quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - SINAIS

Estamos em um período em que falamos muito a respeito de fé e esperança e certamente todos já ouvimos dizer que quando deixamos de acreditar no poder da religião abrimos as portas para as forças ocultas atuarem. Se colocar em discussão esse tema era a proposta de Sinais (2002), as intenções ficaram perdidas pelo caminho. O assunto que se destaca realmente é a possível presença de extraterrestres em nosso planeta baseando-se em eventos misteriosos amplamente divulgados pela mídia e vendidos como realidade na década de 1970. A má recepção que esta produção teve foi mais uma injustiça feita a M. Night Shymalan, que infelizmente vive com a fama de diretor de um filme só. Até hoje ele é assombrado por seu grande sucesso O Sexto Sentido e viu seus trabalhos seguintes serem massacrados pela crítica e não escapou nem das chibatadas do público. Será que realmente ele perdeu a mão ou os espectadores é que estão exigindo demais de um homem que praticamente começou a carreira já surpreendendo? A segunda hipótese é a mais correta, pelo menos verificando seus três longas que surgiram após ele conquistar o mundo com certo garotinho que via espíritos.


É difícil expressar uma opinião honesta e individual quando meio mundo não compartilha dos mesmos pensamentos, mas realmente classificar este filme como ruim é demais. Regular ainda é discutível, mas também não chega a ser excepcional. Em seu terceiro filme hollywoodiano com grande distribuição, o cineasta indiano investiu novamente naquilo que lhe trouxe notoriedade: personagens com história de vida para o espectador criar um elo, atmosfera de arrepiar, sequências incômodas de silêncio e introdução dos elementos de terror nos momentos oportunos. Bem, se muitos filmes sobre alienígenas decepcionam por não mostrarem as criaturas, aqui elas até aparecem demais e provocam um anticlímax. Só pode ser essa a grande queixa daqueles que apedrejam este trabalho. Shymalan errou ao trocar o horror sugestionado pelo explicito. Na realidade até pouco mais da metade do tempo o diretor felizmente usa sons e imagens em relances para assustar e mesmo depois que a ameaça se revela em carne e osso (ou seja lá do que são feitos os corpos dos extraterrestres) a tensão não cai, pelo contrário, até aumenta. É o pulo do gato do roteiro. O espectador é convidado a participar do claustrofóbico lar da família Hess desde o início, já que basicamente todas as ações ocorrem por lá, mas no final a relação entre espectador e cenário é intensificada. Nesta casa localizada em uma região rural da Pensilvânia vive Graham (Mel Gibson), um homem que abandonou a igreja após a morte de sua mulher em um acidente, seus dois filhos, Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abigail Breslin), e seu irmão Merrill (Joaquim Phoenix). A paz deles é interrompida com o surgimento de grandes círculos em meio a plantação de milho, como se algo gigantesco tivesse pousado ali. O mesmo fenômeno começa a acontecer em outras fazendas mundo a fora e tudo indica que seres de outros planetas estão rondando essas propriedades.

Misturando realidade com o sobrenatural, os personagens tentam como podem se proteger do desconhecido e recorrem desde idéias estapafúrdias como colocar na cabeça chapeuzinhos de papel alumínio até bloquear portas e janelas com madeira reforçada. Para o patriarca as coisas são ainda mais complicadas, pois precisa manter a calma dos filhos e do irmão ao mesmo tempo em que precisa lidar com seu ceticismo e o luto pela perda da esposa. Aliás, habituado a sempre fazer uma pontinha em seus filmes, Shymalan aqui cedeu a si mesmo um bom espaço. Ele interpreta o homem que acabou dormindo ao volante e provocando o fatídico acidente com a mulher do padre, forma como Graham costuma ser chamado. Em meio a ameaça de invasão alienígena, entra um flashback para reforçar o sentimento de perda do protagonista, também existe uma conversa pacífica entre ele e o motorista descuidado, mas realmente esse tema acaba sendo muito dissolvido entre tantas pistas, sustos falsos e diversas falas com toque de humor mal encaixadas. É muito assunto para pouco tempo. Algumas das situações apresentadas realmente poderiam ser mais bem trabalhadas, mas é inegável que a maior parte delas reserva segredos, símbolos e truques que exigem do espectador uma atenção maior para poder decodificá-los.  
Muita gente deve achar que a conclusão da história é muito rápida, destoante do restante filme e totalmente fora dos padrões do cineasta. Mas que padrão é este? Se Shymalan surpreendeu uma vez terá que ser sempre assim? Porém, não deixa de ser incômodo ver a figura de um alien ameaçando os filhos do protagonista se praticamente o tempo todo ficamos na angústia provocada pelas trucagens do diretor. É como receber um banho de água fria, ou melhor, morna, já que o final não chega a ser terrível e tem certa lógica. É uma pena que uma obra que do início ao fim consegue prender a atenção seja crucificada por causa de algumas liberdades do diretor. Claro que uma coisa errada ou outra mal encaixada acaba ocorrendo, até mesmo nos melhores filmes, mas são detalhes facilmente esquecidos quando nos deparamos, por exemplo, com uma cena de alta tensão envolvendo o corte de um dedo da criatura misteriosa (não há como descrever, tem que ver pra crer) ou sentirmos um frio na espinha ao ver um imenso milharal a noite de onde ecoam barulhos estranhos. Em contrapartida, não há como não gargalhar quando o Brasil aparece para uma participação especial. Sim, estamos também lá representados por uma cidade da região sul onde um alienígena aparece repentinamente em uma gravação caseira. A maioria dos desafetos da obra marca este ponto como o X do problema. A criatura é revelada e de forma pouco crível em meio a uma festinha. Há quem diga que ficou parecendo um flagra de um animador de aniversários. A partir daí o que esperar mais?

No conjunto, realmente a nossa participação na trama destoa. O tal vídeo do flagra parece feito para ser atração de programas sensacionalistas (quem não se lembra do apresentador Gugu e suas histórias de extraterrestres), mas fora isso não há defeitos gritantes para que este trabalho e o próprio Shymalan sejam tão esnobados. Só pelo fato de até hoje ser lembrado e gerar discussões já demonstra que o filme não foi feito em vão. Abrir caminhos para o debate a respeito de fé, união familiar, o medo ou o fascínio de descobrir se existe vida em outros planetas e se esses seres estão entre nós, enfim, talvez o longa foi feito não para dar respostas, mas sim para cutucar os espectadores e fazer com que eles coloquem a cabeça para funcionar, tal como o diretor fez em seu filme posterior, A Vila. Alguns esperavam encontrar naves espaciais e outros nem chegar a ver um alien. Tem gente que encontrou no enredo muitos elementos a respeito da importância de crer no que os olhos não vêem e na religião enquanto outros viram o tema dos extraterrestres pela ótica mais comercial possível. Enfim, Sinais é a prova que é possível se fazer um cinema para refletir ao mesmo tempo em que ele pode ser escapista e, principalmente, que tais obras não têm prazo de validade, são para sempre e cada um pode interpretar a sua maneira de acordo com suas crenças, vivência e época. 

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