terça-feira, 18 de outubro de 2011

VÁ DE RETRO SATANÁS


Uma jovem aparentemente inocente, mas com andar e gestos estranhos, caminhando em direção a uma árvore seca em meio a um clima enevoado. Esta cena simplória acabou se tornando uma marca registrada de um filme de terror, ou melhor, vendido como uma produção de horror, mas que no fundo tem um aspecto dramático bem mais profundo e característico. Tal cena ganhou tanto destaque que acabou sendo usada para ilustrar o material publicitário de O Exorcismo de Emily Rose, do diretor Scott Derrickson lançado em 2005. Apesar de muitos jurarem que ficaram impressionados e mal conseguiram pregar os olhos por uma ou algumas noites, este longa deixou outros tantos espectadores decepcionados. Por causa do título, muitos esperavam ver algo tão impactante quanto O Exorcista dos anos 70 ou embarcar em uma montanha russa de sustos e gritos. Bem, cenas apavorantes e carregadas de tensão existem aqui em doses homeopáticas, porém, o cineasta foi esperto ao dar uma linha narrativa diferenciada a sua obra, assim seu período de esforços neste trabalho não foi em vão e ele injetou um pouco de ânimo no estagnado gênero de terror e suspense que talvez desde 1999, quando foi lançado O Sexto Sentido, não se via inovações. O fio condutor da trama é o julgamento do padre Richard Moore vivido por Tom Wilkinson. Ele é acusado da morte da jovem Emily Rose, a estreante Jennifer Carpenter. Submetida a tratamentos médicos, constata-se que a jovem sofre de um distúrbio em que o indivíduo tem ao mesmo tempo surtos de esquizofrenia, psicose e epilepsia. A medicação prescrita seriam entorpecentes e sedativos que poderiam agravar ainda mais o quadro. A certa altura dos acontecimentos, Moore está convencido que o caso trata-se de possessão demoníaca e a aconselha a deixar de lado o tratamento clínico e se submeter a uma sessão de exorcismo. Infelizmente, a cerimônia de expulsão do demônio falha e logo em seguida ela vem a falecer e o padre então é levado à corte sob as acusações de negligência e homicídio doloso.  

Todo o processo doloroso da possessão de Emily é mostrado em flashbacks enquanto o debate no julgamento do padre se torna cada vez mais acalorado. O promotor público Ethan Thomas, papel de Campbell Scott se auto-declara um homem de fé, mas também um homem de fatos e é o responsável em comprovar a atuação de Moore na morte da jovem. Já a advogada de defesa vivida por Laura Linney, Erin Bruner, se define como uma agnóstica, mas conforme avança nas investigações do caso passa a mudar de opinião a respeito das crenças. Cada um deles procura de todas as formas defenderem seus pontos de vistas e as cenas que reforçam essas explicações são retratadas sempre de duas formas diferentes, assim o filme deixa aberta ao público a decisão de que lado acreditar. Dessa forma esta obra foge do lugar comum. Além da duração fora dos padrões do gênero, quase duas horas, a intercalação das cenas pesadas com as de tribunal ajudam a dar um respiro ao espectador e diminuir os níveis de adrenalina e tensão. Todos os atores apresentam atuações calmas, comedidas e totalmente verossímeis. A gritaria e agitação ficam por conta de Jennifer estreando no cinema com o pé direito e tão bem no papel de endemoniada quanto Linda Blair no já citado clássico sobre exorcismo de décadas atrás. Dizem que mexer com o "coisa ruim" não é bom e que estranhos e ruins acontecimentos mais cedo ou mais tarde podem ocorrer com os envolvidos na produção do filme. Quanto a obra de Derrickson, não foram espalhados boatos sobre mortes e acidentes como no caso do trabalho de William Friedkin, mas é fato que a carreira das possuídas de ambos os filmes, apesar das interpretações elogiadas, não decolou. Sem boatos sobrenaturais rondando a produção do longa, trabalha a favor de sua longevidade o fato da história ser baseada em fatos reais acerca da morte da alemã Anneliese Michel ocorrida em 1976, inclusive existem diversos estudos e análises sobre este caso tanto pela ótica jurídica quanto pela religiosa e espiritual. O Exorcismo de Emily Rose apresenta esses pontos de vistas ao grande público com perfeição e sem tomar partido de nenhum lado. Para aqueles que não assistiram ainda por medo, tome coragem e invista neste que é um dos melhores produtos de terror dos últimos anos e de quebra é um bom material de apoio às pessoas que trabalham ou estudam com questões jurídicas. Quanto as cenas assustadoras oferecidas em pequenas, mas certeiras doses, não se preocupe, ainda bem que existe a tecla de passar para a frente no controle remoto.

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