sexta-feira, 27 de julho de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - NAMORADOS PARA SEMPRE

No Brasil temos os mais variados tipos de clima o ano todo, mas, teoricamente, o inverno é o período em que o frio  predomina, época perfeita para ficar em casa embaixo das cobertas curtindo um bom filme. Algumas produções conseguem uma conexão com esse clima, ampliando os efeitos desse momento de relaxamento e Namorados Para Sempre (2010) é um bom exemplo. O longa não se caracteriza por uma paisagem gélida de neve ou uma chuva ou garoa constante, mas a sensação de frio que ele transmite se deve ao espírito de seus protagonistas e a melancolia predominante ao redor deles. Para quem gosta de histórias mais intimistas e sobre relações humanas este é um prato cheio e dos bons. Este é mais um exemplo de produção que participou timidamente das premiações, mas que se revela tão interessante quantos os títulos mais bombados da temporada de troféus de 2011.

A história basicamente tem apenas dois personagens em cena. Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) são casados há cerca de cinco anos, a mesma idade da filhinha deles. Após um tórrido período de namoro, a moça se descobre grávida e o rapaz propõe o casamento, mas o fogo do início vai pouco a pouco esfriando até o ponto em que eles concordam em passar uma noite sozinhos em um quarto de motel para reavaliar suas vidas, no que erraram na relação e se vale a pena seguir adiante. O longa então vai e volta no tempo estabelecendo duas tramas paralelas. Enquanto o casal discute a relação em um ambiente escuro e claustrofóbico, em pontos estratégicos são inseridos flashbacks que contam como foi o início da relação desses jovens, desde um primeiro encontro por acaso, passando pelos vários encontros divertidos que tiveram até o dia em que trocaram alianças. A alegria e a inocência de dias e dias de convivência pacífica contrastam com a melancolia e a insatisfação latentes que explodem em uma única noite que pode ser o derradeiro encontro afetivo dos jovens.

A estrutura narrativa adotada pelo diretor e roteirista Derek Cianfrance, estreando no cinema ficcional após uma bem-sucedida carreira no campo dos documentários, não é nenhuma novidade. Vários outros títulos já usaram o recurso de alinhavar tramas sem ordem cronológica certa, mesmo tendo poucos personagens. Aliás, ter praticamente apenas dois atores em cena também é bem comum e a fórmula atingiu seu auge com os longas Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, ambos trabalhos que se correlacionam e estrelados por Julie Delpy e Ethan Hawke. A diferença da produção aqui destacada é que a opção dos flashbacks é extremamente eficiente para dar movimento ao filme e prender mais a atenção do espectador que passa a criar um vínculo bem maior com a história do casal. Aliás, os atores, provando serem profissionais excepcionais, aceitaram o convite para este projeto cerca de uma década antes das filmagens começarem, chegando inclusive a viverem por um tempo juntos para criarem mais intimidade. Todo esse processo foi visualizado pelo cineasta como forma de extrair o máximo possível de seu elenco tanto no início do relacionamento quanto quando ele está por um fio.
O título desta produção é um caso a ser analisado. Embora se encaixe perfeitamente à mensagem que o longa nos deixa ao subirem os créditos finais, ao mesmo tempo ela pode passar a equivocada idéia de que se trata de um romance leve que promete um final no melhor estilo felizes para sempre. Esta é a principal causa do repúdio de boa parte das pessoas que já o assistiram. Com um estilo mais reflexivo, a história não é alegre e tampouco divertida, existe apenas um ou outro momento mais alto astral. No conjunto predomina um clima frio, triste e inquietante que prepara o terreno para que o diretor use sua câmera quase de modo documental, buscando pequenos lampejos de olhares, sorrisos ou gestos significativos acompanhados de sutis ruídos, sejam os barulhos naturais do ambiente ou o palpitar dos corações dos protagonistas, bem como suas respirações ofegantes, seja pelo impulso do amor da juventude ou pelo medo da frustração da maturidade.

É um pouco difícil falar deste drama sem revelar seu final. O que se pode dizer é que o título nacional faz jus à conclusão. Vivemos em uma sociedade que obriga as pessoas a passarem por fases e estas marcam a passagem de tempo da vida de cada um. Até a casa dos 30 anos é a época de casar, a década seguinte de procriar, depois segurar a barra durante uma eminente crise no relacionamento, mas lembrar que em breve os netos chegarão e eles vão gostar de ver os avós bem e juntos. Por fim, esperar que a morte chegue. O que muita gente ligada as convenções não percebe é que pouquíssimos casais vivem o fogo da paixão intensamente do início ao fim de um casamento. Para muitos o amor dura alguns poucos anos, mas para não virar alvo de fofoca e de olhares maldosos o melhor é viver uma vida de aparências e na base da amizade na intimidade na melhor das hipóteses. Os protagonistas de Namorados Para Sempre tomam a sábia decisão de guardar as boas lembranças da relação antes que elas sejam apagadas pela mágoa ou até mesmo ódio.  Dessa forma, Cindy e Dean têm a possibilidade de viverem eternamente enamorados independente de estarem ou não juntos como marido e mulher.

Um comentário:

Rafael W. disse...

Um grande filme. O que o difere da maioria é sua visão realista e pesada, mas também sensível sobre um relacionamento conturbado, mas que lá no fundo, é verdadeiro, apesar do desfecho longe do "final feliz".

http://avozdocinefilo.blogspot.com.br/

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