sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM

Falta apenas um dia para a grande festa de Natal e ser iniciada a troca de presentes, mas, como acontece em todos os anos, certamente tem gente que deixou para fazer as compras na última hora. Hoje vale tudo. Na pressa compra-se qualquer coisa para não deixar o amigo ou parente a ver navios e pagamos o que for. Os vendedores para se livrarem das mercadorias também fazem qualquer negócio. Fugir de filas, confusão e estresse é quase impossível. Para acompanhar o clima de hoje a dica é assistir as confusões de uma "shopaholic", ou seja, uma consumista compulsiva. Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (2008) é uma hilária comédia romântica que nos apresenta, ainda que bem superficialmente o sentido dramático da coisa, os conflitos que passam diariamente aqueles que não resistem a uma comprinha toda vez que se sentem atraídos por uma vitrine bem arrumada ou um cartaz de liquidação. Apesar de a moda estar presente em praticamente todas as cenas, felizmente somos poupados de discursos insossos a respeito de grifes famosas e de cenas de desfiles de roupas.


Baseada no best-seller de Sophie Kinsella, a história se passa na glamorosa Nova York onde vive Rebecca Bloomwood (Isla Fisher), ou simplesmente Becky, uma jornalista que deseja muito um emprego em uma badalada revista feminina, mas acaba conseguindo uma vaga como colunista em uma publicação sobre finanças da mesma editora, o que pode ainda abrir as portas para o seu real interesse dependendo de seu desempenho. Ela não entende nada concretamente sobre juros, aumento ou queda de bolsas, crises financeiras, enfim tudo que pauta este universo, mas acaba fazendo sucesso com seus textos de fácil compreensão envolvendo as relações entre salários, gastos, necessidades e futilidades. Tamanha intimidade com tais temas é porque ela própria lida com eles diariamente, já que compra demais e idolatra seus diversos cartões de créditos, mas quando chegam as cobranças ela cai em si e percebe que exagerou e não precisava de muitas coisas que adquiriu. O sentimento maravilhoso de comprar um sapato novo e depois a culpa ao ver que seu custo não justifica os benefícios é um dos exemplos que ela cita em seus textos e assim se torna a queridinha de seu chefe Lucke Brandon (Hugh Dancy).


Becky fica conhecida como "a garota da echarpe verde", título de sua coluna e uma referência ao acessório que ela usava no dia em que participou da entrevista de emprego. Diga-se de passagem, o tal pano esvoaçante lhe custou um bom dinheiro e foi adquirido momentos antes de seu compromisso profissional. Mas não faz mal, com o bom emprego ela poderia pagar suas contas atrasadas e fazer algumas extravagâncias de vez em quando. Tudo iria de vento em pompa, isso se o impulso de comprar sem necessidade da moça fosse controlado e ela não estivesse sendo perseguida por Derek Smeath (Robert Stanton), um cobrador. Para piorar, inesperadamente, ela se vê apaixonada pelo chefe e precisa esconder a todo custo seu descontrole perante os manequins das lojas que a convencem de que ela necessita das roupas e acessórios que eles estão usando, do contrário, seu emprego já era e seu amor também. Em meio a esse cenário caótico, um grupo de ajuda poderia ser a solução, mas tudo que a jornalista consegue é mais confusão.

Este é mais um produto típico para agradar a mulherada, mas que acaba caindo no gosto dos homens também graças ao seu bom humor. São hilárias as situações que Becky se envolve, como ser confundida como uma garçonete ou inventar que o homem que a persegue é seu violento ex-namorado. Isla Fisher na época não era um grande nome e surpreendeu ao ser escolhida para protagonizar o longa. O jeitinho alegre e maravilhado diante de combinações de roupas um tanto esdrúxulas, apesar de serem de grifes famosas, e até a semelhança física, inclusive do cabelo avermelhado, tornariam o papel perfeito para Amy Adams, atriz com um currículo melhor e em ascenção. A escolha de uma intérprete pouco conhecida e com predicados equivalentes (no físico, fique bem claro) evidenciam que um conflito de agendas teria tirado a graciosa protagonista de Encantada deste projeto, mas os boatos não são confirmados. Todavia Isla se sai bem, apesar do roteiro exagerar em algumas situações e complicar a vida da atriz que acaba carregando tudo nas costas já que o elenco de coadjuvantes é subaproveitado. Joan Cusack e John Goodman, por exemplo, fazem papéis muito pequenos e sem brilhos enquanto a respeitada Kristin Scott Thomas se inspira na criação de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, mas tudo que consegue é aparecer extremamente caricatural. Pior para a finada Lynn Redgrave que encerrou sua carreira com uma aparição relâmpago e sem nome, creditada apenas como a mulher que aparece bêbada no baile.


Bem, retirando o fraco aproveitamento de seu elenco e algumas passagens pouco críveis, o longa em geral atende bem as expectativas. É alto astral, tem romance, trilha sonora adequada e figurinos que transitam entre o chique e o brega, enfim, tudo o que o público feminino curte e até os machos de plantão podem se divertir analisando o comportamento enlouquecido da protagonista e achar modelos correspondentes em suas vidas. Na direção de P. J. Hogan vale destacar também o recurso dos bonecos de vitrine com movimentos e que se comunicam com Becky para influenciá-la e pontuam o longa, inclusive aparecem no final para aplaudir o desfecho previsível, mas se fosse diferente muita gente ia ralhar. Fantasioso e cheio de ótimas piadas críticas, como acusar o governo de atolar os EUA em dívidas, expor ao ridículo um empresário inescrupuloso ou mostrar o quanto a roupa que vestimos dita para a sociedade a maneira como queremos que ela nos veja, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom cai como uma luva hoje para relaxar ou até rir de si mesmo após um exaustivo dia de compras natalinas.

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