sábado, 11 de fevereiro de 2012

HOMENAGEM AO CINEMA À FRANCESA

Chega até a ser contraditório. Em plena época em que muitos cineastas, produtores e estúdios estão investindo pesado em histórias mirabolantes ou tecnologias de ponta e efeitos 3D para atrair o público de volta as salas de cinema ou até mesmo para injetar algo a mais na campanha publicitária de produções deficientes, muita gente do meio cinematográfico está se unindo ao coro de críticos do mundo todo para exaltar O Artista (2011), uma surpreendente obra com tom nostálgico que teria tudo para ser pisoteada por onde passasse. Isso na base do preconceito é bom deixar claro. Só vendo para crer no que este trabalho significa, principalmnete na modernidade em que a arte cinematográfica está tão debilitada e requentada.

Filmado em preto e branco, de origem francesa e sem um único diálogo durante toda sua duração. Parece até que estamos falando de um daqueles filmes clássicos que vez ou outra são restaurados para serem relançados em cinematecas e salas alternativas, mas o trabalho originalíssimo do cineasta Michel Hazanavicius tem boas chances de lotar as salas multiplex dos shoppings centers. Em todas as premiações em que passa, O Artista sai ao menos com um troféu de lembrança e cada vez são mais fortes os indícios de que ele pode ter sua apoteótica consagração no Oscar 2012 que não lhe reservou uma das vagas para Melhor Filme Estrangeiro, mas cedeu à obra nada menos que dez indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção.

Apesar de sua origem francesa, o longa é praticamente uma homenagem à Hollywood dos primórdios do cinema, entre as décadas de 1920 e 1930, um tempo em que uma imagem literalmente valia mais que mil palavras. Hanavicius construiu uma obra com muito cuidado para fazer o espectador se sentir feliz ao final da projeção e sonhando com um mundo idílico, uma época que infelizmente não volta mais. Apesar do caráter onírico, o enredo enfoca fatos reais e muito importantes tanto para a história da sétima arte quanto para compreendermos a modernização do mundo. O período histórico retratado foi de transformações e decepções para quem já atuava na frente ou atrás das câmeras. Com o advento do som, as películas começaram a exigir vozes que se encaixassem perfeitamente com os personagens e os atores também deveriam ter uma boa dicção. Sotaques só eram permitidos quando exigidos pelo diretor, assim estrangeiros também perderam espaço no cinema americano durante a transição. Quem até então se mantinha trabalhando apenas com seu talento para expressões corporais e faciais precisou correr atrás de aperfeiçoamento ou se conformar que não haveria mais lugar para eles. Assim, grandes astros do cinema mudo, como Rodolfo Valentino, foram sendo esquecidos, mas alguns sobreviveram ao baque da nova tecnologia e se adaptaram ao cinema falado, como Mary Pickford, ainda que a fama não tenha se mantido intacta algumas décadas depois. Já Lilian Gish foi um dos raros casos que surgiu na época do cinema mudo e que se manteve trabalhando até o final da década de 1980. Enquanto isso, Charles Chaplin cultivou sua fama de gênio por muito tempo, mas aposentou o personagem Carlitos em 1936 após uma derradeira tentativa de fazer filmes mudos e já com as cores despontando como a nova moda para pegar nas telonas.
 

Algumas histórias verídicas envolvendo os artistas da época serviram para ajudar na construção do roteiro de O Artista. Aliás, o próprio diretor confessou publicamente que o grande desafio da produção foi roteirizar uma história em cima das descrições de imagens e movimentos, sem um único diálogo. O enredo gira em torno do ator George Valentin (Jean Dujardin) e da dançarina Peppy Miller (Bérénice Nejo) que acabam se apaixonando, mas este amor está ameaçado. Com o advento do som, o astro do cinema mudo entra em franca decadência enquanto sua ambiciosa amada deseja se aproveitar da nova tecnologia para alavancar sua carreira, o que certamente a afastaria dele. O grande conflito do protagonista, portanto, é lidar com a perda de duas coisas importantes da sua vida, já que ele não vê mais chances de trabalho e também não gostaria de viver sob a sombra de uma dama famosa e bem sucedida. Este conto de amor é inspirado no caso dos atores John Gilbert e Greta Garbo que realmente tiveram um romance que não sobreviveu à tecnologia. Segundo dizem, enquanto a estrela fez tranquilamente a transição para as películas sonoras, o ator tentou, mas chegou a ser humilhado publicamente devido a reclamações de Louis B. Mayer, o chefão da MGM, quanto a sua voz. É bom lembrar que este era o grande estúdio da época e ter um contrato com ele era garantia de sucesso.

Embora tente resgatar a estética de antigamente, para quem é entendido da arte cinematográfica o longa conta com algumas falhas na edição e enquadramentos, pequenos detalhes que passam despercebidos pelo público, mas que são característicos de produções das últimas décadas do século 20, portanto, não eram comuns para o cinema antigo. Também pode gerar dúvidas como um filme mudo está colhendo elogios pela sua trilha e efeitos sonoros. Hazanavicius caprichou nestes itens propositalmente, afinal um filme sem ruído algum hoje em dia é algo inimaginável. Naqueles tempos, durante a projeção, as fitas eram acompanhadas de trilha sonora ao vivo e os aplausos e reações das platéias ajudavam a agitar as sessões. O cineasta quis reproduzir isso para fazer o espectador realmente se sentir em uma sessão das antigas. Não é a toa que a parte técnica é a grande aposta para colher estatuetas do Oscar, assim como a parte artística. Os figurinos e cenários ajudam o espectador a compreender a história, assim como a edição, item essencial neste tipo de produção.


De fato, este é um dos raros casos que um filme realmente merece ganhar todas as indicações que conquistou ao Oscar e cada elemento é importante para o desenvolvimento do enredo. Resta saber se a Academia vai reconhecer este trunfo nostálgico ou se entregar ao modernismo ao qual recorreu Martin Scorsese com seu A Invenção de Hugo Carbett, considerado o grande concorrente da festa com suas onze indicações. Será um verdadeiro duelo de titãs entre o antigo e o moderno, já que os demais concorrentes não têm muita chance de ganharem vários troféus. De qualquer forma, a Academia de Cinema provou em 2012 que está aberta para aceitar a produção cinematográfica de outros países e disposta a reconhecer suas qualidades. Para o público, esta é uma oportunidade ímpar de novas gerações usufruírem de uma época magnífica e os de mais idade poderem fazer uma gostosa viagem ao passado, recordar fatos e se divertirem lembrando-se da própria vida e de grandes filmes que ajudaram a escrever a história do cinema. O Artista é literalmente um marco cinematográfico por sua ousadia ou criatividade, os dois adjetivos são válidos, e automaticamente um candidato a clássico moderno.

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