terça-feira, 20 de março de 2012

ORAR, CANTAR E SE DIVERTIR


Igreja é um lugar aonde você vai para rezar, idolatrar o Senhor, fazer caridades e até se lamentar ou se entristecer dependendo das circunstâncias que o levam à missa ou a uma passada rápida para acender uma vela para algum santo, mas para Whoopi Goldberg esse templo do louvor provavelmente deve ser sinônimo de muita felicidade e dinheiro no bolso, ou melhor, na conta bancária. Seria impossível ela carregar a fortuna que fez com a comédia Mudança de Hábito lançado em 1992, um estrondoso sucesso no mundo todo. Hoje o longa pode não passar de mais um título que abastece as sessões da tarde da TV e que é repetido à exaustão, mas na época foi um dos filmes mais comentados e muita gente o tem como uma grata lembrança do tempo da infância ou da adolescência. A expectativa deste lançamento era grande justamente por causa de sua protagonista que pouco tempo antes havia ganhado o Oscar de atriz coadjuvante por Ghost – Do Outro Lado da Vida, assim entrando para o primeiro time de estrelas de Hollywood. Realmente a atriz estava em ótimo momento profissional, mas a maré boa durou pouco, somente até a sequência desta comédia lançada um ano depois. Desde então, Whoopi tem se envolvido em projetos menores, sem muita projeção. Mesmo assim ela deixou sua marca como se pode ver na cena em destaque. A espalhafatosa intérprete precisou se habituar a usar o hábito (olha o trocadilho), segurar a língua para não deixar palavrões escaparem e ainda ensaiar um coral de freiras um tanto desafinado e desmotivado. Tais cenas são antológicas e o ápice do filme dirigido pelo já falecido Emile Ardolino que já acumulava em seu currículo mais dois clássicos das sessões da tarde, Dirty Dancing – Ritmo Quente e Três Solteirões e Uma Pequena Dama. 
 
A história já é clássica. Deloris Van Cartier (Whoopi) é um cantora de boates que acidentalmente presencia um acidente cometido por seu namorado, Vince LaRocca, um gângster vivido por Harvey Keitel. Depois que declara à polícia tudo que sabe, ela é colocada no programa de proteção às testemunhas e vai parar em um convento, o último lugar que alguém poderia desconfiar que servisse de esconderijo. Sob o pseudônimo de irmã Mary Clarence, Deloris precisa fazer o possível e o impossível para se adaptar a pacata rotina do local, mas seu jeito extrovertido acaba se sobressaindo e isso não agrada nada à Madre Superiora, papel da sempre competente Maggie Smith. A veterana religiosa logo percebe que a freira de mentira seria uma ameaça e tiraria as demais mulheres do caminho imposto pelo Senhor, porém, o estranhamento inicial acaba se transformando em admiração. Responsabilizada de reger um coral, Deloris resolve inovar e colocar vida nas canções sacras impondo ritmo e timbres de vozes vibrantes. O resultado é que ela acaba conseguindo encher a igreja de jovens que não se interessavam por religião e foram atraídos pela música. A própria regente percebe que não é mais a mesma a partir do contato com a religião, mas é óbvio que quando tudo está dando certo no convento inevitavelmente ela terá que enfrentar o passado que a persegue, uma regra básica hollywoodiana. Enfim, Whoopi é imprescindível praticamente o tempo em cena e realmente se entregou ao papel, embora o perfil da personagem aparente não ser muito diferente do que a atriz é na vida real. Curiosamente, a primeira opção para dar vida à Deloris era Bette Midler. É impossível imaginar outra no lugar da debochada Whoopi protagonizando Mudança de Hábito. Sua escalação contribui inclusive para acentuar alguns aspectos críticos. Sinceramente, dificilmente alguém diz que já viu uma freira negra ou que conheceu alguma que usava linguajar popular repleto de gírias. Seriam elas proibidas na casa de Deus? Mistério...

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