domingo, 18 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - JULIE E JULIA

Domingo é dia de reunir a família para um bom almoço ou café da tarde e como estamos a uma semana do Natal os preparativos culinários para a ceia já devem estar sendo encaminhados. Para ajudar no cardápio a dica de hoje é assistir Julie e Julia (2009), um delicioso filme em que a cozinha é o cenário principal e os alimentos são importantes coadjuvantes. Não é um dramalhão, mas também não provoca gargalhadas. Se existissem categorias como "filme gostoso" ou "filme agradável" certamente esta obra da diretora Nora Ephron, especialista em histórias açucaradas, ocuparia uma vaga nelas. Talvez justamente por não ter um gênero bem definido a produção não recebeu muito apoio do público e a crítica também não se derreteu de amores. Simplesmente, o roteiro é praticamente todo apoiado na interpretação excepcional, para variar, de Meryl Streep e por causa dela o longa teve certa visibilidade, do contrário poderia ser um projeto fadado ao esquecimento, apesar do bom viés adotado para contar uma história verídica.

O enredo se passa no final da década de 1940. Julia Child (Meryl Streep) é uma americana que passou a viver em Paris por causa do trabalho de seu marido Paul (Stanley Tucci). Para passar o tempo ocioso, ela começa a se dedicar à culinária e participa de um curso, mesmo não tendo muita habilidade para a coisa inicialmente, mas, como se diz no popular, a prática leva a perfeição. Logo ela está na televisão apresentando um programa no qual preparava receitas e conquistando seu espaço e público, além de dedicar-se a registrar suas criações na cozinha em um livro. Décadas mais tarde, Julie Powell (Amy Adams) está prestes a completar trinta anos, mas está frustrada com a vida que leva. Em busca de um novo caminho a seguir, ela resolve passar um ano preparando as mais de 500 receitas do livro que a famosa Julia escreveu. Ao longo deste período de experiências na cozinha, a moça relata tudo o que aprendeu ou deu errado nos pratos que testou em um blog na internet.


A receita do filme é bem convencional e segue o clichê da pessoa que assume um desafio para si mesmo como forma de superar tristezas e suprir necessidades. Neste percurso é claro que não faltam problemas para abalar as esperanças. A partir dessas cobranças para atingir a superação, o filme intercala as histórias destas duas personagens verídicas e suas criações culinárias, um excepcional trabalho de edição que consegue obter verdadeiras rimas visuais nas constantes passagens de tempo. As duas atrizes não chegam a dividir cenas. O desenrolar de suas histórias é feito de forma paralela, mas o chamariz fica por conta dos pequenos detalhes de alegria e tristeza cuidadosamente selecionados para que exista sintonia entre as duas épocas retratadas, mas a sequência de cenas de Meryl mostra-se muito superior e envolvente que a de Amy, não que a moça esteja ruim, ela faz bem o seu papel, porém, o contexto da sua parte do enredo não é muito chamativo.  Não por acaso, a veterana atriz colecionou alguns prêmios e foi mais uma vez indicada ao Oscar pelo papel da cozinheira. Logo no início ela já chama a atenção na cena emblemática que mostra o caminho que sua personagem seguirá. Ao desembarcar em Rouen, antes de chegar em Paris, Julia faz sua primeira refeição em um restaurante francês. Ela se emociona e quase cai no choro ao provar um linguado com um dos melhores temperos que já experimentou. Seu caso de amor com a culinária estava selado.

A boa adesão do público com as cenas do passado se deve ao fato delas conterem maior sustância. Julia passa ao espectador de maneira sutil a idéia de como a mulher vivia naquela época pós Segunda Guerra Mundial. Ela ainda era submissa ao marido, tinha bastante tempo livre e não estava praticamente inserida no mercado de trabalho. Para quem não tinha filhos, como no caso, o tédio era ainda maior. A personagem se destaca nesse cenário ao obter sucesso com a arte da culinária e pelo seu jeito alegre de viver que não escondia. Já a Julie contemporânea hoje pode ter uma história pouco interessante, mas no futuro pode gozar de prestígio, pois será um registro importante do início dos anos 2000, do novo milênio, período marcado pelo individualismo ou, na melhor das hipóteses, pela comunicação a distância, o mundo virtual devorando o real. Mesmo com as mudanças, a mulher de agora continua almejando amor, sucesso e realização pessoal. Há coisas quem nem o tempo muda. Estas duas histórias semelhantes não foram criadas especialmente para dar um tom poético ao longa, mas são uma fusão de idéias capturadas de dois livros. A parte de Meryl foi inspirada no livro de memórias "My Life in France" enquanto a de Amy é do livro homônimo ao filme em que a Julie Powell real relata como começou o blog e narra suas aventuras e desventuras com o fogão e utensílios de cozinha.


São vários os filmes que utilizam a culinária como matéria-prima ou pano de fundo e conseguem abrir o apetite de quem assiste com apetitosas guloseimas que conferem ao trabalho um visual chamativo e aconchegante. Com esta produção não é diferente. Os pratos apresentados talvez só não são mais deliciosos que ver a grande Meryl Streep com mais um excepcional trabalho, resultado de uma minuciosa composição da atriz que teve até que se equilibrar em saltos bem altos para alcançar a inacreditável altura da homenageada. Para quem nunca ouviu falar da cozinheira Julia Child a personagem pode até parecer caricata e exagerada, mas segundo registros ela realmente era uma figura excêntrica, cheia de trejeitos e com uma voz muito característica. Falando em exageros, para provar que em qualquer filme podemos tirar alguma lição, curiosamente o uso da manteiga denuncia as mudanças ocorridas entre as décadas que separam as duas histórias. Fartamente utilizada no passado, hoje em dia seu uso é comedido e por muitos é repudiada. Mas não se preocupe. Assistir várias e várias vezes Julie e Julia não traz problemas e quando visto com olhos atentos pode se tornar um ótimo alimento para o cérebro, apesar de faltar algum tempero para tornar a receita inesquecível.

2 comentários:

renatocinema disse...

Ainda não assisti...mas, realmente para um domingo pode ser uma ótima escolha.

Luís disse...

Não consigo achar esse um bom filme e acho que as atuações aqui são um verdadeiro migué. Tenho a impressão de que tanto Streep quanto Adams se apoiam nas suas excelentes atuações do ano anterior para promoverem as suas personagens. Não que sejam parecidas as freiras de Dúvida com as amantes de culinária de Julie & Julia, mas tenho a impressão de que a proximidade com um filme verdadeiramente bom alavanca esse filme, que, a meu ver, é bastante chato.

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