terça-feira, 13 de março de 2012

MÃOS TALENTOSAS


Tim Burton é um cineasta que escreveu sua trajetória no cinema na base de bizarrices e estilo gótico predominante. Ele próprio tem um visual um tanto excêntrico e por suas predileções o campo do terror e do suspense poderia ser seu habitat natural, mas não é bem assim. Apesar de já ter trabalhado com histórias de arrepiar, o que ele mais gosta mesmo é de fazer as platéias sonharem de forma diferenciada. Com muita sinceridade e sensibilidade o diretor já conseguiu construir verdadeiros clássicos das sessões da tarde que agradam a todas as idades, desde crianças bem pequenas até os idosos, e sempre imprimindo suas marcas. Dificilmente alguém com mais de vinte anos não tem a lembrança de ao menos uma vez na vida ter esperado com ansiedade a exibição na TV ou ter entrado na fila de espera da locadora para assistir Edward Mãos de Tesoura, um daqueles filmes que marcam época mesmo contando uma singela e até certo ponto conhecida história. É óbvio que aqui também faz diferença o apuro visual, mas esqueçam os efeitos especiais mirabolantes. A magia desta produção se concentra em seu aspecto artesanal, parece que tudo realmente foi feito por mãos talentosas e precisas, como podemos observar na cena em destaque. Nela podemos ver o protagonista caminhando pelo jardim que ele próprio mantém há anos podando cada árvore ou planta em formato de esculturas, uma febre que tomou conta dos jardins de muitas residências na década de 1990. O detalhe é que as tesouras que o rapaz usa estão substituindo suas mãos. Este era apenas um dos primeiros trabalhos de Burton como diretor em uma grande produção, mas já imprimia alguns elementos que se tornariam a marca registrada de sua filmografia. Além do apreço pelo bizarro e o gótico, aqui ele também mostra criatividade para mesclar a fantasia e referências cinematográficas e literárias de forma que até o público infantil se sentisse atraído para entrar nesse misterioso e fascinante mundo. A história de Edward, vivido por Johnny Depp em sua primeira parceria com o cineasta, lembra um pouco o conto do “Frankenstein”. Seu criador, o lorde dos filmes antigos de horror Vicent Price, vivia isolado em um castelo no alto de uma montanha e passava seu tempo inventando coisas. Sua obsessão era criar um ser humano praticamente perfeito, mas acabou falecendo antes de completar seu último projeto, assim Edward foi obrigado a aprender a conviver com afiadas lâminas no lugar de suas mãos.
Apesar da aparência estranha, pálida e com cabelos desgrenhados, características que curiosamente se assemelham ao visual do próprio Burton, Edward é muito dócil, mas qualquer contato com ele pode oferecer perigo, porém, não é culpa do rapaz que na verdade é muito educado. Bem, fazer mal a alguém seria muito difícil, afinal ele passou boa parte do tempo trancado no castelo descobrindo um talento especial para cortar as coisas, assim criando um belíssimo e inovador jardim. Sua vida muda completamente quando Peg Bobbs, interpretada pela onipresente nos sucesso do passado Dianne Wiest, bate à sua parte. Ela é uma vendedora de cosméticos que fica com pena do rapaz e resolve ajudá-lo levando-o para sua casa. A partir daí o roteiro segue a linha tradicional de qualquer história que tenha como mote principal a inclusão do diferente em uma sociedade padronizada. O ser esquisito se sente um peixe fora d’água, arruma confusões, atrai atenções de alguns e desperta a raiva de outros, no caso, os homens da pacata cidadezinha onde a trama se desenrola que ficam com ciúmes do sucesso de Edward junto as mulheres que fazem fila para conseguirem um corte de cabelo especial. Embora muitas situações que recheiam o longa sejam um tanto clichês (talvez na época não fossem), Burton consegue trabalhar com elementos que acabam encantando o espectador que embarca facilmente nessa fábula. O romance do protagonista com a personagem de Winona Ryder, Kim, a filha da vendedora, não chega a ser arrebatador, mas é tocante na medida certa para passar a grande mensagem da obra: ser diferente não quer dizer o mesmo que ser uma ameaça e todos devem ter a chance de provar seus valores e sentimentos. A conclusão lembra um pouco o conto de “A Bela e a Fera”. Edward passa a ser perseguido por vários habitantes da cidade em que ele chegou para atrapalhar a harmonia e é seguido até seu castelo como se estivesse sendo a vítima de uma caça à besta. Diferentemente do famoso desenho Disney em que o perseguido tem um final feliz, aqui o protagonista vive uma felicidade diferenciada. Volta a viver recluso em seu castelo, mas não está mais sozinho. As lembranças afetivas que tem de Kim são suficientes para alegrá-lo e assim ele continua produzindo suas esculturas no jardim, seja primavera ou até mesmo inverno, assim criando belas alegorias em gelo e culminando em um poético final. Edward Mãos de Tesoura é um daqueles títulos que não foi super premiado e tampouco a crítica o aponta nas listas de melhores filmes, mas certamente quem já o assistiu reserva um lugar especial para ele em seu coração e mente. Só podia mesmo ser obra de mão talentosas como as de Tim Burton.

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