quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FESTIVAL DE FÉRIAS - A FUGA DAS GALINHAS

Faltam poucos dias para a realização da ceia natalina e um dos pratos mais consumidos nesta época do ano são aves. Repudiadas no réveillon por causa da superstição que não se pode comer animais que ciscam para trás na virada do ano, pelo menos na festa do Papai Noel elas são muito apreciadas. Enfeitadas com frutas, acompanhadas de farofa ou simplesmente assadas, as galinhas ou outras espécies derivadas são protagonistas na mesa, mas também podem ser apreciadas em longa-metragem. Não por acaso, A Fuga das Galinhas estreou no Brasil bem na véspera do Natal e se tornou um estrondoso sucesso rapidamente graças a seu roteiro inteligente e animação em stop-motion de primeira. Só de pensar que cada franguinha é um boneco feito de forma artesanal e animado quadro-a-quadro, já podemos considerar uma produção merecedora de elogios. A técnica que parecia aposentada ganhou fôlego e acabou criando uma identidade para o longa.

O roteiro inteligente é uma colcha de retalhos que alinhava sequências inspiradas em clássicos filmes de guerra, só que a guerrilha aqui é entre galináceas e uma dupla de humanos. Quando eles não estão por perto, as galinhas estão arquitetando planos para conseguirem fugir da sinistra granja da Sra. Tweedy, pois sabem que lá elas só servem para botar ovos e no futuro para virarem assado. A líder delas é a esperta Ginger que mesmo após vários planos fracassados não desiste da idéia da fuga. O grande problema que elas enfrentam é que as galinhas não voam, seus movimentos de asas são limitados. A preocupação aumenta quando a dona da cooperativa compra uma máquina de fazer tortas de frango, o que indica que um maior número de galinhas perderia a vida todos os dias. Um belo dia a salvação delas surge literalmente caindo do céu. Rocky, um galo com alto poder de persuasão e conhecido por suas façanhas no ar, aterrissa na granja quando fugia de seus donos e faz um acordo com as franguinhas: elas o escondem se ele as ensinar voar. O canastrão aceita a proposta, mas conforme o tempo passa o cerco fecha e todos aqueles animais correm o risco de morrer naquela espécie de campo de concentração.


O longa já nasceu com pinta de cult e de sucesso graças aos nomes de Peter Lord e Nick Park na direção depois de décadas da fundação do estúdio Aardman especializado em animações stop-motion. Após dois curtas premiados com o Oscar e o sucesso da dupla Wallace e Gromit que futuramente ganharia o próprio filme, eles estrearam em grande estilo, ainda que com o apoio de Steven Spielberg e sua empresa Dreamworks. O resultado é um delicioso desenho que chegou nos cinemas como um sopro de originalidade em um cenário dominado pela computação gráfica, mesmo utilizando uma técnica de animação considerada arcaica. Os personagens são repletos de detalhes para caracterizá-los, bem expressivos e até os movimentos da boca são caprichados. É certo que ninguém faz milagres e a perfeição aqui se deve também ao uso da tecnologia aliada ao estilo antigo de fazer animações. Assim, algumas trucagens, simulações de cenas e a remoção de fios e outros acessórios que sustentavam os bonecos reais precisaram ser feitos em ambiente virtual.

O desenho caiu no gosto de crianças e adultos do mundo todo de forma espantosa. É surpreendente imaginar que um grupo de galinhas conseguiu arrecadar uma bilheteria mundial que muito astro de carne e osso nem sonha em um dia conseguir. Com um visual simples e aconchegante retratando a década de 1950 e com personagens cativantes como Babs, uma galinha com um impagável bordão e que vive fazendo tricô, a grande inspiração do enredo é o clássico de guerra Fugindo do Inferno, mas também há espaço para satirizar Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, Guerra nas Estrelas, entre tantos outros títulos de sucesso e clichês do cinemão americano. Porém, mesmo quem não tem um amplo conhecimento cinematográfico ou tampouco intimidade com as obras de guerra de antigamente ainda irá conseguir dar boas gargalhadas. Até política entra no meio do sarro com a citação da velha rixa existente entre americanos e ingleses.

Além dos já citados excepcionais personagens criados, vale destacar também a dupla de ratos Nick e Fetcher que acompanham de perto o treinamento das galinhas e só pensam em se dar bem e se divertir e o contraste entre o casal dono da granja. A senhora Tweedy é alta, magra e ardilosa enquanto o senhor Tweedy é totalmente o oposto, baixinho, gordinho e bobão. Deixando os estereótipos de lado, são tipos muito bem construídos e o roteiro nos poupa de canções chatinhas costurando a trama. Diga-se de passagem, o filme costuma agradar mais aos adultos, até porque a técnica do stop-motion é uma coisa que lembra a infância de quem a viveu entre as décadas de 80 e 90 e para as novas gerações é uma novidade que não tem a mesma adrenalina dos efeitos que uma animação computadorizada pode gerar, mas vale a pena insistir e tentar fazer os pequenos assistirem. Uma última curiosidade desta produção é que para manter o nível do filme aceitável para adultos um personagem infantilizado foi cortado, uma das poucas exigências do estúdio americano feitas à equipe de produção inglesa. Trata-se de Little Nobby, um pintinho que seria o irmão mais novo de Ginger, mas ele foi limado da versão final do roteiro, pois talvez pudesse roubar as atenções e transformar o filme totalmente da idéia original. Enfim, A Fuga das Galinhas é sem dúvida um marco do cinema que colocou as galináceas em um patamar de destaque em que tantos outros animais já foram alçados, como porquinhos e cavalinhos cativantes, mas nunca ganhou uma sequência ou desenhos derivados. A explicação é que seus criadores estão acima da linha de pensamento financeira e tinham medo que um arsenal de produtos transformasse o longa em refém do consumismo e não mais o objeto principal. Pena que não havia o Oscar de melhor filme de animação. Ganharia fácil, até porque já tinha sido indicada ao Globo de Ouro de melhor Comédia e na época a concorrência da categoria era fraquíssima.

Um comentário:

renatocinema disse...

Disse tudo: caiu no gosto das crianças......e dos adultos.

Bela animação.

O cinema precisava "brincar" mais com a sétima arte.

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