sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - ÁGUA PARA ELEFANTES

O mundo circense desperta boas lembranças aos mais velhos, pois era uma das poucas opções de lazer para muita gente no passado, mas hoje em dia essa magia está em crise. Em meio a tanta tecnologia e bugigangas para o lazer, a simplicidade de um palhaço e o colorido de uma tenda já não chamam mais a atenção como outrora. Ainda bem que o cinema está aí para lembrar o quanto um circo pode ser encantador e divertido, mas nos bastidores da atração o clima festivo é quase nulo e são diversas as histórias tristes, mas a maioria esconde as lágrimas por trás de um sorriso. A dica de hoje é justamente um conto de amor que tinha tudo para acabar mal, mas como um bom romance tradicionalista já se pode esperar o final. Água Para Elefantes (2011) é baseado no best seller homônimo de Sara Gruen, e tem como cenário a crise econômica que assolava os EUA na década de 30. Em tempos de incertezas, jogar tudo para o alto em nome do amor era uma loucura, mas ainda assim havia pessoas dispostas a isso.

Jacob Jankowski (Robert Pattinson), sem família e nem dinheiro, viveu sua juventude nos anos 30 trabalhando no Circo dos Irmãos Benzini, época em que a economia americana passava por um período difícil. Foi nos bastidores do mundo circense que o ex-estudante de veterinária conseguiu a chance de um emprego onde não precisava ter um diploma ou conhecimentos específicos, bastava saber fazer com que os outros acreditassem no seu papel, como August (Christoph Waltz), o dono do circo, dizia. Assim, o rapaz começou a adestrar animais, principalmente para as apresentações de Marlena (Reese Whiterspoon), por quem ele se apaixona logo que a conhece, mas ela já é comprometida com seu patrão, um homem que, apesar de ser muito educado e compreensível, mostra-se extremamente cruel quando o assunto é proteger o que é seu ou fazer dinheiro. Com a chegada de uma elefanta no circo para um novo número, a proximidade entre o adestrador e a artista aumenta e August não vai deixar a relação passar em brancas nuvens aproveitando-se que ambos dependem dele para sobreviver em uma época em que a falta de perspectivas e a desolação imperam.


A trama não é nada revolucionária, mas cumpre bem seus objetivos. Um tradicional triângulo amoroso serve como fio condutor de um roteiro que apresenta uma mocinha que está dividida entre a proteção e o sucesso prometido por um homem bem estabelecido e o amor incondicional de um impulsivo jovem, mas que não tem as mínimas condições de lhe oferecer uma vida de luxos. Esta bela história romântica com toques dramáticos tem todos os elementos necessários para agradar aos fãs do gênero e com potencial para ser lembrado pelas próximas décadas, mas é certo que algumas cenas podem parecer estranhas, consequência da necessidade de se resumir algumas dezenas de páginas do livro e dar movimento a trama. A rápida aproximação do jovem casal é um tanto artificial e nem mesmo os momentos de tensão que passam juntos expressam emoções que façam o espectador se envolver de tal forma a torcer por eles. O conflito do trio de protagonistas poderia ter sido mais bem explorado, assim como a atmosfera circense, um prato cheio para revelar belas tomadas e ambientar melhor o espectador ao clima nostálgico.

O filme começa bem mostrando a emoção do ator veterano Hal Holbrook interpretando o protagonista quando já está na casa dos 90 anos. Insatisfeito com a vida solitária que leva e não conseguindo esquecer seus momentos da juventude, ela passa a narrar um período especial de suas memórias a um funcionário de um circo. Para as adolescentes, eis que surge o grande chamariz da produção, o ator Robert Pattinson. Sua participação gerou muita expectativa, pois era a chance de provar que não é apenas um rostinho bonito. Bem, ele prova que tem potencial para ir além do papel do vampiro romântico que o consagrou, mas ainda tem chão para tanto. Já a oscarizada Reese Witherspoon devia ao público um bom drama para seguir a caça de prêmios, mas infelizmente só apresenta uma interpretação correta e pouco inspirada, um pouco culpa de seu papel que deveria ser forte e cativante, mas se revela insosso. O casal não passa a emoção necessária para tornar crível o romance. Quem se destaca é o vilão da história vivido por Christopher Waltz com uma cadência de emoções invejável que vai da gentileza e voz mansa até a agressividade aflorada e voz imponente de forma muito natural. Melhor que ele só mesmo a elefanta Rosie que desempenha bem suas funções, tem destaque no final e consegue cativar o espectador. As cenas em que é agredida pelo dono do circo devem mexer com os mais sensíveis. Ornamentando a história, belos figurinos, cenários e fotografia estão a disposição, mas são recursos pouco explorados como já dito. Merece destaque também a trilha sonora que acrescenta muito ao roteiro, já que as letras e nomes das canções são usadas para destacar algumas emoções dos personagens.


Curiosamente, este romance tem a direção de Francis Lawrence, que até então fez as adaptações para cinema de Constantine e Eu Sou a Lenda, dois títulos ligados aos gêneros de fantasia e ficção e bem distintos deste seu projeto seguinte. Vendo por este lado, podemos compreender o porquê de algumas falhas e a falta de emoção do conjunto, mas ainda assim é louvável o esforço de um cineasta em tentar desbravar campos desconhecidos em sua filmografia e utilizando uma estética realista e longe dos efeitos digitais. Visualmente, o diretor conseguiu com êxito fazer um filme a moda antiga. Uma pena ter deslizado na condução da história principal. Não sendo muito crítico, este trabalho consegue entreter e passar sua mensagem e merece ser visto no aconchego do lar, lugar em que deve se adaptar melhor. Mesmo não fazendo jus ao rótulo de sua ambientação, "o maior espetáculo da terra", Água Para Elefantes é uma boa opção para começar o fim de semana.

2 comentários:

renatocinema disse...

Concordo que, infelizmente, o circo, está em crise.

Acho que o filme cumpre seu papel.

Se o protagonista fosse outro, com qualidade, acredito que o filme teria feito mais sucesso.

Luís disse...

Concordo totalmente quando você diz que o filme não é uma obra fantástica, mas cumpre seu objetivo. E acho que é isso mesmo: a obra se desenrola linearmente, sem grandes problemas, sem grandes ápices, no entanto. Mas é um filme que tem seu charme, que sabe como manter o espectador a observá-lo com atenção.

Excelente texto.

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