terça-feira, 24 de julho de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - SEMPRE AO SEU LADO

Ter estampado no material publicitário de um filme as palavras baseado em fatos reais já pode ser considerado meio caminho andado para o sucesso, principalmente se o longa em questão for um drama. É curioso o fato de uma nova vertente do gênero estar cada vez mais ganhando adeptos sendo que antes ela era relegada apenas ao público infantil. A relação de amizade entre um cão e um humano já foi um tema explorado em dezenas de produções do cinema e telefilmes, mas foi junto às crianças que atingiu seu ápice. Porém, após o estrondoso sucesso de Marley e Eu entre as platéias adultas, parece que Hollywood despertou para um novo filão a ser explorado. De forma mais madura e realista, alguns animais de estimação têm sido retratados em produções que não visam a gargalhada dos pequenos em busca de piadas de cachorrinhos falantes ou super enfeitados para deleite de suas donas. Basta apresentar o animal de forma digna e realista para conquistar a simpatia do espectador de qualquer idade e a prova esta em Sempre ao Seu Lado (2009).

O ditado popular “o cão é o melhor amigo do homem” ganhou um belo e sincero registro cinematográfico pelas mãos de Lasse Hallström, diretor experiente em dramas, mas que já viveu fases melhores. Mesmo exagerando no ritmo arrastado e na exagerada e lacrimosa trilha sonora, marcas constantes em seus trabalhos, o cineasta mais uma vez conseguiu envolver o espectador com uma história singela e que tem muito a ensinar. A trama é muito simples e aparentemente pode parecer desinteressante, mas o modo de contá-la faz toda a diferença. Um cão da raça japonesa akita é encontrado vagando em uma estação de metrô pelo professor universitário Wilson Parker (Richard Gere) que tenta ajudá-lo a encontrar o seu dono, mas sem sucesso. Com pena do bichinho ele decide levá-lo provisoriamente para sua casa sem imaginar que estava colocando em seu lar o mais fiel companheiro de toda a sua vida. Inicialmente, sua esposa Cate (Joan Allen) não gosta da idéia de ter um cachorro em casa, mas acaba sendo tocada pela bela relação de cumplicidade que surge entre o marido e Hachiko, como o batizaram.

O público começa a se emocionar pra valer ao acompanhar a rotina do professor e seu novo amigo. Diariamente, Hachiko, acompanha Parker até a estação de metrô e também o aguarda voltar do trabalho. Essa rotina é mantida por muitos anos o que desperta o carinho e a simpatia dos frequentadores do local que admiram tal união. Bem, é impossível fazer comentários deste filme sem revelar a grande virada do roteiro, até porque as lágrimas começam a rolar muito antes do final, mas é bom lembrar que o importante é observar a maneira como o enredo é trabalhado e não se preocupar se o fim é previsível ou não. Em um fatídico dia, Parker acaba falecendo inesperadamente, mas ainda assim seu fiel companheiro continua fazendo o mesmo trajeto por quase dez anos a espera que seu dono voltasse. Enquanto isso, ele recebe atenção e cuidados de estranhos e da família de seu dono até seu último suspiro. Vale ressaltar um deslize leve da produção. A visão que o cachorro tem de tudo que acontece ao seu redor é passada ao espectador em imagens em preto e branco, mas o recurso é abandonado assim que o personagem de Gere sai de cena.
Algumas pessoas podem achar que a história seria mais interessante caso Hachiko fosse abandonado pela família de Parker após seu falecimento, mas aí seria muita desgraça para um pobre cãozinho e até mesmo para o espectador suportar. Essa mudança de foco também fugiria do conto original que deu origem ao roteiro, inspirado em fatos ocorridos no Japão nos primeiros anos do século 20 e que acabou se tornando uma lenda local utilizada até mesmo em escolas devido a sua mensagem de leadade e amor ao próximo. O mito é tão popular em terras japonesas que até hoje existe uma estátua de Hachiko no mesmo ponto da estação de metrô em que diariamente ele aguardava seu dono, vaga que ocupou até seu último dia de vida. No final da década de 1980, o lendário cãozinho chegou as telas de cinema em Hachiko Monogatari, um sucesso japonês jamais exibido no Brasil. O longa certamente inspirou Hallström que tomou certas liberdades na adaptação ocidental, como a adição do personagem Ken (Cary-Hiroyuki Tagawa) inserido na trama para ligar as duas versões cinematográficas. Ele traz a tona algumas crendices japonesas, como a idéia de que é o cão que escolhe seu dono e por isso ele estava presente na estação de metrô justamente quando Parker estava lá, e também é o responsável pelo batismo do bichinho. Hachiko significa ligação entre os planos terrenos e superiores, o que fica evidente na metade do filme, quando Parker deixa de existir para os humanos, mas permanece vivo na memória e no coração do cachorro.


Lançado pouco tempo depois que o simpático Marley ganhou as telonas, este trabalho que segue praticamente a mesma cartilha não obteve o mesmo sucesso, embora para muitos já tenha se tornado um novo clássico para toda a família assistir de tempos em tempos e renovar os sentimentos. Todavia, faltou um pouco de humor à narrativa, o que fatalmente afasta as crianças e logo seus familiares que as acompanham, o que explica a recepção morna e as fracas bilheterias em todo o mundo. Fora do calor do “lançamento da semana”, é possível reavaliar positivamente a obra e se surpreender. Embora muitos possam acusar de piegas ou chato, Sempre ao Seu Lado tem muitas qualidades. O estilo dramático exagerado de Hallström combina bem com a história e ele também se preocupou em  traduzir no visual o espírito melancólico da obra, o que fica evidente pelas belas locações que escolheu e os enquadramentos da fotografia que deixam no ar um clima ora acolhedor e ora solitário acompanhando a narrativa com precisão. É muito bom acompanhar um filme que mesmo já se sabendo qual é o final consegue te envolver investindo em pura emoção, o que só confirma o talento do cineasta em questão para lidar com a construção de enredos e personagens interessantes, mesmo que o protagonista, digamos assim, não fale uma palavra sequer.

2 comentários:

Rafael W. disse...

Entre um ou outro exagero dramático, é um filme que consegue emocionar de forma genuina. A virada no meio do filme me surpreendeu.

http://avozdocinefilo.blogspot.com.br/

Luís disse...

Não me emocionei, absolutamente, assistindo a esse filme. Achei-o tão indutivo e pretensioso que não via a hora de que terminasse.

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