terça-feira, 3 de julho de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Existem filmes que demoram anos para serem lançados não pelo motivo de problemas com a produção, mas simplesmente pelo capricho de seus realizadores na ânsia de criarem um marco cinematográfico. Stanley Kubrick é responsável por obras emblemáticas como Laranja Mecânica e passava até mesmo anos trabalhando em cima de um mesmo projeto até que o considerasse perfeito, mas não viveu para ver sua última criação sair do papel. Já Steven Spielberg se acostumou a lançar filmes em curtos espaços de tempo com produções complicadas alternando com obras mais simplórias, assim agradando as platéias que só querem se divertir e aquelas que desejam um produto com mais conteúdo e de quebra mantendo seu nome em evidência constantemente. Era um sonho de ambos um dia poderem dividir os créditos de uma mesma produção, mas o falecimento de Kubrick jogou o projeto no limbo. Ou melhor, por pouco isso mesmo aconteceu. Como forma de homenagear o colega, o homem que tornou real as imagens de alienígenas e até ressuscitou os dinossauros assumiu as rédeas de A.I. – Inteligência Artificial (2001), um longa que dividiu e ainda divide as opiniões de especialistas e do público.  

Kubrick sempre deixou explícito em suas obras, de forma leve ou pesada, idéias pessimistas e apocalípticas quanto a sociedade e o destino da humanidade. Curiosamente, partiu dele mesmo a iniciativa de desenvolver um enredo acerca de um menino-robô dotado de emoções que é adotado por um casal para substituir o filho verdadeiro. Baseando-se no livro “Super Brinquedos Duram o Verão Inteiro”, de Brian Aldiss, no final dos anos 70 o cineasta tinha acordado que faria o roteiro, mas entregaria o cargo de diretor à Spielberg que na época já demonstrava uma habilidade ímpar para lidar com efeitos especiais sem que eles se sobressaíssem a emoção. O problema é que a tecnologia disponível na época não permitia as criações tanto de ambientes quanto de personagens cogitadas. As conversas foram retomadas em 1994 após o estrondoso êxito de Jurassic Park revolucionando o campo tecnológico. Nada mais parecia impossível. Até 1999, Kubrick estava envolvido com De Olhos Bem Fechados, tumultuada produção que parecia nunca ter fim e que teve cenas reescritas e refilmadas à exaustão. Só com a conclusão é que o cineasta se voltaria ao antigo sonho e desta vez convencido pelo próprio Spielberg a sentar-se na cadeira de diretor. Com o falecimento do entusiasta da produção, tudo voltou a estava zero até que o criador de clássicos como Tubarão e A Lista de Schindler resolveu escrever ele próprio o roteiro baseado nas lembranças de conversas que teve com o amigo ao mesmo tempo em que assumiu a câmera.



O fato de Spielberg ser o responsável pelo roteiro final é um dos pontos de discussão. Muitos dizem que nas mãos de Kubrick o filme seria completamente diferente. Embora com um texto correto, linear e com doses generosas de emoção e conteúdo crítico, a discórdia fica por conta do ar inocente que a produção ganhou quando era esperado algo mais apocalíptico e analítico, afinal o pessoal do marketing fez questão (e com razão) de manter o nome dos dois cineastas de prestígio em destaque nos materiais publicitários. A premissa de ambos seria a mesma. Na metade do século 21, boa parte das cidades litorâneas do planeta está parcialmente submersas, reação ao efeito estufa. Em prédios bem acima da superfície moram as famílias que se salvaram do desastre ambiental, todas usufruindo dos benefícios dos avanços tecnológicos. Um destes núcleos é formado pelo casal Monica (Frances O’Connor) e Henry Swinton (Sam Robards) que sofrem com o estado de coma do filho Martin (Jake Thomas). Eles esperam uma cura para a sua doença deixando-o praticamente congelado e não podem tentar ter outro filho devido ao controle de natalidade em vigor. Henry então procura o professor Hobby (William Hurt) a procura de algo inusitado: uma criança-robô para suprir a falta de seu filho. Assim, David (Haley Joel Osment) entra nesta família e com algumas palavras pré-determinadas um código irreversível é ativado para lhe dar uma vida quase humana.

Projetado para amar incondicionalmente, com direito a expressões faciais de emoção, o novo membro do clã sofre inicialmente a rejeição da mãe, mas conforme o tempo passa a relação entre eles é estabilizada. Porém, algo mais a frente acontece e David precisa ser devolvido à fábrica onde certamente seria destruído. Monica então o abandona em uma floresta na pretensão de salvá-lo, mas o destino do robozinho não será nada feliz.  Em busca da Fada Azul, a mesma da história de Pinóquio, o garoto parte em uma jornada para tentar realizar seu único objetivo: tornar-se um menino de verdade para agradar sua mãe, já que ele acredita que ela não gostava dele por ele ser um robô. Nesta epopéia ele ganha a companhia de Joe (Jude Law), criado para aparentar ser um jovem humano e utilizado como gigolô, um personagem interessante visualmente, mas que foi pouco aproveitado para não comprometer a pureza da história. Porém, ele também não está a salvo mesmo no mundo habitado pelos cibernéticos rejeitados. Como o longa é literalmente longo (aproximadamente duas horas e vinte minutos), podemos chegar ao término com a sensação de que também vimos dois finais diferentes brilhantemente amarrados. Não cabe estragar a surpresa, mas um é bem crível e realista, talvez a conclusão dos sonhos de Kubrick. A outra é claramente emotiva e fantasiosa para deixar qualquer um de coração mole, uma opção de Spielberg para dar algumas respostas desnecessárias aos espectadores. Quem espera ver uma super ficção científica a esta altura já está arrancando os cabelos de impaciência, mas para aqueles que curtem emoção genuína na tela, esta opção é inesquecível.

 

É muito difícil escrever sobre A. I. – Inteligência Artificial simplesmente porque ele é um produto único e marcante e nestas condições oferece muitos aspectos a serem observados, sejam eles positivos ou negativos. Podemos dividir a obra em diversos atos, mas é impressionante a naturalidade com a qual a narrativa transita entre os gêneros drama e ficção, prevalecendo em nossas memórias as lembranças do primeiro. É impossível não se emocionar com Osment em um papel infinitamente superior a sua estréia em O Sexto Sentido e ao chegarmos aos créditos finais pensarmos em questões éticas, familiares, sociais e emocionais. É estranho observar que o tempo passa, já se passaram dez anos desde o seu lançamento, e esta obra-prima do cinema ainda não adquiriu o status que merece. Criativo, inteligente, racional e emotivo, este é sem dúvida um dos melhores filmes da primeira década do século 21 e merece ser visto por novas platéias e por aqueles que na época não se interessaram. Ah, você assistiu e detestou, não indicaria ao seu pior inimigo, mas enche a boca para dizer que Blade Runner e outros tantos títulos festejados pela crítica são também seus preferidos?  Favor, não se auto-intitule cinéfilo de carteirinha.

2 comentários:

renatocinema disse...

Assisti ao filme no cinema e tenho que assumir: AMEI O RESULTADO COMO UM TODO.

Porém...os minutos finais, bem estilo Spielberg e não Kubrick não me agradaram em nada. Existem coisas que não precisam ser ditas ou explicadas na arte.

Se não fosse o finalzinho....seria um filme nota 11......na minha visão.

Luís disse...

Vi faz tanto tempo, não uma vez só, que não me lembro. Mas lembro que havia algo no filme cujo resultado me agradou muito, mas parece que seria ainda mais impressionante fossem as mãos de Kubrik nessa direção.

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