sexta-feira, 30 de março de 2012

JOGOS DE MARKETING?

Hollywood há tempos se apóia em franquias de sucesso para garantir seus lucros e até para poder ter caixa para cometer alguns excessos investindo em projetos alternativos e arriscados. Em um passado recente, encheu os cofres de algumas empresas com as bilheterias e vendas de DVDs e bugigangas das trilogias O Senhor dos Anéis e Homem-Aranha. Em 2011, foi a vez de se encerrar as aventuras do bruxinho Harry Potter após uma década de sucesso e a saga Crepúsculo caminha para seu desfecho em breve. Sempre atentos, os produtores e investidores já investigam novas opções para não deixar o mercado esfriar e o público órfão, principalmente os adolescentes que tanto prezam por esse tipo de produções. Eles assistem várias vezes o filme no cinema, depois alugam outras tantas, compram o DVD repleto de materiais extras e sempre poupam dinheiro para adquirir camisetas, pôsteres e demais produtos que possam surgir para prolongar um pouco mais a vida dos personagens que os conquistaram. É pensando nisso que surge agora Jogos Vorazes (2012), que promete ser mais uma franquia a marcar época e render rios de dinheiro. Porém, este lançamento traz um pouco de esperança para aqueles que acham que o cinemão americano está no fundo do poço. É possível sim fazer um filme estilo blockbuster e que não seja uma bobagem qualquer.

Unindo entretenimento e conteúdo para relflexão, esta produção já ganha pontos por respeitar a inteligência do público e até a crítica está a favor. Baseado na série de livros de Suzanne Collins, muito elogiados, diga-se de passagem, o longa aproveita o que há de melhor nestes contos e graças a competência do diretor Gary Ross, de A vida em Preto e Branco e Seabiscuit – Alma de Herói, o material foi adaptado de forma digna para se enquadrar na faixa classificatória que engloba o público-alvo da fita, como já dito, os jovens. Foi o próprio cineasta que escreveu o roteiro baseado no conteúdo do primeiro volume da trilogia e utilizou toda a sua experiência na área para deixar a história redondinha, o máximo possível para deixar a trama compreensível para quem não leu os livros e para deixar os fãs da série literária satisfeitos. Três vezes indicado ao Oscar como roteirista, Ross prova mais uma vez que é competente para a escrita e surpreende também atrás das câmeras, não se deixando seduzir pela grandiosidade da produção, evitando assim jogar a história às favas. Existe vida inteligente ainda em Hollywood.


A história se passa em um futuro pós-guerra em um país chamado Panem que é dividido em doze distritos. Para continuar a exercer controle sobre as demais cidades, a Capital anualmente promove uma competição no chamado Dia da Colheita, quando cada uma das localidades precisa escolher um jovem do sexo masculino e outro do feminino para participarem de uma competição em que apenas uma pessoa pode sobreviver. O combate é acompanhado ao vivo pela televisão por toda a população que quer saber qual dos 24 selecionados irá vencer e garantir um ano de regalias e suprimentos extras ao território que pertence. Como o distrito de número 12 é o mais carente, quase nunca a população de lá é contemplada com o prêmio e isso obrigada os escolhidos da nova edição a se dedicarem muito mais aos exaustivos treinamentos. As coisas complicam quando Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson), a dupla representante, se apaixonam mesmo sabendo que irão mais cedo ou mais tarde lutar até que apenas um deles sobreviva, isso se antes eles vencerem os demais concorrentes e conseguirem ficar para a final.
Seria a história uma alusão ao fascínio que os realities shows exercem sobre as platéias atuais, principalmente as mais novas que estão ainda com caráter e personalidades sendo formadas? Em termos sim, mas a discussão vai muito além do culto da celebridade ou de escolher o participante que mais lhe agrada para ser o vencedor, visto a premissa violenta do enredo. Felizmente Ross conseguiu adequar o conteúdo do livro para atingir platéias mais novas, mas ainda assim mantendo a trama interessante para os adultos. Cortou as sequências originais que julgou desnecessárias, amenizou certas partes, evitou o sensacionalismo na forma de focalizar as mortes, deu especial atenção às cenas de aventura e a pitada de romance está lá para dar um respiro e captar a atenção dos adolescentes que certamente comparecerão em peso nos cinemas e garantirão a produção da versão cinematográfica dos outros dois volumes da trilogia.

Por trás do espetáculo, o longa esconde questões bastante complexas e pertinentes, algo talvez impensável para uma produção com caráter comercial e que visa o público jovem. Dependendo do ponto de vista, o conteúdo apresentado pode ser mal interpretado. Matar outras pessoas para sobreviver remete a idéia da lei do mais forte, só sobrevive à violência quem contra-atacar com as mesmas armas. Assistir uma gincana violenta pela TV é a visualização da secular idéia do espetáculo do pão e circo, o qual a mídia mundial é adepta e obviamente os poderosos se aproveitam para exercer controle. O governo obrigando de fato os jovens a serem agressivos é uma visão apocalíptica de ver a sociedade, mas a realidade não é muito diferente, afinal de contas a desigualdade social imposta pelos governantes é uma das principais razões de acontecerem atos criminosos por parte de pessoas descontentes ou necessitadas. Se aproximar de uma pessoa não deixando claras suas intenções, se realmente é por sentimentos bons ou por puro interesse, também é um tema implícito nesta obra. São conceitos espinhosos que realmente podem ser mal compreendidos por parte do público, mesmo que ela seja uma pequena parcela.
De qualquer forma, só pela ousadia de trabalhar com temas pesados e polêmicos para levar algum conteúdo às platéias mais jovens já faz Jogos Vorazes se destacar e revelar que não é apenas fruto de uma campanha de marketing agressiva que visa extrair o máximo possível do bolso das pessoas. Claro que o objetivo do longa é divertir, o que atinge com perfeição, mas o modo como Ross conduziu os trabalhos de forma que a ação não sobressaísse ao conteúdo merece uma atenção especial. Nas mãos de algum deslumbrado ou inexperiente o projeto poderia ter sido completamente oposto, um verdadeiro espetáculo do horror, incitando as platéias a criarem expectativa sobre as mortes e a ficarem ávidas para verem sangue e explosões a todo instante. Obviamente, não é um filme que agradará a todos, mas para aqueles que estavam com o pé atrás por causa do título que remete a idéia de produções de terror ou de ação descerebrados ou ainda para aqueles que se arrepiaram com a mídia que tratou de comparar o projeto ao “efeito crepúsculo”, fiquem tranquilos. A publicidade não é das melhores, mas a premissa e sua realização são como sopros de originalidade para um mercado saturado. Resta saber se as platéias compreenderão as mensagens implícitas ou vão se ater ao espetáculo visual. Reflexão e cultura ou mundo cão e bizarrices? Felizmente a produção dosa bem as duas coisas, mas a primeira opção leva ligeira vantagem.

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