intervalo de um jogo de basquete. Ele então passa a ter fantasias sexuais com a insinuante jovem, onde as pétalas de rosas vermelhas estão sempre presentes, e seus momentos prazerosos aumentam quando ele é demitido do trabalho conseguindo uma boa grana por meio de chantagem. Ele vai trabalhar em uma lanchonete, compra o carro dos sonhos e passa a se exercitar para se tornar mais atraente, o que chama a atenção não só de Angela, mas também de Frank, que julga que seu filho está tendo um caso com ele após encontrar um vídeo comprometedor.

 
Pessoas comuns vivendo situações relativamente corriqueiras e chegando a conclusão de que todo mundo vive de forma omissa e escondendo seus instintos e vontades. Essa é a conclusão que chegamos ao final desta obra cujo título se refere a um tipo de rosa muito cultivada nos EUA e que tem a peculiaridade de não possuir espinhos e odor, uma metáfora que resume o intuito da história: mostrar o vazio do americano comum, mas que chega a ser uma mensagem universal. Com personagens estereotipados, como o cinquentão que quer se passar por jovem, a gostosa que só sabe atiçar, mas continua pura, a adolescente rebelde que adora se vestir com cores escuras e se trancar em um mundinho particular ou o coronel linha dura e preconceituoso talvez para esconder sua repressão, Beleza Americana parece querer dar um passo a frente na discussão de temas fortes e contundentes, mas não consegue ultrapassar barreiras completamente. Isso fica explícito quando finalmente o protagonista cinquentão tem a chance de consumar seu desejo pela garota jovem, mas recua ao ouvir uma revelação dela. As falas de Spacey em off nos minutos finais revelam até o caráter redentor da obra e diminuem o impacto de uma história que seria diferente, mas sofreu modificações para ser abrandada até ser totalmente filmada. Com a pretensão de mostrar o que há debaixo dos panos, Mendes acabou entregando um filme ainda em certos aspectos preso as amarras de Hollywood, afinal de contas a indústria não pode chocar o público totalmente. Mesmo assim, um trabalho extremamente interessante, bem feito e atemporal.

Um comentário:

renatocinema disse...

Grande filme para um belo texto.

Assisti ao filme no cinema e me apaixonei de imediato.

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