terça-feira, 6 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - REGRAS DA VIDA

Todos os anos alguns filmes conseguem uma participação significativa na temporada de premiações e mesmo não abocanhando o prêmio de melhor filme, conseguem escrever seus nomes na história do cinema, mas é uma pena que o tempo faz com que eles fiquem vivos apenas na memória dos cinéfilos. Ainda bem que quase sempre é possível resgatar essas obras do passado e apresentá-las a novos espectadores. Nesta terça-feira, a dica é assistir ao belíssimo drama Regras da Vida (1999), uma produção de época caprichada que era uma das favoritas a levar o Oscar em sua época com sete indicações. Não ganhou o prêmio máximo, mas levou outras duas importantes estatuetas: ator coadjuvante (Michael Caine) e roteiro adaptado. O veterano intérprete também foi agraciado pela Associação Norte-Americana dos Atores de Cinema, mais conhecido como Screen Actors Guild), e o texto foi premiado pela Associação Nacional dos Críticos dos EUA.


O que haveria neste roteiro de tão especial para ganhar esses dois prêmios tão importantes? Simplesmente a história se passa nos anos 40, época de guerra e medo, e aborda temas como incesto, aborto, traição e dependência química, ou seja, tudo que talvez ninguém imagine encontrar em um drama ainda mais com um título tão romanceado. Na realidade, o título original é "as regras da casa de cidra", o mesmo do best-seller que foi adaptado nesta produção. Lançado em 1985 por John Irving, o próprio autor é o responsável pelo roteiro e há mais de uma década tentava levar sua obra as telas grandes, mas por tratar de assuntos espinhosos o projeto era impedido de ser levado adiante. A produtora e distribuidoras mundiais acordaram que era melhor omitir os fatos do material publicitário para não afugentar o público. Medida inteligente. Com toda a publicidade romanceada, o espectador desavisado pode se dar ao prazer de assistir a um belíssimo filme que talvez nunca se interessaria. Bem, aqui já está tudo escancarado, mas fica a recomendação, pois de forma alguma é um trabalho ofensivo ou chocante. Também a direção só poderia ser de Lasse Hallstrom, um especialista em lidar com emoções e presentear as platéias com belas imagens. Ele consegue de tal forma prender a atenção do espectador com suas tramas, que rapidamente estamos ambientados aos cenários e íntimos de seus personagens.


Desta vez, Hallstrom nos conta a saga de Homer Wells (Tobey Maguire), um jovem que cresceu em um orfanato, chegou a ser adotado duas vezes, mas foi devolvido. Ele vive sob os cuidados do Dr. Wilbur Larch (Michael Caine), um médico viciado em éter e que realiza abortos ilegais, o que não agrada seu pupilo. O velho senhor deseja que Wells seja seu sucessor tanto na questionável profissão quanto na direção do orfanato, mas o jovem tem outros planos e deseja conhecer o mundo além dos limites impostos por seu tutor. Ele pega carona com Wally (Paul Rudd) e Candy (Charlize Theron), um casal que procura a clínica para realizar um aborto. O rapaz oferece ao órfão um emprego como catador de maçãs na fazenda de sua família. Como tenente da aeronáutica, Wally é convocado para a Segunda Guerra Mundial e nesse período sua esposa acaba se aproximando além da conta de Wells. Ao mesmo tempo, o jovem empregado passa a conviver com os outros catadores, imigrantes negros liderados por Mr. Rose (Delroy Lindo), um misterioso sujeito. As opiniões de Wells a respeito do aborto contrárias a de seu mestre são revistas por ele próprio quando a filha desse homem negro, Rose Rose (Erykah Badu), surge grávida e decide não ter o bebê que foi gerado acerca de circunstâncias escandalosas.

Com tantos novos acontecimentos na vida de Wells, como a decepção em não poder levar adiante seu romance com uma mulher comprometida, enquanto Wilbur se entrega a seu vício e parece perder a paixão pela vida quando seu filho adotivo vai embora, vemos um paralelo interessante: enquanto um cresce o outro entra em decadência. Assim, a obra mostra que é impossível estar preparado para as surpresas e desafios impostos pela vida. Cada novo fato nos ensina algo e a cada dia precisamos lidar com situações diversas e nosso próprio amadurecimento nos ditará as regras que seguiremos.


Hallstrom tem em sua filmografia muitos trabalhos em que enfoca o registro de passagens que marcam a transição da infância para a adolescência ou da juventude para a maturidade e isso o ajudou a construir uma carreira respeitável. Mesmo aqui lidando com diversos conflitos que se interligam, ele consegue não perder o foco da narrativa e explora muito bem o crescimento pessoal de Wells, sem se esquecer de apresentar os desfechos dos demais personagens secundários. O texto, baseado em anotações a respeito dos abortos ilegais do início do século 20 feitas pelo próprio avô de Irving que era médico, nasceu originalmente na sala do ator Paul Newman, que provavelmente aspirava ao papel de Wilbur ainda na época do lançamento do livro. O título Regras da Vida, apesar de genérico, expressa bem o tom edificante desta obra que perdeu o Oscar para Beleza Americana. Pelo visto, naquele ano, os críticos queriam destacar a ruína do modelo da família perfeita americana, mas o trabalho de época do cineasta sueco prova que a destruição do núcleo familiar já vem de longa data e se manifesta desde a recusa em gerar uma vida até a falta de limites na relação entre um pai e a própria filha. Temas espinhosos em embalagem elegante.     

Um comentário:

renatocinema disse...

Tenho vários amigos que elogiam esse filme e até hoje deixo para depois.

Preciso tirar esse "peso" da minha lista.

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