terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - LONGE DELA

Estamos a poucos dias do Natal e o espírito de solidariedade, alegria e união já está tomando conta dos lares em todo mundo, mas junto com ele é inevitável que certa melancolia e sentimento de saudades também pairem em nossas vidas. Esse assunto envolvendo problemas sentimentais é tocado em Longe Dela (2007), um sensível drama sobre o mal de Alzheimer, doença que acomete muitos idosos e atualmente tem atingindo até pessoas na casa do cinquenta anos. A pessoa aos poucos começa a esquecer uma panela no fogo ou onde deixou um casaco, mas logo passa a não se lembrar onde vive, qual época do ano está vivendo e chega até mesmo a esquecer de seus parentes, inclusive com quem morava. Assim, esta é uma obra que desde a concepção da idéia já nasceu com potencial para se tornar um filme inesquecível e com valiosos ensinamentos. Uma obra esclarecedora e importante para ontem, hoje e amanhã.

A trama é aparentemente bem simples, mas deixa suas mensagens de forma suave e para serem facilmente assimiladas. A história é contada do ponto de vista de Grant Anderson (Gordon Pinsent), um professor aposentado que é casado com Fiona (Julie Christie). Eles formam um casal feliz há mais de quatro décadas, mas suas vidas são abaladas quando ela passa a apresentar sintomas constantes de perda de memória. Logo vem a confirmação que ela está sofrendo do mal de Alzheimer. Relutante a princípio, ela começa a ler mais para se informar sobre a doença e a própria começa a perceber que algumas situações podem se tornar perigosas e até atrapalhar a vida do marido. Sendo assim, com uma pontinha de dor do coração, mas cheia de coragem, a jovem senhora aceita ser internada em uma clínica para pessoas com problemas degenerativos. Uma das regras do local é que os pacientes não podem receber visitas durante o primeiro mês para facilitar a sua adaptação. Quando o marido finalmente consegue vê-la vem a decepção. Ela já não o reconhece mais. Fiona agora está muito próxima de Aubrey (Michael Murphy), outro paciente da clínica, o que faz com que Grant tenha que se contentar com sua nova condição de amigo ao mesmo tempo em que tenta ajudá-la a se lembrar do passado e de quem ele realmente é. A chance de se reaproximar de seu grande amor é quando a esposa de Aubrey, Marian (Olympia Dukakis), o retira subitamente da instituição também temendo a aproximação do marido e da sra. Anderson.


Falar de doenças nunca é uma tarefa fácil. Sem querer, pode-se tocar em feridas que façam muita gente sofrer. São vários os filmes que falam sobre enfermidades que conseguiram aprovação do público e crítica, outros foram ignorados justamente por falar de mazelas e enveredar pelo caminho do dramalhão e outros tantos, apesar de serem obras excepcionais, passaram em brancas nuvens. Nessa terceira opção se encaixa o trabalho de estréia atrás das câmeras da atriz canadense Sarah Polley, exceto pelos esforços das premiações em tentarem dar algum lugar ao sol ao título. O roteiro, também assinado pela diretora, foi elogiadíssimo. É difícil imaginar que uma mulher antes dos trinta anos de idade e que tem no currículo como filme mais famoso o terror de zumbis Madrugada dos Mortos tivesse tanta sensibilidade para comandar uma obra com temática tão delicada. Porém, sua filmografia tem vários bons títulos independentes e de drama sob a batuta de grandes cineastas, o que explica seu sucesso junto a crítica com este seu longa sensível do primeiro ao último minuto. Ela adaptou um de seus contos favoritos, "The Bear Came Over the Mountain", de Alice Munro. Fugir dos clichês, evitar que o roteiro seja uma aula chata de medicina e ainda tratar o assunto com muita sutileza são desafios que não é qualquer diretor que consegue vencer e muitos acabam caindo no caminho comum de levar o espectador ao choro fácil. Aqui, o assunto da doença de Alzheimer é tratado com muita sensibilidade e até toques leves de humor.

Sarah fez uma estréia invejável como diretora acertando em tudo. Desde a escolha do elenco, como a escalação da pouco vista nos últimos anos Olympia Dukakis, até a parte técnica, como a bela fotografia e escolha de locações, a promissora cineasta construiu uma pequena obra-prima. Sua aptidão para construir um filme é percebida logo nos primeiros minutos quando ela usa com habilidade a câmera para mostrar a protagonista perdida quando estava fazendo esqui nas montanhas repletas de neve. Focada inicialmente nas expressões da atriz assustada por não saber onde está, logo a lente amplia seu ângulo para captar a vasta área branca que a cerca, uma mensagem visual que confirma o estado enfermo daquela mulher. Calcado totalmente nos personagens, o roteiro bem construído ganhou ainda mais qualidade atrelado as interpretações inspiradas dos atores. A veterana Julie Christie emociona e até diverte o público em certas passagens, alternando momentos de fragilidade com outros inspiradores. Merecidamente ela concorreu ao Oscar e ganhou diversos prêmios como o Globo de Ouro. O pouco conhecido ator canadense Gordon Pincet nos deixa com um aperto no coração ao ver sua dedicação à esposa quando parece que o amor dela por ele morreu. Mesmo assim ele não a abandona e suporta a dor de sentir que ela o vê apenas como um bondoso homem que a visita enquanto ela se desdobra para cuidar do amigo que fez na clínica e que pode ser o novo dono de seu coração. É interessante também notificar sobre a edição que intercala as cenas do processo de Fiona em compreender seu problema e se adaptar à clínica com as de Grant e Marian conversando sobre as situações de seus cônjuges.


Uma última curiosidade deste longa é a respeito das duas personagens femininas fortes da história que são apresentadas de formas opostas e peculiares. Enquanto Fiona mesmo doente mostra-se uma pessoa forte, otimista e bela, Marian é uma mulher amargurada, sem glamour, transmite tristeza, apesar de estar bem de saúde. Para perceber estes entre tantos outros pequenos, mas importantes detalhes, seja das interpretações, enredo ou dos cenários, enfim, para apreciar Longe Dela totalmente é preciso estar com o espírito preparado, sobretudo aqueles que vivem de perto o sofrimento do mal de Alzheimer, mas sem dúvida quem se propor a viver tal experiência sairá dela satisfeito e compreendendo melhor esse problema e com boas lições para lidar com essa situação se um dia for preciso. Uma obra econômica, emocionante do início ao fim e sem excessos ou momentos desnecessários. Sarah Polley prova que nem sempre o marinheiro de primeira viagem necessariamente precisa errar para aprender. Ela já chegou aos sets escolada.

Um comentário:

Luís disse...

O filme foi lançado há pelo menos 3 anos e eu ainda não o conferi, embora toda vez que vá à locadora me sinta tentado a pegá-lo. Acredito que Julie Christie tenha feito um excelente trabalho, até porque nunca a vi atuando medianamente, sempre a vi em atuações seguras - acredito que ela sustenta o filme com sua interpretação, além de o enredo me encantar, gosto desses desencontros amorosos.

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