terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

QUERIDA CHEGUEI!



O título deste texto é retirado de um seriado de muito sucesso da década de 1990 protagonizado por uma família de dinossauros bonzinhos, mas cai como uma luva para explicitar o espírito da imagem em destaque, do filme em si e até para apresentar seu criador. The Evil Dead ou em bom português A Morte do Demônio (no Brasil os dois títulos estão sempre lado a lado) se tornou o cartão de visitas do diretor Sam Raimi. Atualmente ele é um profissional muito competente que Hollywood tratou de abrigar com toda a pompa e conforto possível, principalmente depois do mega sucesso da franquia Homem-Aranha nos anos 2000, mas seu início de carreira foi bem diferente. Ele não nasceu em berço cinematográfico, mas sempre gostou muito da sétima arte e desejava fazer parte desse mundo onde tudo é possível, inclusive ressuscitar mortos e falar com o coisa ruim em pessoa (ou quase isso). Ainda adolescente, ele se uniu ao colega Bruce Campbell, que interpreta o protagonista Ash na fita, e juntos escreveram o roteiro, trataram da produção e de levantar dinheiro para fazer um filme de terror. Em 1981, após cerca de quatro anos de contratempos, o longa finalmente ficou pronto, mas os dois jovens talvez nem desconfiavam que tinham acabado de realizar um marco na história do cinema, um legítimo trash movie com qualidades. Sim isso mesmo. Existem coisas positivas nesta produção, embora o roteiro não seja nada criativo.  Um grupo de jovens aluga uma casa de campo para curtir um final de semana, mas quando chegam ao local descobrem que escolheram uma cabana bem capenga no meio do mato, porém, decidiram ficar. Para passar o tempo, eles começam a explorar a casa e acabam encontrando um livro macabro escrito com sangue chamado “Necronomicon” junto com uma fita de áudio (as novas gerações nem devem conhecer isso) com a gravação de um historiador que leu um dos trechos da publicação. As portas do inferno então se abrem e um por um os jovens vão sendo possuídos, a matança começa e só um deles sobreviverá.  Esta premissa gerou um perturbador produto que garimpou seu espaço graças aos festivais dedicados a produções amadoras, de terror e afins, assim chamando a atenção de grandes produtores e distribuidores que decidiram lutar para colocar o projeto em circuito comercial e investir no promissor cineasta, tanto que o longa gerou outras duas continuações tão toscas quanto o original, embora nelas já existisse capital hollywoodiano inserido.
Se hoje o enredo é batido, na época também já não era nenhuma novidade colocar um bando de jovens em perigo, contanto com variações lançadas anteriormente como Halloween, O Massacre da Serra Elétrica e obviamente O Exorcista, mas Raimi nunca teve pretensões de ter seu trabalho comparado a tais títulos. Ele lançava um legítimo filme B, ou seja, um belo exemplo de filme com tudo a seu favor para ser considerado ruim, mas que justamente por assumir seu caráter tosco acaba virando uma grande obra. Longe de bons efeitos especiais, cenários mirabolantes e até mesmo de interpretações dignas, o mal feito nesse tipo de produção é requisito básico e faz parte da diversão. É lógico que para muitas pessoas A Morte do Demônio é uma grande porcaria e totalmente esquecível, mas para quem gosta de cinema ele significa muito. É o sonho de viver da arte de se fazer cinema materializado. Com todo jeitão de vídeo caseiro feito entre amigos para passar o tempo, o jovem diretor provava que não é preciso milhões para fazer um filme, basta ter boa vontade e criatividade. Assim ele criou algumas das cenas de possessão mais assustadoras que as telonas já tiveram, usou a câmera com maestria e sem medo de exagerar em closes nojentos de tripas e sangues de materiais que transpiram falsidade, caprichou na atmosfera de arrepiar de sua cabana no meio do mato e ainda soube tirar bom proveito dos atores amadores e até do seu próprio roteiro que une muito bem suspense, terror dos bons e humor. De quebra, criou uma cena originalíssima de uma jovem sendo literalmente possuída pelas raízes do mal (não há como explicar, só vendo para crer).  Mas voltando ao título do texto e a explicação da imagem em destaque, o tom cômico da obra é muito forte e as aparições dos jovens possuídos provocam deliciosos sustos salpicados de risadas. Seus closes e falas parecem carregar uma amistosa saudação do tipo “olá, eu sou um demônio e vou te atormentar até você morrer... de medo ou de tanto rir!”. É esse espírito que está impregnado neste primeiro longa do hoje cultuado Raimi. Assusta e diverte ao mesmo tempo e o fato de ter envelhecido só deixa a experiência de assisti-lo ainda mais gratificante. Dá até para sentir saudades dos tempos do VHS quando produções do tipo bombavam nas locadoras e nas madrugadas da TV. O trash movie tem sua importância na história no cinema e é sempre bom resgatar essa memória.

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