quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ESQUECERAM DE... LADRÃO DE SONHOS

Cada país pode e deve produzir os mais variados estilos de filmes, mas sem querer um ou mais deles acabam se tornando a marca registrada do cinema local. Por exemplo, a cinematografia francesa é muito lembrada pelos romances ligeiros ou dramas pesados, mas garimpando sempre é possível encontrar algum tesouro esquecido nesta filmografia. Uma das obras mais destacadas dos últimos tempos do cinema francês foi O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, uma obra que rompe com estilos narrativos convencionais, além de apresentar inovações no processo de edição e o uso de muitas cores em seus cenários e paisagens. Dirigido por Jean-Pierre Jeunet, certamente o cineasta trouxe para este seu trabalho muito do que aprendeu trabalhando ao lado do diretor Marc Caro. Juntos eles revolucionaram a maneira de fazer filmes na França trabalhando com enredos e visuais criativos capazes de deixar até o excêntrico Tim Burton com inveja. Uma prova disso está em Ladrão de Sonhos (1995), uma fábula infanto-juvenil com toques sombrios, mas ainda assim um tanto onírica.
 
Este tipo de cinema que capta a atenção do espectador muito pelo visual se tornaria bastante popular nos anos seguintes, inclusive em solo americano, mas realmente fica difícil definir se o estilo de Burton influenciou os cineastas franceses neste caso ou se foram eles que inspiraram o gótico diretor em seus projetos futuros. A mistura perfeita de um cenário misterioso com personagens que parecem pinçados de contos de fadas, histórias em quadrinhos, desenhos animados e clássicos da literatura se deve ao fato da produção ter caprichado na criação dos figurinos, maquiagem e acessórios. Todos esses elementos praticamente foram feitos artesanalmente e pouca computação gráfica foi usada, o que torna sua apreciação até mais especial. A fotografia e os ângulos de filmagem ajudam a realçar todos os atributos visuais do longa, sendo possível perceber até mesmo o tipo de materiais utilizados para a confecção de cada peça, e olha que não são poucos os detalhes a serem observados. É interessante reparar também que durante quase toda a duração do filme um tom esverdeado é predominante nas cenas, muito por causa da cor da água que compõem boa parte do cenário já que a história girar em torno de um homem recluso em uma torre no meio do mar, na realidade, as ruínas de uma plataforma petrolífera.




O foco central da narrativa é o sofrimento pelo qual passa Krank (Daniel Emilfork), um homem que envelheceu prematuramente e a cada dia sua própria face deixa transparecer que seu quadro não estagnou. Tal distúrbio ocorre pela incapacidade que ele tem de sonhar e na tentativa de achar uma solução definitiva ou ao menos frear a rápida passagem de sua vida que não acompanha o tempo real, ele passa a sequestrar crianças para roubar seus sonhos através de uma invenção que criou. Miette (Judith Vittet), uma menina com inteligência muito superior ao que a maioria de sua idade possui, tenta barrar este plano com a ajuda do caçador de baleias One (Ron Perlman, muito antes de Hellboy), cujo irmão adotivo, o esfomeado Denree (Joseph Lucien), foi um dos seqüestrados.



One e Miette nem desconfiam que o plano de Krank não deu certo. Diante da figura amedrontadora do cientista, as crianças seqüestradas não conseguem ter sonhos, apenas pesadelos, o que provoca a ira do velho precoce. Quem tenta segurar seus ataques são seus subordinados, criaturas tão estranhas quanto ele, como seus filhos adotivos, uma trupe de clones que sofrem da doença do sono (Dominique Piñon), a esposa, também criada através de uma clonagem mal sucedida, a anã Miss Bismuth (Mireille Mosse), e um cérebro falante que vive dentro de um aquário e tem visões com a ajuda de um aparelho especial, mas que sofre de terríveis enxaquecas. Esse conjunto de seres esquisitos ganha facilmente a simpatia do público e ajudam a dar uma desculpa para continuar assistindo o filme até o fim.




Essa história que se desenrola em tempo e espaço indeterminados obviamente não é para todos os públicos e até mesmo grupos mais seletos não devem aplaudir o longa ou considerá-lo uma perfeição. É preciso confessar. O enredo é bem interessante, o visual é deslumbrante, mas o desenvolvimento do texto deixa um pouco a desejar. Talvez por possuir tantos elementos visuais e muito a ser explorado em cada fotograma, a obra acaba caindo numa armadilha da própria originalidade. Prestamos mais atenção nos elementos cênicos e caracterizações dos personagens do que na história em si. Comumente acabamos entrando em contato inconscientemente com pensamentos oníricos e quando percebemos a narrativa caminhou sem acompanharmos. Apesar de não ser uma produção longa, o ritmo por vezes arrastado colabora para essa dispersão.



Ladrão de Sonhos é um tipo de produto que deveria se encaixar nos gêneros filme experimental ou obra de contribuição artística, isso se essas categorias fossem padrões. Não é um trabalho perfeitinho daquele tipo que você diz que não há nada fora do lugar, pelo contrário, mas se sua narrativa não é totalmente satisfatória, só seu visual já compensa e eleva suas pontuações, ainda mais levando em conta que é um filme francês e que utilizou o que havia de mais moderno no campo dos efeitos especiais da época, porém, com cautela. No conjunto, a produção é um misto de pesadelo e sonho onde tudo é possível, criaturas fantásticas podem surgir a qualquer momento e que não tem o compromisso de ter uma narrativa linear, assim como nossos pensamentos voam livres enquanto dormimos. Bizarro, inovador, criativo, maluco, sem pé e nem cabeça, esses são apenas alguns dos adjetivos que se encaixam com perfeição para resumir esta fábula, tudo depende dos olhos de quem vê. Pena que vê-la hoje em dia é difícil. Obviamente é um título que não faz parte do repetitivo cardápio da TV aberta ou paga e hoje seu DVD está fora do catálogo, embora a Universal o tenha lançado em 2006. Com sorte, garimpando em boas lojas, locadoras ou sebos é possível encontrar essa raridade.

Um comentário:

Guilherme Z. disse...

FILME LADRÃO DE SONHOS A VENDA NO MERCADO LIVRE


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