domingo, 4 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - O DISCURSO DO REI

Neste primeiro domingo de férias a dica é assistir o grande vencedor do Oscar deste ano, O Discurso do Rei (2010), um título que, para variar, não era o favorito da temporada, mas se tornou a zebra da história.  Com doze indicações ao prêmio máximo do cinema, vencendo em quatro delas, e acumulando outros tantos troféus em diversas festas, o longa fez sua fama pouco a pouco e acabou atropelando outras excelentes produções. Digamos que este trabalho é o que teria mais a cara de premiável por ser uma produção de época, o que já lhe garantiria algumas estatuetas pela parte técnica e visual. Curiosamente, justamente estes atributos não chamaram a atenção e os votantes miraram nas categorias principais para laureá-lo. Apesar de não trazer inovações, a obra é correta e apresenta com elegância e competência o que se propõe, mas é de surpreender a quantidade de prêmios de melhor filme, direção e roteiro que colheu.


Barbada mesmo era a enxurrada de troféus para Colin Firth com um trabalho impecável e desafiador. Substituindo Paul Bettany que recusou o papel e deve ter se arrependido, sua excepcional composição lhe exigiu muito da parte vocal e até fisicamente. Ele consegue mostrar ingenuidade e timidez ao mesmo tempo em que nos convence em certos momentos com sua postura ereta e rosto sério que a qualquer momento o líder de uma nação vai surgir com elegância, firmeza e triunfar. O ator vive Albert George, que desde criança sofre com a gagueira, muito devido aos traumas que sofreu com as severas punições de seu pai, o rei George V (Michael Gambon). Este é um sério problema para um integrante da família real britânica que frequentemente precisa fazer discursos. Apesar de ter procurado diversos médicos, nenhum deles trouxe resultados eficazes, mas as coisas mudam quando sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) o leva até Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta especializado em distúrbios da fala que utiliza métodos pouco convencionais para a época, como gritar palavrões repetidas vezes.


O médico se coloca de igual para igual com George e atua também como seu psicólogo, assim tornando-se também seu amigo e confidente. Os exercícios e métodos aplicados no tratamento fazem com que o paciente adquira autoconfiança para cumprir o maior de sua vida: assumir a coroa, em 1936, após a morte de seu pai e a abdicação de seu irmão David (Guy Pearce), o primeiro nome na linha de sucessão. Assim, com a ajuda de Logue, de sua família, do governo e de Winston Churchill (Timothy Spall), o rei George VI vai conseguir proferir o seu mais importante discurso pela rádio, inspirando o seu povo a se unir para enfrentar a iminente batalha contra os alemães na Segunda Guerra Mundial. O roteiro simples explora muito bem a história de duas pessoas que foram unidas pelo sentimento da superação após sofrerem decepções. O terapeuta desejava ser ator, mas talvez não teve sucesso por falar demais, enquanto ao herdeiro do trono o fato de falar mal poderia significar sua ruína. Juntos eles tentam vencer os obstáculos que a vida colocou em seus caminhos. Rush também está excelente na pele do excêntrico terapeuta. Quando os dois estão em meio as sessões de tratamento, é impossível segurar o riso ao ver um nobre pronunciando repetidas e enfáticas vezes palavrões e versos de Shakespeare ou então contorcendo freneticamente seu corpo e rosto.

Longe de ser uma boa aula história, a produção alia muito bem aquele cinema que parece ser feito para atender as demandas escolares com puro entretenimento. Por causa da quantidade de prêmios que recebeu, é uma pena que a imagem do longa ficará atrelada para sempre a essa idéia e portanto exposto a comparações talvez eternamente. Quando assistido sem esse pensamento, o filme revela-se divertido, emocionante e uma excelente opção para passar o tempo. Trabalha a seu favor o fato do protagonista ser o pai da atual rainha da Inglaterra Elizabeth II, o que aumenta a curiosidade na obra para conhecermos mais sobre o passado da família real inglesa.  Aliás, vale destacar a presença de Helen Bonham Carter como a esposa do futuro rei. Ela tem uma interpretação raquítica perto de Firth e Rush, mas a ressalva fica por conta de sua mudança de ares. É raro vê-la atuando em projeto em que seu marido Tim Burton não é o diretor e ainda mais de cara limpa, sem seus costumeiros excessos de maquiagens e roupas excêntricas.


 
O diretor Tom Hooper teve muita sorte em ter seu trabalho super premiado tendo em seu currículo apenas o regular drama Sombras do Passado e o frouxo Maldito Futebol Clube, filmografia de alguém a quem o Oscar de Melhor Diretor era um sonho distante. Apesar das críticas que sua obra sofreu após derrotar produções mais conectadas com a atualidade e outras que exploram a dramaticidade sem ser piegas, uma lição fica: cinema bom nunca sai de moda e não é preciso trabalhar com roteiros engenhosos ou chocar as platéias com cenas fortes para escrever seu nome na história do cinema. O cineasta investiu em um filme que une humor e drama no melhor estilo inglês e bem próximo aos títulos de época produzidos entre as décadas de 40 e 60. Se a crítica aprovou essa volta ao passado, infelizmente a maior parcela do público rejeitou, mas é preciso se livrar das amarras preconceituosas e dar um voto de confiança. No geral, o resultado é muito agradável e até bem diferente do que se espera de uma obra que fala sobre nobreza, política e a iminência da guerra, mas ainda assim sobra expectativa acerca desta obra cujo nome surgiu tímido no início da temporada dos prêmios, porém, ganhou uma projeção extraordinária com o tempo. Produzido pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein, os sortudos produtores que sempre emplacam produtos nas premiações e deram uma injeção de ânimo no cinema independente e para os filmes de época, O Discurso do Rei é mais um título para a coleção de sucessos da dupla e certamente merece uma revisão por aqueles que o apedrejaram. Se você ainda não viu, vale a pena.

2 comentários:

renatocinema disse...

Vou ser sincero: fui assistir ao filme com dois pés atrás. Muito receio.

Mas, o resultado final me agradou....e muito.


Achei que o filme faz uma bela união realmente de humor e drama.

Luís disse...

Eu acho que esse é um filme bem realizado e não me surpreende que tenha conseguido o prêmio máximo do cinema: é uma obra madura, de direção certeira, de atuações equilibrados e intensas - especialmente Firth e Carter, sendo os dois os grandes destaques desse filme.

Aliás, Firth tem gritado: "por que só olharam para mim agora?". Ele coleciona boas atuações em sua carreira e, para mim, valeria tê-lo lembrado também em 2010 por The Picture of Dorian Gray, outra atuação fabulosa sua.

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